O mundo disfuncional de ontem e de hoje – Introdução: a descrição do pesadelo. Por Júlio Marques Mota

Composição fgt: Realidade virtual (Crédito a Talking Influence, 25julho2019) e Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, pormenor.

 

Uma série de três textos dedicada à minha filha, Sara Pargana Mota, que passou no dia 25 de Maio por uma situação que mais parecia a reprodução ao vivo de um grande pesadelo

 

Introdução – a descrição do pesadelo

 

 Por Júlio Marques Mota

                                           Coimbra, 26 de maio de 2021

 

Uma série de três textos sobre acontecimentos que, num mundo funcional, regulado, supervisionado, nunca poderiam acontecer, mas aconteceram e acontecem.

Dedico esta pequena série à minha filha, Sara Pargana Mota, porque vítima de um acontecimento que, também ele, num mundo funcional, regulado, supervisionado, nunca poderia acontecer. E aqui assinalo o meu protesto, como professor universitário que fui, ao que de violento lhe aconteceu na tarde de 25 de maio de 2021. Não me revejo, seguramente, nesta Universidade.

Estaria para defender a sua tese de doutoramento via Zoom, com transmissão em direto no Youtube, com início às 14h e 15 minutos, a partir de sua casa. À cautela, solicitei a presença de um informático na véspera para testar o sistema informático da sua casa. Tudo conforme, ou, para utilizar a sua expressão, “tudo pronto para a sua filha brilhar”, a informação que me enviou por mensagem.

Tratava-se de uma defesa de tese que tinha sido preparada milimetricamente.

Dia 25, largos minutos depois do início da defesa, telefona-me ela em lágrimas, dizendo que o sistema falhou e que tinha de ir de táxi para a Universidade. Assaltou-se-me a dúvida se não teria sido um erro qualquer dela ou, provocado pela sua gata que poderia ter passado por cima do teclado e ter disparado algum comando que tornasse o sistema disfuncional. E aí temi que ela entrasse em pânico.

Um medo com tanta ou mais razão de ser, pela minha parte, quando ela afirmou na introdução do texto que preparou antecipadamente para a apresentação da sua prova de defesa:

Peço antecipadamente desculpa e a vossa compreensão se a aparente fluidez da minha escrita não se equiparar à minha pobre capacidade argumentativa em situações de exposição pública, que me levam a algumas crises de ansiedade, com um longo historial. Sou, como o escritor Jorge Luis Borges dizia em situações de exposição pública similares, uma veterana do pânico. Um turbilhão de emoções muito acentuado pelo isolamento pandémico. A capacidade de diálogo também exige espaços de prática, que este último ano foram ausentes.

Mais de uma hora e meia depois da hora marcada para o início da sessão Zoom, telefona-me uma antiga colega e minha amiga a dizer-me que houve uma outra avaria, mas que a sessão estava a decorrer normalmente e que tudo estava a correr bem. E que não me espantasse que a sessão acabasse mais tarde. Largos minutos depois volta a telefonar-me a dizer-me que tinha havido uma outra avaria, uma vez que a minha filha estava agora sentada na cadeira do Presidente do Júri, utilizando o seu sistema informático. E a prova acabou cerca das 20 horas.

Pelo meio, a minha filha acompanhada por um funcionário teve de se deslocar para o gabinete do Presidente a cerca de 500 metros de distância. Terão sido no imaginário dela vários quilómetros!

Foi aprovada com louvor e distinção e com um pormenor para mim mais relevante ainda: a tese em discussão foi aceite sem uma correção sequer a ser proposta. Uma redação definitiva, o que hoje é uma raridade, reconheça-se.

