A GALIZA COMO TAREFA – oratória – Ernesto V. Souza

Há tempos que venho observando a quantidade crescente de exemplares que começam a fluir nas livrarias de segunda mão, nos sebos, alfarrabistas populares, ou nessas novas livrarias que compram em cêntimos e vendem por poucos euros. O mesmo fenómeno pode se comprovar numas procuras na Internet, no aumento de transações em sites especializados ou nas grandes ou boas livrarias-antiquárias, na compra venda de colecionistas e simplesmente revendas de particular.

A diferença doutros países da Europa e América, o mercado de livro usado na Espanha, até há nada, era bastante limitado, caraterizava-se pelo pouco material em circulação, pela venda de best-sellers do próximo passado e livro popular de bolso e grande tiragem dos anos 50-90, e pelo – digamos – exclusivismo, definido pelos elevados preços, do comprador colecionista.

A explicação mais simples era a ausência precisamente de um fluxo de entrada no mercado, de boas bibliotecas ou livros de particulares. Os livros que, com o passamento da pessoa proprietária, são a matéria prima das livrarias e lojas de segunda mão. E que evidenciam a existência dessas bibliotecas das casas, das famílias; por sua vez a documentarem o grau de alfabetização e de consumo de produtos culturais de uma sociedade, por décadas.

Na Espanha (até nada apenas nalguma das grandes urbes havia mercado de livro usado), e a diferença do que se pode observar nas cidades dos países com alguma tradição ou passado democrático, era evidente que o impacto dos anos da Ditadura (1936-78), causara uma seca, por sobre uma fase de expansão da leitura de massas (1909-1939) tanto de quiosque (1909-) como de avançada republicana (1928-), que brilhara fulgurante por sobre décadas de grande analfabetismo.

Acho que até este lustro em que nos andamos, talvez apontado no anterior, não se percebia uma entrada, como no atual de quantidades e variedades de livros, de umas tipologias diferentes. Manuais técnicos, ensaio, literatura em francês ou inglês, clássicos, algum exemplar mais antigo, livros das grandes coleções da república ou das coleções de grande divulgação dos anos 40 e 50.

É possível que começaram a morrer e a se liquidar as primeiras bibliotecas familiares das gerações já alfabetizadas e as das promoções de professores de liceus que entraram em massa, com a reforma educativa dos anos finais do franquismo e da transição. Agora, para além do tradicional livro de medicina, leis, administração e religioso, não é raro encontrar ensaio, livros de língua, literatura, francês, latim, linguística, geografia, história, química, matemática, e um repertório mais complexo de coleções científicas, acumulações, interesses, hobbies, bibliotecas que testemunham uma importante mudança sociológica e cultural.

Madrid : Librería y Casa Editorial Hernando (1942)

A cousa é que nos últimos tempos achei alguns velhos latinos, traduzidos ou bilingues em castelhano, italiano e francês, entre eles uma tradução castelhana das Institutio Oratoria de Quintiliano. Os XII livros em 2 volumes,  reproduzindo a tradução direita do latim dos padres Rodríguez e Sandier, 6 e 7 da Coleção de Clássicos da Editorial Hernando. É uma edição rústica, intonsa, com sobre coberta, publicada no ano do XIX centenário do autor, 1942, que reproduz a de 1916, com base da de 1887, ambas na mesma casa editora definindo três etapas.

Passo as folhas e vou cortado de naipe, com respeito e vagar, parando em trechos. Não sou Poggio Bracciolini, mas estes achados parecem-me fascinantes, conexões entre tempos, espaços, culturas e leitores. Lamento e maldigo mais uma vez não ter estudado nos clássicos em profundidade como para ler diretamente dos originais gregos e latinos.

E penso novamente que foi algo absurdo ter deixado toda a produção greco-latina e mais quase toda a escrita académica, séria e científica anterior ao século XIX, abandonada. Deixada nas grandes bibliotecas como se fossem formatos ilegíveis. Emana uma saudade triste dessas decorativas bibliotecas históricas, lamentando o desrespeito da modernidade ante o que sempre foram as bases da cultura ocidental. Penso em Erasmo, Bacon, Chateubriand, Renan,  Gibbon, Lawrence, em Pondal, naquelas biografias de políticos e militares célebres e não pouco traumatizados, mas com poderosa memória e com velhos livros nos petates de campanha. Provavelmente os últimos leitores destes livros nas línguas originais foram as elites britânicas formadas em modelos clássicos.

E o interessante com estes livros clássicos, modelos e instituições de oratória, talvez, seja que os tempos tanto mudaram da mão da tecnologia, que chega de volta hoje o interesse – e o predomínio em nada – da palavra dita, para um público cada vez mais global por fronte à letra impressa, como manifestação suprema da Cultura.

Seria lindo pensar que depois das décadas de absurdidades das Leis educativas definidas em valores neo-liberais e desenhadas sobre indicadores de indústria e qualidade para melhorar processos, produção e benefício, pudesse se recuperar uma formação de corte mais humanística, reflexiva, artesanal e experimental. Bem diz o prólogo dos veneráveis Padres das Escolas Pias em rotundo castelhano do século XIX:

O hemos de negar la necesidad del estudio de las buenas letras, desterrando de la humana sociedad los conocimientos que más nos adornan, o es preciso confesar que a todo hombre de buen gusto es punto menos que indispensable el de las Instituciones Oratorias de Marco Fabio Quintiliano. En todos tiempos los hombres sabios, no como quiera las han leído, sino que, mirándolas como una mina rica e inagotable de los conocimientos más sólidos que contribuyen a formar el juicio del hombre, les hicieron el debido honor de colocarlas en la clase de aquellos libros que no bastando leerlos una sola vez y de galope, es necesario estudiarlos con la más profunda meditación y de continuo.(p.9)

 

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