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Às vésperas do dia das mães, a morte do ator Paulo Gustavo – conhecido por interpretar Dona Hermínia – se converteu num símbolo dos mais de 410 mil brasileiros mortos pela pandemia – Reprodução Instagram

 

Sexta-feira, 7 de Maio de 2021

Olá! Os mesmos que ontem falavam grosso em frente às câmeras agora se escondem quando convocados a prestar contas de suas próprias ações. O país naufraga e ninguém está disposto a ir às últimas consequências para salvar Bolsonaro.

  1. Um Dia sem mães e sem filhos. O  dia das mães no Brasil de Bolsonaro será marcado por três episódios. O primeiro, o massacre numa creche da pequena cidade de Saudades (SC),  tem raízes psicossociais profundas. A polícia ainda investiga a motivação do assassino que vitimou três crianças e duas professoras com o uso de uma faca similar a uma espada ninja. A ação tem traços que lembram o episódio ocorrido em Suzano (SP) em 2019, em que os agressores também eram jovens com perfil antissocial e habituados a jogos on-line. O segundo acontecimento é um clássico exemplo do terrorismo de Estado: o assassinato de 25 pessoas na comunidade do Jacarezinho no Rio de Janeiro. A chacina, que contou inclusive com tiros disparados de helicóptero, é considerada a ação policial mais letal da história do estado. Além de contrariar a decisão do STF, a operação tem importantes implicações políticas, pois ocorreu poucos dias depois da posse de Claudio Castro (PSL) como governador. Às vésperas do dia das mães, a morte do ator Paulo Gustavo – conhecido por interpretar uma personagem materna, Dona Hermínia – se converteu num símbolo dos mais de 410 mil brasileiros mortos pela pandemia. Além das homenagens, muitos fãs lembraram que ele era um defensor da vacinação e das medidas de distanciamento social. O escritor Paulo Coelho citou os argumentos negacionistas do governo para nomear os “assassinos” do ator. Infelizmente, muitas mães ainda perderão seus filhos, pois o inverno está chegando e pode trazer uma terceira onda da pandemia. E enquanto nos Estados Unidos o governo Joe Biden anuncia seu apoio à quebra de patentes, aqui a vacinação é cada dia mais lenta e poderá ser prejudicada pelas novas acusações de Bolsonaro contra a China, como denuncia o diretor do Instituto Butantan.
  1. Primeiro round. Não foi ainda nesta primeira semana que a CPI da Covid pegou fogo. Presidenciável, Luis Henrique Mandetta pisou em ovos para não comprometer a si mesmo e entregou um depoimento morno, sem nomes, documentos ou qualquer nova informação. Ministro por 29 dias, o depoimento de Nelson Teich foi igualmente previsível, assim como o comportamento evasivo de Marcelo Queiroga. Mas nada disso não é um problema para Renan Calheiros. Mesmo óbvias, as informações contribuem para a estratégia da oposição de cercar o Planalto aos poucos. E se depender do governo, a vida da oposição vai ser muito facilitada. A principal ação do Planalto foi a fuga desastrada do general Pazuello. A desculpa de que o ex-ministro, que sequer usava máscaras, teve contato com suspeitos de contaminação só não foi mais constrangedora do que a informação de que o general se saiu muito mal no treinamento das respostas para a CPI. E, pior, a ausência de Pazuello deu tempo para a CPI engrenar, assim como para o Ministério Público ouvir a declaração da gestora do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro de que distribuiu cloroquina no Amazonas por ordem de Pazuello e ainda o vice-governador Carlos Almeida Filho acusar o governo federal de tratar Manaus como laboratório para a tese da “imunidade de rebanho”. Ou seja, o general terá muito mais para explicar daqui há duas semanas. Pressentindo a guilhotina, ele pensa em ir fardado à audiência, tudo o que o Comandante do Exército não quer ver. E o depoimento de Pazuello será apenas o primeiro golpe mais duro. Na mira da CPI estão pilares do governo: Paulo Guedes, os olavistas abandonados e, principalmente, os filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro, que formariam o “Gabinete das Sombras”, verdadeiros responsáveis pelas decisões na pandemia.
  1. Me segura, me segura… Como já se esperava, o início da CPI veio acompanhado de novos esperneios de Bolsonaro. Há semanas, ele vem falando vagamente que aguarda “sinais” da população para tomar medidas drásticas. A resposta veio com as manifestações da direita no 1º de maio: “Nós te autorizamos, presidente!”. O impasse agora é o seguinte: como Bolsonaro responderá a esses “sinais”? Até o momento ele permaneceu no esperneio. Na segunda-feira (3), Eduardo Bolsonaro aproveitou a notícia de que o Congresso de El Salvador havia destituído a Suprema Corte para disseminar nas redes bolsonaristas o PL 4754/2016 que criminaliza a interferência do STF na área de competência do poder legislativo.  Na quarta (5), Bolsonaro voltou a fazer ameaças, exaltou as forças armadas, culpou a China pela pandemia, e falou em emitir um decreto contra o isolamento social, desafiando os demais poderes a invalidá-lo. E na quinta (6), como mariposa em volta da lâmpada, ele resgatou o tema do voto impresso.

