O mundo disfuncional de ontem e de hoje – 1. Tempos de Fraude, Mania e Chicana. Por Jamie Catherwood

Composição fgt: Realidade virtual (Crédito a Talking Influence, 25julho2019) e Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, pormenor.

 

Uma série de três textos dedicada à minha filha, Sara Pargana Mota, que passou no dia 25 de Maio por uma situação que mais parecia a reprodução ao vivo de um grande pesadelo

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1. Tempos de Fraude, Mania e Chicana

 Por Jamie Catherwood

Publicado por  em 23 de Maio de 2021 (ver aqui)

 

Leituras de Domingo

Visualizando a História

Bolha do Mar do Sul de meados de 1719 até final de 1720

Figura 1. Preço das acções do Mar do Sul e o número de novos projectos anunciados em Londres todos os meses de 1719 de Julho a 1720 de Dezembro. O gráfico de dispersão mostra 10 vezes o número de novas empresas em cada mês, de modo que o de junho de 1720 corresponde aos 88 empreendimentos que, de acordo com uma contagem, foram anunciados nesse mês.

 

Dos Arquivos

Factos, Falências e Fraudes (1859)

Um relato do século XIX sobre fraude financeira que se é tão relevante hoje como foi naquela época. Considere a primeira página do Capítulo 1:

“Sem qualquer grande violência, todos os incentivos ao crime comercial podem ser colocados sob a única rubrica comum – o desejo de ganhar dinheiro facilmente e com pressa.

O rapaz-aprendiz que rouba a caixa com alguns xelins a fim de poder divertir-se numa determinada noite; o gigantesco falsificador ou o vigarista, que absorve milhares de libras para poder eclipsar as pessoas que vivem e respiram à sua volta, estão de tal forma na mesma situação que não podem suportar qualquer atraso na satisfação desta paixão comum.

Para além destes, mas ainda movidos pelo mesmo desejo, há ainda os especuladores imprudentes, que arriscariam tudo na esperança de um ganho súbito, em vez de trabalhar com segurança e laboriosamente por uma recompensa distante. O especulador pode, evidentemente, ser um homem perfeitamente honrado, que instintivamente se absteria de qualquer ato que invocasse a interferência da lei penal; mas se os tempos forem desfavoráveis ele está no bom caminho para o erro, e, além disso, há muitos crimes não enumerados no livro das leis que ainda são pecados pesados contra os ditames da moralidade”.

 

História da Finança: Leitura de Domingo

 

A leitura deste domingo vai mergulhar num debate que surgiu no Twitter na semana passada, que foi tão eloquentemente respondido pelo meu bom amigo Wall Street Cynic.

Assim, reafirmemos a questão a que queremos responder hoje:

“O que aconteceu com o bitcoin, o dogecoin, os NFT e os memes do tipo GameStop, alguma vez houve um período em que tantas fraudes evidentes ganharam tanta importância relativamente às atividades de investimento tradicional?”

Agora, antes de entrarmos nos exemplos históricos já referidos no tweet de @WallStCynic, penso que este excerto do boletim informativo de Matt Levine faz um excelente trabalho resumindo algumas das manias atualmente galopantes nos mercados. Em particular, este excerto foi escrito com referência à subida do preço do Dogecoin antes da receção do Saturday Night Live por Elon Musk, que alguns investidores pensaram que poderia aumentar o preço do Dogecoin:

Imagine viajar 10 anos atrás no tempo e tentar explicar isto a alguém; imagine como o leitor se sentiria um idiota. “Vai haver esta moeda online que as pessoas pensam ser uma forma de ouro digital, e depois vai haver uma moeda online diferente que é uma paródia da primeira baseada num meme sobre um Shiba Inu falante, e que vai ter uma capitalização de mercado superior a 80% das empresas do S&P 500, e o seu valor flutuará com base em coisas como quem está a receber  o “Saturday Night Live” e se as pessoas tweetam uma hashtag sobre ela nas piadas de férias e a Bloomberg escreverá artigos e os bancos escreverão notas de pesquisa sobre esse tipo de catalisadores, e continuará a ser uma paródia perfeitamente ridícula e sem conteúdo, mesmo quando as pessoas a levarem completamente a sério porque há milhares de milhões de dólares em jogo.

Penso que todos podemos concordar que estamos a viver em tempos estranhos. Contudo, gostaria de aplicar esta mesma lógica a um dos meus anos especulativos favoritos na história financeira para abordar o debate de hoje: 1825.

