CARTA DE BRAGA – “ismos e bárbaros” por António Oliveira

Os ismos, todos por definição desumanizantes, exibem a mesma tendência para o gesto vazio, para numerozitos auto-referenciais que nada resolvem, complicam a situação e só nos afastam de um mundo mais justo e mais decente. E os políticos das nossas veneráveis democracias, com a sua cobardia moral e o medo de perderem os lugares, com o hábito irredutível de opor a sua fome de poder, à dura missão que lhes corresponde, não se interessam em cuidar da criação de emprego, da segurança e da saúde em geral’.

Tirei esta afirmação, há alguns dias, de um texto do cronista britânico John Carlin e, olhando para este mundo, creio que a situação se agravou ultimamente com a transição digital, cujas consequências impõem uma legislação que tenha em conta, acima de tudo, a sua dimensão social e política, apesar de a regulamentação dos gigantes digitais, se ter centrado mais nas questões da fiscalidade e dos conteúdos, como também escreveu Daniel Innerarity. 

O filósofo basco afirma no ‘La Vanguardia’ nos primeiros dias de Abril, a propósito de tais gigantes, ‘O efeito mais perturbador, encontra-se provavelmente na sua capacidade de configurar o espaço público, na sua influência no campo da informação e da comunicação, sem que essas instituições privadas tenham assumido as responsabilidades jurídicas e democráticas, que tal dimensão implica’.

E garante Innerarity, ‘O carácter estruturante da sua influência nos mercados, mostra já um domínio avassalador sobre a soberania política e democrática, notório nas definições das regras de expressão no espaço público, no lançamento e divulgação de moeda própria e, a continuar desta maneira, a ditar também as políticas noutras matérias’, afirmando mais ainda ‘Não podemos deixar que as plataformas digitais nos privatizem o espaço público’. 

É uma matéria em que não me sinto muito à vontade, mas tomo por referência apenas o bom senso e o conhecimento geral de as grandes fortunas estarem ligadas aos senhores dessas plataformas que, apenas por coincidência, são também os potentados atrás das indústrias mais poderosas do planeta, as que mais desigualdades provocam e, ainda por outra banal coincidência, estão também grandemente ligadas aos problemas do aquecimento global, como já foi referido inúmeras vezes em tudo quanto é sítio. 

Até poderão estar atrás do êxito que as propostas de extrema direita conhecem na Europa e grande parte deste mundo, sobretudo em tempos que até parece já nem sabermos o que quer dizer ‘democracia’, como também parece desconhecermos o que significa ‘mulher’, ‘família’, ‘comunidade’ e ‘tradição’, pois as opiniões dependem hoje muito mais dos influencers e comentadeiros, que manipulam as palavras como se tratassem de bens pessoais, privados e descartáveis. 

Mas o mesmo bom senso também me diz que a economia digital se baseia numa economia de dados aparentemente ‘à borla’ para o consumidor, que nunca pensa que tal benesse se deve ao acesso livre da indústria aos os seus dados pessoais, os que mais lhe interessam, para serem vendidas ou trocadas por outros semelhantes ou idênticos, das restantes empresas que também funcionam com acesso à publicidade personalizada. 

É só uma questão de preço, o tal preço a que o usuário não dá qualquer importância por lhe ser ‘de borla’ e, se juntarmos a estas questões, as que foram citadas pelo cronista John Carlin e abordadas na primeira parte deste texto, ‘talvez que o denominador comum de todos estes problemas seja o da mesquinhice’, para me servir da mesma expressão que Carlin usou no aseu artigo. 

Talvez a gente (nós todos!) já nem dê conta dela, se calhar pela correria nas cidades e pela enorme quantidade de ‘cabeças baixas’ em tudo quanto é lugar, mesmo em tempos de pandemias, que me leva a pensar numa ‘solução que já vem do tempo dos gregos e dos romanos: sair da cidade e ir para o campo, afastar-me do ruído mundano’, a mesma que Carlin apresenta como a solução dos seus problemas!

Mas, mesmo lá, no campo, não deixarei de pertencer a esta sociedade, irremediavelmente uma ‘sociedade de classes’, a ter em conta as palavras de Zygmunt Bauman: ‘Tenha-o em conta, se não quer que a sua amnésia venha a terminar em terapia de choque. É, também é, uma sociedade capitalista, accionada pelo mercado, de que um dos atributos, é ir tropeçando de uma depressão/recessão a outra. E, como é uma sociedade de classes, reparte os custos da recessão e os benefícios da recuperação de forma desigual, aproveitando qualquer ocasião para reforçar a sua coluna vertebral, a hierarquia de classes’.

E volto a casa, a um dos meus cronistas de referência, Viriato Soromenho Marques, que deixou escrito já em 2019 no ‘DN’, ‘A vida dos indivíduos humanos não pode prolongar-se indefinidamente num planeta em que o actual modelo de crescimento económico destrói o software que permitiu e protege toda a vida, incluindo a da espécie humana. Quem não percebe isto envergonha não só a ciência, como ofende o simples senso comum’.

O mesmo senso comum que me permite ir escrevendo estas Cartas, sempre a contar com o reforço das opiniões de quem sabe e tem, ou teve, muitos anos a trabalhar em prol da sociedade, pela sensação de estarmos só agora a descobrir coisas óbvias como a nossa própria vulnerabilidade, a de um ser que nasce, cresce, se desenvolve e morre num período que, só com muita sorte, chega aos cem anos, uns míseros ‘cagagésimos’ de segundo na história da humanidade! 

Não passamos de uns insignificantes inquilinos da vida, mesmo sabendo que não somos eternos e, por isso devemos dar valor ao tempo, decidir com quem o passar, para melhor o sentir e amar a realidade do viver! 

Para que me servem os novos ‘ismos’, mais os seus patrocinadores, por muito chegados que queiram ser, mais os seus numerozitos auto-justificativos, quando ‘Os bárbaros estão de volta’, como afirmou o experimentado e premiado cineasta Costa Gravas, a um diário daqui ao lado, a 27 de Abril passado?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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