Costuma-se dizer, com Jonathan Coe, que as Instituições são o que são as pessoas que lá trabalham, mas não é verdade. Este caso mostra-o. Na minha opinião, mas esta vale o que vale, nada, isto só foi possível porque é o resultado do desinvestimento ou do não investimento nas estruturas físicas da Universidade e até mesmo na quantidade de recursos humanos. Repare-se; os serviços informáticos da Universidade, tal como eu fiz mandando um informático a casa da minha filha testar o sistema, deveriam ter testado o sistema da Faculdade no final dessa manhã com a minha filha. Nada disso foi feito. Tudo leva a crer que as estruturas informáticas são frágeis e que o pessoal técnico escasseia. Só assim se pode perceber o que se passou. Mas se uma Universidade se empobrece em meios desta maneira não será que a prazo se irá empobrecer muito mais ainda em termos do produto que delas irá resultar?

No entanto, deve-se saudar publicamente a atitude do Presidente do Júri, o Professor Doutor Carlos Manuel Marques Palmeira, uma vez que nada do que se estava tecnicamente a passar tinha sentido. Ter-se-á ponderado suspender as provas, mas isso representava dificuldades de ordem logística pois reunir tanta gente que habitualmente tem a sua agenda sobrecarregada não era coisa fácil. Adicionalmente representaria uma enorme carga de tensão para a candidata que, depois do que tinha estado a acontecer, deveria ser poupada. Nessa base terá ponderado e decidido continuar a prova até porque a candidata estava a “aguentar-se” bem. Se este meu raciocínio está correto, só posso dizer que fez bem. Aliás, fora de registo terá havido membros do júri a reconhecer que eles mesmos não teriam aguentado a dureza da situação pela qual passou a minha filha. Desse ponto de vista, a Universidade, enquanto Instituição, esteve muito por baixo, foi uma vergonha, e isto é o mínimo que se pode dizer. No entanto, os membros do júri presentes – Humberto Martins, Margarida Fernandes, Sandra Xavier e Luís Quintais, o seu orientador, Filipe Reis, bem como o secretário da prova Fernando Costa – estiveram bem acima desta e francamente mais que a compensaram, tanto pela qualidade das suas intervenções, no que me foi dado assistir como leigo na matéria, quer pela calma mantida, quer ainda pela sua disponibilidade em continuar por longas horas a tentar salvar a honra do convento, isto é, a honra da Universidade. Um esforço de resultado conseguido: conseguiu-se dar brilho à função da Universidade: a de formar e de confirmar essa formação pela classificação atribuída.

Este exemplo leva-me a corrigir a afirmação de Jonathan Coe, dizendo que as Instituições são muitos vezes não a expressão de todos aqueles que lá trabalham, mas o resultado da dinâmica e da dedicação individual de muitos dos seus quadros, em que essa dedicação está muitas vezes para além dos limites do que humanamente lhes deve ser exigido. É esse sentimento de dedicação que se viu na prova de defesa da tese de doutoramento da minha filha em todos os elementos do júri e, em particular, do seu Presidente. Reconhecê-lo publicamente é o mínimo que se pode fazer.

É claro pois que a prova de defesa de tese da minha filha decorreu de um mundo que não poderia ter decorrido. Mas decorreu. Mostrou uma coragem, uma resistência que muito dificilmente se poderia, a ela como à maioria das pessoas nas mesmas circunstâncias, ser reconhecida. No fundo todos nós somos capazes de ir para além das nossas possibilidades quando as situações limite no-lo exigem. É também isto que se pode dizer sobre o que se passou.

 

A série de textos aqui apresentado fala-nos de factos ocorridos no século XIX e de factos a decorrer no século XXI que não deveriam ter decorrido ou não deveriam estar a decorrer e que são manifestações claras do disfuncionamento do mundo, da sua não regulação e, portanto, da ausência de supervisão.