 

Um ano de especulação: 1825

Como é frequentemente o caso, 1825 foi um ano de bolhas e manias devido às baixas taxas de juro e ao crédito barato. Os investidores que tinham confiado nas consols bonds [1] do governo britânico como principal fonte de rendimento eram forçados a alcançar rendimentos e retornos investindo em ativos mais arriscados. A maior parte do fervor especulativo neste período manifestou-se em dívida latino-americana de alto rendimento, ações sobre explorações de minas e sociedades anónimas nacionais (discuti esta bolha com Jim Grant em Real Vision, que pode ver aqui).

Winton resumiu o boom das empresas nacionais que eram bem questionáveis:

A partir desta altura, “os esquemas de bolhas apareciam em cardumes como os arenques dos mares polares”, ilustrado pelo facto de o número de projetos de lei que chegaram ao Parlamento para a formação de novas empresas ter subido de 30 em Março para 250 em Abril.

Todos os tipos de empresas eram voláteis. Muitas estavam relacionadas com a Assurance; houve também alguns empreendimentos inovadores, como a Metropolitan Bath Company, que pretendia bombear água do mar para Londres para que os pobres londrinos pudessem sentir o tomar banho de água do mar, e a London Umbrella Company, que pretendia criar estações guarda-chuva em toda a capital.

Muitos empreendimentos, no entanto, eram vigarices concebidos para testar a credulidade dos investidores. Tais exemplos incluem a Resurrection Metal Company, que pretendia recuperar balas de canhão de submarinas que tinham sido utilizadas em Trafalgar e outras batalhas navais, e uma empresa (possivelmente uma paródia) que foi criada “para drenar o Mar Vermelho, em busca do ouro e das joias deixadas pelos egípcios, na sua passagem depois dos israelitas”.

No entanto, estas empresas não foram as piores de todas. O exemplo mais escandaloso de especulação e fraude de 1825 encontra-se na história de Poyais (apontada na ilustração abaixo). Gostaria que Matt Levine estivesse vivo em 1825 para que pudesse ter escrito na sua secção da Bloomberg chamada Money Stuff sobre a forma como Gregor MacGregor conseguiu criar um país fictício chamado Poyais, e ter lançado com sucesso as suas obrigações na Bolsa de Londres.

 

A Ilha de Poyais

Gregor MacGregor não só tinha o mais imaginável nome escocês, como também foi considerado o “Rei dos escroques” pela revista The Economist (em 2012), por ter feito o “maior truque de confiança de todos os tempos”. Como é que se ganha este estatuto de realeza entre os vigaristas e escroques é coisa que se pode perguntar? No caso de MacGregor, este título deve-se ao facto de ter encontrado um pedaço de terra desabitada na costa das Honduras, criando um país fictício chamado Poyais, e vendendo mais de mil milhões de dólares de “títulos Poyais” em Londres, induzindo os investidores a pensar que a selva desabitada que tinha encontrado nas Honduras era na realidade um país legítimo dotado de uma grande arquitetura, de uma ópera, de um parlamento e de uma catedral, etc.

Poyais em toda a sua glória.

Ao navegar de volta para Londres, MacGregor começou a conspirar sobre como iria atrair investidores para o seu novo esquema. No entanto, como se verificou, o público britânico não precisou de muito convencimento para investir na dívida soberana de outro “país” latino-americano como Poyais, dada a especulação desenfreada sobre a dívida latino-americana que já existia. MacGregor foi capaz de capitalizar facilmente esta obsessão.

Quando o Grande Cacique de Poyais (o título com que MacGreger se auto-nomeou) chegou a Londres, não perdeu tempo a espalhar a palavra sobre oportunidades de investimento no seu recém-descoberto reino. MacGregor até publicou um livro que detalhava o paraíso tropical de Poyais, e como o país era atraente tanto para os investidores como para os colonos. Um excerto do livro abaixo até afirma que MacGregor tinha evitado fazer alegações exageradas sobre Poyais (ha!):

“Ele [MacGregor] tentou, tanto quanto possível, evitar fazer qualquer declaração que pudesse parecer duvidosa ou exagerada… e por isso limitou-se, tanto quanto possível, a factos tão claros e positivos, estabelecidos para além de qualquer sombra da dúvida”. – Sketch of the Mosquito Shore (1822)

A batalha mediática em torno de MacGregor e Poyais evoluiu progressivamente para uma verdadeira obsessão à medida que milhares de gravuras eram vendidas em Londres e Edimburgo retratando os magníficos edifícios e infraestruturas de Poyais. Só para reiterar novamente a realidade refira-se que Poyais era uma selva em grande parte desabitada, sem infraestruturas do género. Mas, não importa! No entanto, foram abertos escritórios em Londres e Edimburgo para a venda de terrenos de Poyais a candidatos entusiasmados a 4 xelins por acre.