Também contribui para a radicalização do discurso o controle que Carluxo exerce sobre os veículos de comunicação da presidência. Na opinião de Moisés Mendes, Bolsonaro está blefando mais uma vez. Na mesma linha, Luis Nassif afirma que, nem se quisesse, Bolsonaro teria forças para uma ofensiva. Esta parece ser também a opinião de alguns ministros do STF. A dúvida é até quando Bolsonaro poderá sustentar ameaças sem que seja considerado uma fraude ou, como sugere o deputado Fausto Pinato (PP-SP), sem ser considerado mentalmente incapaz. Para Celso Rocha de Barros, nada acontecerá porque já não há mais governo e quem poderia derrubá-lo não está disposto a tanto. Outros comentam que nos bastidores alguns generais cogitam uma solução Mourão. Porém, independente disso, Thiago de Oliveira Sá alerta que o bolsonarismo deverá ter vida longa, destacando que ele foi capaz de resistir a diferentes conjunturas e poderá inclusive sobreviver a uma queda de Bolsonaro.

  1. Não abra o paraquedas. Apesar de confiar no Gabinete do Ódio, a saída para Bolsonaro não está no Whatsapp. Se quiser sobreviver, ele precisa que a moribunda economia brasileira saia da UTI e volte a respirar. E, neste caso, depende de Paulo Guedes. Só que seu ministro da Economia é justamente parte do problema. Se a vida dos mais pobres está mais difícil, com endividamento crescente, e se a riqueza está cada vez mais concentrada, com a renda dos 10% mais ricos 39 vezes maior que a dos 40% mais pobres, não é por acaso, nem por efeito da pandemia. São méritos da política econômica e das convicções de Guedes. Além disso, há três anos, Guedes repete as mesmas promessas sem cumprir nenhuma: que virá um programa social que substituirá o Bolsa Família, que a carteira verde amarela gerará mais empregos e que as privatizações gerarão bilhões. Há um ano do fim do mandato, até o mais ingênuo liberal já entendeu que as reformas só andam se o Congresso quiser. E, por hora, apenas a reforma tributária parece mesmo que vai sair. Isso se ela não for implodida pelas disputas internas da Câmara. Ou seja, Bolsonaro depende de um avarento convicto, conhecido por cortar qualquer coisa que veja pela frente, e nem um pouco afeito a medidas sociais. Isso num cenário de juros mais altos, que reprime o consumo e os investimentos. E isso, claro, se o próprio Guedes não se jogar aos leões na CPI.
  1. Lula livre, leve e solto. Se a conjuntura política brasileira não sofrer uma reviravolta surpreendente – o que sempre é possível – o segundo turno em 2022 deverá ser entre Bolsonaro, atual controlador da máquina, e Lula, candidato do único partido que chega com chances desde 1989. E não é difícil de entender porque até a Faria Lima, que elegeu o atual governo, parece ter saudades de Lula. Emparedado pela CPI, Bolsonaro se dedicou a esbravejar e ameaçar. E Lula?  Lula flanou por Brasília. Reuniu-se com outros líderes de partidos de oposição, como Marcelo Freixo (PSOL) e Alessandro Molon (PSB), de olho na eleição nacional e no pleito carioca. Mas também conversou com José Sarney e Rodrigo Maia, e ainda com integrantes da base governista não muito convictos, como Gilberto Kassab e o presidente do Senado Rodrigo Pacheco. Se não bastasse a agenda de candidato, Lula ainda teve espaço para os compromissos de estadista, reunindo-se com os embaixadores da Alemanha e da Rússia para tratar