CARTA DE BRAGA – “o Fonas e Beethoven” por António Oliveira

Antes do mais, devo confessar sem qualquer laivo de vergonha, que não percebo patavina de música, que nem sequer me atrevo a cantar o ‘parabéns a você’, pelo medo real e assumido, de poder vir a estragar o resto da festa. 

A música toca-me pelas emoções que solta em mim e, já desde criança, algumas há que, sem saber porquê, me enchem os olhos de lágrimas, pois no Siera de meu Pai, que não se desligava quando ele estava em casa, soavam umas músicas esquisitas, de uma estação esquisita também, a ‘Rádio Clássica’, que ele ouvia em quietude, às vezes cerrando os olhos, numa paz que invejava e depois também me habituei a ouvir, como se fosse a maravilha maior que tivesse ali à mão. 

Trago esta conversa para a Carta de hoje porque, uma noite destas em que, como de costume, acordei pouco depois das quatro horas e, no pequeno auscultador com que me tinha deixado adormecer, soavam os últimos acordes da ‘Sonata ao Luar’ de Beethoven, uma das preciosidades que herdei do meu Pai, por ele a ouvir depois com frequência, como outras da mesma natureza, num dos LP’s que lhe prolongavam a ‘Rádio Clássica’, quando a música transmitida não lhe agradava. 

E naquela noite, já tinha ouvido uma conversa interessantíssima sobre Virgínia Wolf, mas depois mudou o ‘dono’ do programa, que logo anunciou a apresentação de duas peças de música contemporânea, por caberem na hora que ele dispunha para aquela noite. Estive quase a desligar o rádio, por o novo ‘dono’ ainda ter acrescentado serem peças de música electrónica que, sem pejo algum em o reconhecer, também não é das minhas simpatias. 

Mas aguentei e, a determinada altura, até por nem sequer ter conseguido perceber qualquer ritmo naquela coisa, que ele tinha afirmado ser excelente música, senti-me como se estivesse no meio de uma data de instrumentistas à procura da orquestra, pois me pareceu estar cada um a tocar para seu lado, a ver se entrava alguém que conseguisse pôr ordem naquilo, mas continuei a ouvir, para ver se conseguia entender como iria terminar. 

Não entendi e logo se seguiu outra peça, cujo autor também não recordo, mas aumentou a ideia de ‘balbúrdia’ (perdoem-me os conhecedores destas coisas!), mas que me levou a uma cena, já com algumas dezenas de anos, no decorrer da minha vida profissional, passada na cidade onde nasci e cresci.

Tinha ido fazer uma reportagem sobre um grupo de ajuda onde, de certeza avisados da minha ida, ouvi logo à entrada na sala, onde soava baixinho como música ambiente a ‘Sonata’ de Beethoven, toda a gente a desatar a falar ao mesmo tempo, com variados e alguns altissonantes tons de voz, até aparecer um senhor com voz suave, a pôr ordem naquele espaço, para a sessão decorrer com a normalidade desejada e ter mesmo conseguido falar com algumas pessoas. 

Quando tudo terminou, o tal senhor dirigiu-se-me, tuteando-me, usando o meu nome e, perante o meu ar espantado

– Não te lembras de mim?

– Confesso que não! Devia?

– Sou o “Fonas!

E, num instante, voltei lá, à rua onde nasci. Nos baixos da casa em frente, trabalhava e vivia um latoeiro, para onde fugia por ter um filho da minha idade e eu muito gostar de ver o senhor trabalhar na roda de esmeril, de onde saltavam umas fonas bem brilhantes, bem como de o ver pôr ‘gatos’ nas travessas, pratos fundos e terrinas que, por acaso ou má fortuna, tivessem encontrado uma esquina mais dura, ou ainda a botar um remendo nalgum tacho de esmalte. 

Com o “Fonas aprendi as primeiras asneiras, aprendi também a apanhar lagartixas, a ir às peras num quintal perto e aprendi o que era perder um amigo, quando mudámos para outra parte da cidade. A partir daí, como é natural, os nossos caminhos seguiram rumos diferentes, mas quando, passados alguns anos, passava por ali, olhava aqueles baixos da casa em frente, onde já não havia o meu amigo, nem o latoeiro a trabalhar na roda de esmeril.

E quando acabei de, num pequeníssimo instante, rememorar tudo aquilo, abracei-o com uma saudade de mais de trinta anos, por o ver um homem respeitado, por saber estar, ter noção das situações e ter ultrapassado as limitações da origem, comprovada depois pela conversa de mais de uma hora, onde pusemos factos e datas em dia e ter ainda sabido, como conseguiam ordenar a levar a bom porto, todas as iniciativas para aquele grupo de gente a precisar de ajudas, tanto materiais como espirituais. 

Após a tal noite mal dormida, também li tudo o que podia para tentar perceber por que não conseguia gostar do que eles diziam ser música contemporânea e, se bem consegui perceber o filósofo, músico e compositor Theodor Adorno, por o ter lido a explicar que, a partir da década de 50 do século passado, as linguagens musicais seguiram direcções diversas – a música eletrónica, o teatro musical, depois acentuadas com a integração do computador, da rádio e televisão e novas técnicas instrumentais, de contribuições da música popular, do jazz e das tradições musicais do mundo. 

Um resumo resumidíssimo da ‘Filosofia da Nova Música’ de Adorno, tal como o encontrei num site, lembrando o centenário daquele celebrado filósofo e musicólogo alemão, mas talvez por ser demasiado para os meus ouvidos pouco educados naquelas andanças, até por ter tornado a ouvir, em muitas e variadas ocasiões, mais peças distintas de música contemporânea, ter voltado a não gostar e a sentir que ali só havia uma porradaria de músicos à procura da orquestra, ou a precisar de um “Fonas” de voz muito calma, para pôr ordem em toda aquela confusão. 

Uma sensação estranha, talvez por não perceber nada de música, mas mesmo assim, com a certeza de que nos sentaríamos lado a lado, ele e eu, talvez de olhos cerrados, para voltar a ouvir a ‘Sonata ao Luar’, sossegadamente! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 
 

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