Depois de um frenesim do público britânico, MacGregor concentrou a sua atenção em cortejar os investidores. Em 1822, o escocês emitiu 200.000 dólares em obrigações oferecendo um rendimento de 6%. Medido em dinheiro atual, o valor destes títulos atingiria 3,6 mil milhões de dólares.

Por incrível que pareça, as obrigações foram garantidas pelas receitas fiscais de exportação que Poyais alegadamente geraria, apesar do facto de não haver infraestruturas, pessoas ou empresas na região. A certa altura, o Grande Cacique chegou mesmo a garantir obrigações contra as receitas de uma empresa mineira inexistente em Poyais. Estes detalhes aborrecidos, contudo, não impediram os investidores de comprar as obrigações fraudulentas de MacGregor.

As obrigações fraudulentas de MacGregor

 

Talvez isto se deva ao facto de o lançamento de MacGregor ter sido feito numa altura em que as obrigações do governo britânico (consols) só rendiam 2-3%. Consequentemente, quando MacGregor ofereceu aos investidores um rendimento de 6% nos títulos Poyais, o dobro do rendimento dos consols do governo, eles agarraram a oportunidade. A caça de elevados rendimentos custaria a vida a muitos investidores.

Os investidores no Reino de Poyais foram chamados à realidade quando os colonos chegaram à sua nova casa nas Honduras. O primeiro navio, Honduras Packet, zarpou a 10 de Setembro de 1822, com 50 colonos a bordo. Muitos deles vinham de origens pobres, e tinham deixado a sua terra natal para a utopia que MacGregor tinha prometido. Poucos viveriam para fazer a viagem de regresso à Grã-Bretanha.

Quando o navio finalmente chegou ao porto de Poyais, nada poderia ter preparado os passageiros para o que encontraram. Longe de ser um paraíso tropical com belas infraestruturas, a terra era desabitada e subdesenvolvida, à exceção de um par de cabanas de barro na praia.

Infelizmente para os recém-chegados, esta descoberta foi apenas o início dos seus problemas no paraíso. Pouco depois de chegarem a terra, um furacão devastou a região, varrendo os seus navios. Num instante, os investidores e colonos de Poyais encontraram-se desamparados. Depois, quando a situação parecia não poder piorar, os colonos foram atingidos ou pela febre amarela, ou pela malária.

Nem um, ninguém foi capaz de se ajudar uns aos outros, dado o número dos aflitos e muitos dos que tinham vindo recentemente da Escócia estavam bem avançados na idade e tinham vindo para aqui para terminar os seus dias em paz e conforto”. - Sobrevivente de Poyais

No final, sete navios no total chegaram a Poyais com passageiros que procuravam instalar-se no paraíso dos contos de fadas de MacGregor. Dos 240 colonos que aqui chegaram, apenas 60 sobreviveram.

Por isso, para abordar o debate delineado no início deste texto, houve certamente “um período em que tantas fraudes evidentes mobilizaram mais dinheiro que os investimentos tradicionais“. O texto de hoje irá abordar ainda mais em alguns exemplos interessantes de fraude, o modo como a fraude persiste, e outros períodos de excessos especulativos. Boa leitura!

 

Uma empresa de grande interesse mais ninguém sabe o que ela é

Porque é que isto é relevante:

Talvez nenhuma “Idade de Ouro da Fraude” seja mais conhecida do que o ano de 1720, quando as bolhas tanto do Mar do Sul como da Companhia Mississippi implodiram. Este artigo analisa um dos mais famosos episódios da derrocada da Companhia do Mar do Sul, que fornece uma excelente visão sobre os níveis de especulação desenfreada em Londres na altura.