da questão das vacinas e da imagem do país no exterior. E não é apenas Bolsonaro que vê Lula lépido e faceiro fazendo política. A autoproclamada terceira via sequer consegue se reunir, quanto mais construir candidatura unitária, responsabilizando o PSDB, que está ocupado com as suas próprias prévias, por quebrar a unidade da “frente ampla” que jamais existiu. E, enquanto Dória, Huck e Mandetta sabem que precisam ocupar a vaga que hoje está com Bolsonaro, Ciro Gomes aposta na estratégia de bater em todos e tentar ficar com qualquer uma delas, a da direita ou da esquerda.
  1. Entulho. Um dos resquícios jurídicos da Ditadura Militar pode ter chegado ao fim nesta semana. A Câmara aprovou o texto-base da proposta que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN) e define dez crimes contra o Estado Democrático e de Direito, inserindo essas condutas no Código Penal. A atual versão da LSN foi promulgada no final da Ditadura e tem sido usada fartamente por outro entulho militar, o Capitão Bolsonaro, para perseguir opositores e críticos ao seu governo, como o youtuber Felipe Neto e a líder indígena Sônia Guajajara. O projeto sofreu oposição dos bolsonaristas, mas também não teve unidade na oposição, que se dividiu sobre a urgência do projeto e a criação de uma nova lei antes da revogação da LSN. A proposta aprovada na Câmara segue o parecer da relatora, Margarete Coelho (PP-PI), que, para revogar a LSN, incorpora ao código penal crimes como atentado à soberania, espionagem, interrupção do processo eleitoral e disseminação de mensagens falsas. A proposta também deixa explícito o que não será considerado crime contra o Estado Democrática de Direito: manifestação crítica aos poderes constitucionais, atividade jornalística, reivindicação de direitos por meio de passeatas, reuniões, greves, aglomerações ou qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais. A Câmara ainda deve votar os destaques ao parecer e então o projeto será remetido para votação no Senado.
  1. 7. Ponto Final: nossas recomendações.

.A burguesia está atordoada e ainda não decidiu o que fazer com Bolsonaro. Na Folha, o dirigente do Movimento Sem Terra João Pedro Stédile analisa os possíveis desdobramentos da conjuntura política nacional.

.Brasil, brotam bilionários em terra arrasada. O economista Marcio Pochmann demonstra como o sistema financeiro está estagnando o crescimento do país.

.Entre a cloroquina e o namastê: conheça a direita gratiluz. O Intercept traça o perfil dos bizarros seguidores holísticos do bolsonarismo que misturam fascismo e misticismo da nova era.

.Colômbia: por que os protestos continuam mesmo após recuo do governo Iván Duque. No Brasil de Fato, Daniel Giovanaz explica as raízes da atual onda de protestos e da violência estatal na Colômbia.

.O fim da sociedade de classes? No IHU, o sociólogo francês François Dubet reflete sobre a perda de centralidade das classes sociais na constituição das  identidades do mundo contemporâneo.

. Padre Júlio Lancelotti, fé e rebeldia. Documentário recupera a trajetória de três décadas em defesa dos mais pobres e os princípios éticos que movem o padre paulistano.

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Ponto é uma publicação do Brasil de Fato. Editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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