O primeiro destes três textos, Tempos de Fraude, Mania e Chicana, de um dos grandes peritos em História Financeira, Jamie Catherwood, talvez ao nível de um Charles Kindleberger, no que diz respeito à história da finança, fala-nos de:

  1. Da “existência” imaginária de um país, Poyais, de um pedaço da selva desabitada nas Honduras, que era “vendido” em Londres como um país legítimo dotado de uma grande arquitetura, de uma ópera, de um parlamento e de uma catedral, etc. Com a “criação” de Poyais como país, a batalha mediática em torno de Poyais evoluiu constantemente para uma verdadeira mania “bolsista” à medida que milhares de gravuras eram vendidas em Londres e Edimburgo retratando os magníficos edifícios e infraestruturas de Poyais.

Só para reiterar novamente a realidade refira-se que Poyais era uma selva em grande parte desabitada, sem infraestruturas do género. Mas, não importa! No entanto, foram abertos escritórios em Londres e Edimburgo para a venda de terrenos de Poyais a candidatos entusiasmados a 4 xelins por acre.

Depois de um frenesim do público britânico, MacGregor, o criador deste país imaginário, concentrou a sua atenção no cortejo de investidores. Em 1822, o escocês emitiu 200.000 dólares em obrigações oferecendo um rendimento de 6%. Medido em dinheiro atual, o valor destes títulos acabou por atingir 3,6 mil milhões de dólares.

  1. Da existência de Sarah Howe, uma cartomante de Boston, que criou um banco gerido por mulheres e para mulheres. Pagava 8% ao mês e dava-se ao luxo de pagar os juros à cabeça sobre os primeiros três meses. Um autêntico sistema piramidal, um século antes do aparecimento de Ponzi, e ao lado de quem a nossa Dona Branca seria considerada uma verdadeira principiante.

Quando os céticos expressaram dúvidas de que Sarah Howe pudesse realmente garantir retornos tão elevados, ela ofereceu uma explicação: A Companhia de Depósitos de Senhoras não era um banco comum, mas sim uma instituição de caridade para as mulheres, contratada por filantropos Quaker.

Em resposta à crítica de um jornal ao Banco de Depósitos de Senhoras, e para Senhoras, Howe escreveu: “O facto é que, meu caro senhor, não sabe realmente nada da base, meios ou métodos sobre os quais os nossos assuntos são conduzidos, e quando se cala nas malhas das suas noções de banco de poupanças, tenta uma exposição da impossibilidade da nossa existência, fica perplexo e atira-se como um morcego numa armadilha com mosca“.

O texto de Catherwood fala-nos ainda da subscrição em grande de títulos de uma empresa que iria dar grandes lucros, mas que ninguém sabia o que era!

 

Vigarices do século XIX a mostrarem-nos o que era o mundo financeiro de então. Muito diferente do de hoje? Não, não, semelhante apenas. A ilustrar esta nossa afirmação publicaremos um segundo texto que é sobre a moeda Bitcoin.

Bitcoin é uma moeda digital, uma criptomoeda, que há apenas dois meses, para melhor compreendermos o que se passa, era vendida a 64 mil e 829 dólares, enquanto que ao valor do dia de ontem chegou a tocar a taxa de câmbio de 30 mil dólares.

Quais as razões do colapso, que em qualquer caso não diz respeito apenas ao Bitcoin, uma vez que o Ethereum e o Dogecoin também reduziram praticamente para metade o seu valor? A sensação de uma parte dos observadores é que para o esvaziar o peso das moedas contribuiu – e contribuiu muito – as últimas tiradas de Elon Musk. Uma outra razão de fundo dizem-nos: é a decisão de três organismos financeiros chineses: a National Internet Finance Association of China, a China Banking Association e a Payment and Clearing Association of China proibiram os bancos de operar com moedas criptográficas. Mesmo os clientes individuais dos bancos chineses não poderão negociar, comprar, ou fazer investimentos com moedas virtuais. Paragem total. Mesmo a publicidade envolvendo moedas criptográficas não será permitida.

 

Um terceiro texto refere-se à criação da arte digital feita à custa da destruição da Arte real.