Resumo:

Enquanto o autor deste artigo, Dr. Andrew Odlyzko, salienta que a história é provavelmente apócrifa, uma das histórias mais repetidas da Bolha do Mar do Sul foi a promoção de uma empresa que “atraiu investidores para investir em ‘um empreendimento de grande vantagem, mas ninguém sabia do que se tratava’“. Porém, como Odlyzko observa, mesmo que esse episódio específico seja apócrifo, houve exemplos igualmente ridículos de investidores que investiram cegamente o seu dinheiro enquanto procuravam bons retornos. Por exemplo, enquanto a Companhia do Mar do Sul recebe todo o foco pela sua ascensão dramática, William Goetzmann e os seus co-autores demonstram quão parabólicos eram os retornos noutra nova e excitante indústria ao mesmo tempo: As companhias de seguros.

Como se esperava, a Bolha do Mar do Sul de 1720 ofereceu um exemplo perfeito de como os investidores ocorrem como um rebanho a empresas recém-formadas na sequência do sucesso de um determinado título na esperança de “acertar na lotaria” e conhecerem uma subida semelhante.

A atmosfera efervescente de 1719 ofereceu novas oportunidades aos promotores, e eles começaram a solicitar dinheiro aos investidores. A figura 1 [abaixo] mostra, no gráfico de dispersão, o número de novos projetos anunciados cada mês, mas multiplicado por 10, de modo que os 88 projetos de Junho de 1720 correspondem a 880 na figura. Estes números são retirados de The Constitution and Finance of English, Scott’s Joint-stock Companies, Scottish and Irish, de William Scott, para 1720. Como se pode ver, dos quase 200 projetos que Scott tabelou, apenas 13 foram iniciados em 1719. Mas eles foram notados por muitos observadores. Também foi notado o que pareceu a muitos céticos ser a credulidade desmesurada do público que estava ansioso por se envolver. Isto levou ao primeiro dos acontecimentos que provavelmente inspiraram a fábula “empreendimento de grande interesse, mas em que ninguém sabia do que se tratava“.

 

Visualizando a História:

Citação notável:

“A partir de sexta-feira, 18 de dezembro de 1719, o Daily Post publicou durante vários dias um anúncio de “um esquema extraordinário para uma nova companhia de seguros a ser proposta,” com “autorizações de subscrição” oferecidas por £0,05 cada. Não foram citados nomes de projetores, nem detalhes do esquema.

A venda das ‘autorizações’ teve lugar na quinta-feira, 24 de dezembro. Dois dias depois, este mesmo jornal tinha um anúncio que oferecia reembolsos pelas ‘várias centenas’ dessas licenças que tinham sido vendidas e explicava que tudo isto era um embuste concebido para mostrar como era fácil ‘impor uma fraude a uma multidão crédula'”.

 

Jamie Catherwood no Odd Lots Podcast: a bolha tecnológica do século XVII

Em 2019, fui ao podcast Odd Lots da Bloomberg para falar de uma das minhas bolhas e manias favoritas da história: A Bolha Tecnológica dos anos 1690. Ouçam no link acima e digam-me o que pensam!

 

O Pânico de 1825: Em Busca do Ouro Asteca

Porque é que isto é relevante:

Outro ano particularmente especulativo e fraudulento é encontrado em 1825.

Resumo:

O pânico de 1825 foi o culminar de vários anos de investimento eufórico em dívida soberana e metais preciosos que incluía uma das mais notáveis vigarices de todos os tempos: títulos vendidos em nome de um país inventado, chamado Poyais“.

Visualizando a História:

Notável citação:

“Armados com notas baratas e uma disposição romântica, os especuladores britânicos aventuraram-se na selva dos investimentos latino-americanos durante o início da década de 1820, na busca das lendárias minas de tesouro do continente. Contudo, tudo o que encontraram foram sanguessugas sugadoras de lucros e esquemas de pirâmide malditos”.

 

A agência número 1 de Fraude de Senhoras

Porque é que isto é relevante:

Este artigo defende a razão pela qual devemos utilizar o termo “Esquema Howe” em vez de “Esquema Ponzi” para descrever fraudes que apresentam uma estrutura “piramidal”.

No século XIX, uma mulher cartomante que se tornou financiadora abriu um banco oferecendo taxas de juro garantidas de 8%, e até se ofereceu para pagar os primeiros três meses de juros antecipadamente aos novos depositantes. Um bom negócio! Basta dizer que as práticas contabilísticas desta instituição eram, digamos, bem questionáveis…

No entanto, o que torna este episódio particularmente interessante é que o negócio de Howe anunciava um propósito “orientado para a missão” de ser um “banco gerido por mulheres, para mulheres”. Esta abordagem de negócios aparentemente boa reduziu potencialmente o escrutínio justificado sobre os negócios da Howe, e permitiu que o seu esquema persistisse. Existem certamente alguns paralelos à “lavagem verde -as vigarices em nome do ambiente” e à Governança Social e Ambiental (sigla em inglês – ESG).

