UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (108) – Reposição

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A PRAIA DE MIRAGAIA

Pois, na realidade, até meados do século XIX, Miragaia tinha uma praia, fluvial, é certo, mas uma praia.
Estamos no local onde, até 1522, quase nada havia, a não ser a Muralha Fernandina que, no local, tinha um “postigo”, a que chamavam de “Praia”. Nesse ano, o Rei D. Manuel I, mandou destruir o postigo, e em seu lugar edificar uma porta, de grandes dimensões, , tornando-a a principal porta da cidade, uma vez que a chegada ao Porto se fazia preferencialmente por via marítima e fluvial.
O Brasão que nessa porta, a que chamaram “Nobre” ou “Nova” (pois que passaram a entrar e a sair da cidade, as figuras ilustres da Nobreza e do Clero, bem assim como as personalidades importantes que a visitavam), foi, no entanto, o que existia no postigo antigo, com as armas de D. Fernando.

PORTA NOVA ou NOBRE
PORTA NOVA ou NOBRE

Sobre a Porta foi construída uma casa para a Guarda e para inspecções sanitárias.
Esta Porta foi demolida em 1872 (foi a penúltima porta da muralha da cidade a ser eliminada. Seguir-se-ia a Porta do Sol por volta de 1875) e, as pedras de armas que se encontravam por cima desta, de D. Fernando e de D. Manuel, estão no Museu Nacional de Soares dos Reis. A Porta e o fortim redondo que a protegia, e que teve como último uso o de depósito de armas, foram destruídos (em parte soterrados) com a construção da nova Alfândega e a abertura da Rua Nova da Alfândega.

PORTA NOBRE E PRAIA DE MIRAGAIA
PORTA NOBRE E PRAIA DE MIRAGAIA

A Alfândega do Porto, cuja construção começou em 1859 e se prolongou até finais da década de 1870, foi construída sobre estacaria e ocupou a antiga praia de Miragaia, no local onde desagua o Rio Frio. Possuía um cais e linhas férreas (tanto no interior como no exterior do edifício), linguetas, guindastes e tudo o mais que fosse necessário ao apoio à carga, descarga e movimentação de mercadorias.
A construção da Alfândega (esta, a Nova, que a velha, a Alfândega de Massarelos, funcionara desde 1822 e durante cinquenta anos no “Caes Novo”) alterou de modo substancial o perfil ribeirinho daquela parte da cidade, vindo a separar as populações ali residentes do rio, alterando a vida de muita gente. Deixaram de o ver, a ele, rio Douro, que nos dias calmos corria ao nível do piso da rua de Miragaia e, naturalmente, deixaram de mirar Gaia. Como seria agradável estar à janela e olhar o areal e o rio, em vez de ter, como paisagem e à distância de uma dezena de metros, um muro de pedra de quase dois andares de altura. Este muro, por onde passa a rua Nova da Alfândega, tem, no seu espaço interior, subterrâneos tapados aos olhares do público e, por isso, pela maioria, desconhecidos.

VISTA DA RUA DE MIRAGAIA PARA A ALFÂNDEGA
VISTA DA RUA DE MIRAGAIA PARA A ALFÂNDEGA

Por causa da construção do muro que suportaria a rua, a fonte, possivelmente a mais antiga da cidade (está datada de 1629), quase desapareceu, escondida num plano inferior à nova rua, e encostada ao Largo da Alfândega. Como a rua de Miragaia ficou dividida, a fonte (Chafariz da Colher), ficou num gaveto, sem saída e sem visibilidade. Deve o seu nome ao facto da sua construção ter sido custeada pela parte dum imposto pago ao Bispo do Porto, chamado também de “colher”, aplicado aos géneros alimentícios que entravam na cidade (uma colher por cada alqueire trazido, e cada alqueire tinha quarenta colheres).

A sua água foi, à época, considerada uma das melhores da cidade.

A Fonte foi restaurada em 1940.

FONTE DA COLHER
FONTE DA COLHER

Muito perto da fonte, por cima da Casa Mara, está uma marca que mostra até onde chegou a água nas cheias de 1962. Quase ao primeiro andar das casas.

MARCA DA CHEIA DE 1962
MARCA DA CHEIA DE 1962

Na rua de Miragaia, mesmo ao lado do World Of Discoveries, de que já aqui falei numa crónica, nasceu um dos grandes vultos da cidade do Porto. Trata-se de Tomás Antônio Gonzaga, nascido a 11 de Agosto de 1744. Foi jurista, poeta e activista político. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades tem em “Marília de Dirceu”, a sua obra mais estudada. Faleceu por volta de 1810 na Ilha de Moçambique.

CASA ONDE NASCEU TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA
CASA ONDE NASCEU TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA

A Alfândega, foi construída pela “Casa Seyrig” (construtora da Ponte Luís I), pelo que é fácil entender as inúmeras estruturas metálicas que a suportam.
Em 1888 foi construída uma ligação de caminho-de-ferro entre a Alfândega e a Estação de Comboios de Campanhã, vencendo os declives da Sé e dos Guindais. Uma obra de engenharia notável, que serviu para facilitar o transporte de mercadorias. Hoje, esse trajecto, feito em grande parte por túnel, está desactivado e ao abandono.
Ao mesmo tempo, foi aberta a rua Nova da Alfândega. O desenvolvimento da zona foi quase imediato.