Diz-nos Matt Levine, um dos mais reputados analistas financeiros de Wall Street de hoje:

Algures, no domínio dos Tokens não fungíveis, aqui está um e-mail que recebi sobre este evento:

“No dia 27 de Maio, o famoso artista da Marvel e DC Comics, Rob Prior queimará a sua pintura original diante da câmara e apresentará o Token não fungível digitalizado após a queima do original durante um evento em direto.”

(…)

(…) Apagar outras artes, comentar a comercialização da arte, fazer arte da não permanência e ausência, todos estes são gestos comuns e, francamente, agora algo clichés na tradição artística, e a ascensão dos NFTs revigorou esses gestos e sobrepôs-se alguma excitação tecno-futurista sobre eles.

Por outro lado, isto é muito estúpido e todos deveriam acabar com isto. Escrevi no outro dia que o resultado final da loucura do NFT será “que o conceito de queimar arte para reproduzir a sua destruição na forma digitalizada, blockchain, se torna mais valioso do que a arte real, de modo a que todas as pinturas do mundo possam assim ser queimadas para aumentar o seu valor”. Isso é mau! Eu não quero isso! Quero que os artistas considerem a possibilidade de que a moda dos produtos [Tokens] não fungíveis [NFT], que representam a destruição pelo fogo da própria arte possa não durar tanto tempo quanto a moda das, o leitor sabe, das pinturas bonitas para vermos penduradas nas paredes [nos museus], e eventualmente, em vez disso, pode desejar ter as pinturas.”

 

Poderíamos igualmente falar da vigarice que constitui o processo de falência de Greensill, poderíamos falar do processo de falência da Archegos Capital Management, tudo na ordem das dezenas de milhares de milhões, mas os neoliberais podem considerar estes casos como não sistémicos e não vale a pena entrar por aí. Contra estes basta dizer que as contrapartes bancárias da Archegos eram principalmente seis corretores de primeira linha – Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Nomura e UBS – e a Archegos também negociou com vários outros, embora numa escala menor, que inclui Wells Fargo, Mitsubishi UFJ e Mizuho. Ou seja, os grandes bancos enfiados numa alavancagem de dezenas de milhares de milhões sem nunca ninguém se questionar porque é que os títulos das empresas com que Bill Hwang especulava disparavam daquela maneira.

Uma análise das declarações regulamentares (as declarações regulamentares 13F) dos seus seis principais corretores principais, que compraram as ações como cobertura contra as transações de derivados, mostram que as participações dos bancos em oito ações principais ligadas à Archegos aumentaram de 3,8 mil milhões de dólares no final do primeiro trimestre de 2020 para 7,4 mil milhões de dólares em 30 de Junho. No final do ano, este valor tinha saltado para $26,4 mil milhões de dólares (ver figura 1).

 

Assumindo que as participações dos bancos no final do ano se mantiveram constantes, estas posições teriam valido um total de 44,8 mil milhões de dólares a 22 de Março – na véspera do incumprimento da Archegos.

É provável que o valor real tenha sido ainda mais elevado. Tudo gente importante, esta ligada ao caso Archegos, tudo gente que sente o cheiro do dinheiro à distância, tudo gente que embarcou num barco que não deveria existir: o de um setor financeiro que vive da expropriação do excedente criado no setor dito produtivo da economia real.

Em suma, falamos de um sistema disfuncional, desregulado e sem supervisão onde tudo é possível, falamos de um mundo transformado num Far-West selvagem. Falamos de um mundo tão absurdo como absurdo foi o decorrer da prova de doutoramento da minha filha. Por isso lhe dedico esta série de textos. Aconteceu, o que não deveria ter acontecido.

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Os textos que compõem a série, a publicar nos próximos dias, são os seguintes:

Tempos de Fraude, Mania e Chicana, por Jamie Catherwood

Colapso na bolsa com a moeda Bitcoin. Não só por causa da escolha chinesa, por Stefano Bocconetti

NFT NFT NFT [ou a destruição da Arte como suposta criação artística], por Matt Levine

 

 

 

 

 

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