 

Resumo:

“O início da vida de Sarah Howe é, sobretudo, um mistério… mas em 1877 era solteira e trabalhava como cartomante em Boston. Era uma época de expansão e invenção nos Estados Unidos. O país estava a reconstruir-se após a Guerra Civil, o desenvolvimento industrial começava a descolar, e a imigração e a urbanização aumentavam constantemente. O dinheiro fluía livremente (para os brancos de qualquer forma), e tanto homens como mulheres estavam a colocar esse dinheiro nos bancos nacionais em expansão. Em 1876, Alexander Graham Bell inventou o telefone, e em 1879 Thomas Edison criou a lâmpada elétrica. Entre essas inovações, Sarah Howe abriu a Companhia de Depósitos de Mulheres, um banco gerido por mulheres e para mulheres.

A missão da empresa era simples: ajudar as mulheres brancas a ter acesso ao mundo florescente da banca. O banco só aceitava depósitos das chamadas “mulheres desprotegidas”, mulheres que não tinham um marido ou tutor a tratar do seu dinheiro. Estas mulheres eram largamente ignoradas pelos bancos que as viam – e os seus pequenos potes de dinheiro – como uma perda de tempo. Em troca do seu investimento, Howe prometeu resultados incríveis: uma taxa de juro de 8 por cento. Deposita agora $100, e prometeu mais $96 de volta até ao final do ano. E para adoçar o negócio, as novas depositantes receberam os seus primeiros juros com três meses de antecedência. Quando os céticos expressaram dúvidas de que Howe pudesse realmente garantir retornos tão elevados, ela ofereceu uma explicação: A Companhia de Depósitos de Senhoras não era um banco comum, mas sim uma instituição de caridade para as mulheres, contratada por filantropos Quaker.

A notícia do banco espalhou-se rapidamente entre as mulheres solteiras – domésticas, professoras, viúvas. Howe, muitas vezes vestida com as melhores roupas, atraiu as senhoras para se juntarem a elas, e encorajou-as a espalhar a notícia entre os seus amigos e família. Esta estratégia de marketing boca-a-boca funcionou, o banco Howe reuniu investimentos de todo o país num muito curto período de tempo e isto antes da comunicação fácil a longa distância. O dinheiro veio de Buffalo, Chicago, Baltimore, Pittsburgh, e Washington, tudo isto sem que Howe tivesse colocado um único anúncio de jornal. Abriu uma agência do banco em New Bedford, Massachusetts, e tinha planos de acrescentar escritórios em Filadélfia e Nova Iorque para acompanhar a procura. Muitas das mulheres que depositaram junto da Companhia de Depósitos de Senhoras reinvestiram os seus lucros no banco, colocando a sua fé, e poupanças de toda a vida, no empreendimento da Howe. Tudo dito, o Depósito de Senhoras reuniria pelo menos 250.000 dólares de 800 mulheres – embora os historiadores pensem que estavam envolvidas muito mais mulheres. Alguns estimam que Howe recolheu mais como 500.000 dólares, o equivalente a cerca de 13 milhões de dólares hoje em dia”.

 

Visualizando a História:

Citação notável:

Tudo isto é falso, pois as próprias declarações de Howe à imprensa antes da sua queda sugerem que, de facto, ela tinha uma sagacidade acutilante. Em resposta à crítica de um jornal ao Banco de Depósitos de Senhoras, Howe escreveu: “O facto é que, meu caro senhor, não sabe realmente nada da base, meios ou métodos sobre os quais os nossos assuntos são conduzidos, e quando se fecha nas malhas das suas noções de banco de poupanças, tenta uma exposição da impossibilidade da nossa existência, fica perplexo e atira-se como um morcego numa armadilha com mosca“.