RUA DE MIRAGAIA - RUA NOVA DA ALFÂNDEGA - ALFÂNDEGA DO PORTO
RUA DE MIRAGAIA – RUA NOVA DA ALFÂNDEGA – ALFÂNDEGA DO PORTO

A Praia de Miragaia teve ainda, reza a lenda, uma importância fundamental na gastronomia Portuense.
A construção das Naus, que iriam partir para Ceuta em 1415, teve de passar a efectuar-se no areal da Praia de Miragaia, onde se construiu um estaleiro. Tudo por causa da construção da Muralha Fernandina. Este estaleiro tornou-se o maior do País.
O Infante D. Henrique veio ao Porto, verificar o andamento dos trabalhos no estaleiro, e, preocupado, pediu um esforço adicional aos trabalhadores. Estes, em conjunto com toda a população da cidade, decidiram, para além do seu trabalho, oferecer toda a carne da cidade aos marinheiros, ficando para si com as tripas. E, como a necessidade aguça o engenho, com o passar dos tempos e o apurar das receitas (lembremo-nos que o feijão só chegou à Europa no século XVII), criaram um dos mais maravilhosos pratos da nossa gastronomia, as Tripas à Moda do Porto.
Há outras lendas, que marcam o aparecimento das nossas Tripas, como por exemplo uma que estará datada do século XII e que fala do Bispo do Porto que, de uma maneira semelhante à história anterior, decidiu apoiar a frota das Cruzadas. Ou uma outra que situa a história na época do Cerco do Porto, em 1832, quando a fome grassava na cidade. Mais uma vez, a necessidade, aguçadora do engenho, fez com que, na falta de carne, se confeccionassem os miúdos.
Mas estas são já outras lendas que nada têm a ver com a Praia de Miragaia.

ALFÂNDEGA DO PORTO CENTRO DE CONGRESSOS DO PORTO VISTA DO RIO
ALFÂNDEGA DO PORTO
CENTRO DE CONGRESSOS DO PORTO
VISTA DO RIO

A Alfândega do Porto, é nos dias de hoje, um Centro de Congressos.
O Centro de Congressos da Alfândega do Porto recebeu no dia 2 de Outubro de 2015, em Londres, o prémio para Melhor Centro de Conferências da Europa (“Best Meeting and Conference Centre – Europe” da “Business Destinations Travel Awards 2015”), transformando-se no primeiro equipamento do género a receber a distinção pelo segundo ano consecutivo.

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FOI ASSIM HOJE DE TARDE

 

https://fb.watch/51ztsldA8l/

(Por favor “clique” em cima do “link” para poder visualizar o vídeo)

 

Carta de Camilo Pessanha para ler nos cem anos da“CLEPSIDRA”(1920-2020)

A música andou por mim,
Fiz-me poema, também,
O violoncelo trouxe versos
Que deram vida a quanto escrevi,
Fui além do que senti.
Ao Oriente chegaram as palavras
Por onde viajei,
Naus e aves
Foram canto e encanto
Por quanto andei.
Fiz-me poema, sim,
À poesia sempre me dei,
sempre me dei sem fim.
Do que vivi,
Do que escrevi,
Fica a viagem que o tempo me deu
Para dizer que valeu a pena
A poesia que em mim viveu.

José Valle de Figueiredo

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FOI ASSIM NO PASSADO DIA 16

III CONGRESSO DOS CAMINHOS DE SANTIAGO – PORTO

 

https://fb.watch/4-Zsud8rQ6/ 

(Por favor “clique” em cima do “link” para poder visualizar o vídeo)

 

14ª e última sessão do Curso sobre o Antigo Egipto

A ESCRITA HIEROGLÍFICA EGÍPCIA

 

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“O SER E A LIBERDADE”

A PRÓXIMA CONFERÊNCIA SERÁ A 30 DE ABRIL

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6 Comments

  1. Estou a traduzir um texto sobre a Alfândega e a sua construção e acho maravilhoso as coisas que tenho vindo a descobrir. Sou tripeira, nascida e criada no Porto e arredores (Vila Nova de Gaia e Matosinhos também) e não fazia ideia que tinha havido tão maravilhosa praia e alameda, antes de começar a traduzir este texto e a voltar a minha atenção para Miragaia e a Alfândega. É maravilhoso ler sobre estas coisas…esta História…esta História da qual também fazemos parte! Obrigada pelas fotografias! Andava à procura de alguma que me mostrasse como era esta zona ribeirinha na altura…
    Já agora, sabe alguma coisa mais sobre o Rio Frio? Também não sabia que existia até há bem pouco tempo…
    Obrigada =)
    Mariana.

  2. Muito interessante! Eu por acaso tenho lido imenso sobre a construção da Alfândega na minha caça de efemérides. O texto é fantástico sobre as casas que tinham boa vista e agora vêem um muro…

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