 

O fim dos reguladores e supervisores: subscritores e a qualidade dos mercados de dívida pública,1815-2007

Porque é que isto é relevante:

Parece que não se ajusta aos tempos que correm, uma era de tanta informação e transparência em massa, que possa ainda haver exemplos tão generalizados de fraude e de irregularidades nos mercados. No entanto, tal como as publicações anteriores dos nossos textos já cobriram, o aumento da informação não significa certamente um aumento do conhecimento ou da eficiência. Este documento, cujo link está acima, analisa como é que a relação cada vez mais distante entre o risco de reputação de um banco de investimento e os deveres de subscrição levou a mais casos de incumprimento. Quando as agências de notação de crédito começaram a formar-se, os bancos de investimento podiam simplesmente confiar nas suas notações e deixar de se preocupar com o risco de reputação de subscrever uma oferta de títulos que não cumprisse as suas obrigações. Se isso acontecesse, a culpa seria da agência de notação de risco, não do banco. Como os autores assinalam, isto levou a um “mercado para limões – isto é, mercado onde reina a incerteza na qualidade dos produtos financeiros e onde falham os mecanismos de mercado”.

Resumo:

O papel dos subscritores hoje em dia é muito diferente do que era no passado. Este artigo que suscita fortemente a reflexão explora a evolução dos deveres dos subscritores e das agências de notação ao longo do tempo. Talvez a melhor visão geral seja encontrada na página 3 deste artigo:

“Nos tempos passados (ou seja, o longo período que começou no início do século XIX e terminou com a crise entre guerras), os subscritores prestavam valiosos serviços de certificação. Tentavam assegurar o prestígio convencendo os investidores de que o seu nome estava associado a produtos mais seguros. Fizeram-no não por uma questão de honestidade, altruísmo, ou autoestima, mas sim porque tal implicava benefícios.

Hoje em dia é diferente: os subscritores deixaram o seu papel de certificadores e externalizaram-no para agências de rating. A consequente redução do risco de responsabilidade também significa que os bancos mais competitivos estão preparados para emitir títulos mais arriscados. Sugerimos que esta nova situação deu origem a um mercado de limões, um mercado que não existia no passado. Concluímos que o próximo tsunami da dívida soberana irá colidir com um mercado de dívida estrangeiro que, por conceção, é mais propenso a acidentes do que os seus predecessores”.

Este forte contraste nos papéis dos subscritores em cada período de tempo levou ao que os autores chamam “o puzzle por defeito“. Este puzzle deriva do facto de que os subscritores costumavam ter um interesse declarado na forma como os títulos que subscreviam se realizavam, pois esse resultado poderia prejudicar ou beneficiar o seu prestígio empresarial. Isto significava que os bancos que atuavam como subscritores eram responsáveis pelo desempenho das funções que hoje são das modernas agências de notação de crédito. Se um banco subscrevesse obrigações que acabassem por não cumprir, isso mancharia a reputação do banco. Os investidores perguntariam “Como poderiam não ver o risco de incumprimento antes de decidirem subscrever os títulos?”

O resultado foi um mercado de obrigações em que muito poucos “títulos lixos” foram emitidos, uma vez que os subscritores eram cautelosos em poder pôr em causa a sua reputação. Os incumprimentos que se verificaram foram geralmente agrupados em torno dos poucos intermediários financeiros que estavam dispostos a subscrever as obrigações “de menos qualidade”, e a assumir correr o risco de reputação.

MAS, como todos sabemos, as notações de crédito mudaram tudo.

Os bancos de investimento que se envolveram no novo mercado provavelmente saudaram a transformação (incluíram reencarnações de líderes de entre as duas guerras de Nova Iorque, tais como JP Morgan ou National City Bank). As taxas eram agora menores, é claro, mas o risco de responsabilidade também foi reduzido. As agências de classificação seriam o novo pára-raios para acusações de má prática financeira. Os bancos, embora sem dúvida informados, poderiam agora mostrar aos clientes infelizes as notas dadas pelas agências de notação (possivelmente menos informadas)“.

Na essência, já não há necessidade de se preocupar com o risco de reputação associado à subscrição, porque se algo correr mal, é a agência de notação que é culpada. Consequentemente, existe agora um “mercado para os limões” em expansão [N.T. mercado onde reina a incerteza na qualidade dos produtos financeiros e onde falham os mecanismos de mercado].

Visualizando a História:

Citação notável:

Uma outra implicação é que a dívida governamental é hoje, por construção, mais arriscada e volátil do que era no passado. Além disso, esta dívida é certificada por agentes que não têm acesso direto ao fluxo de informação em condições favoráveis normalmente obtido através da subscrição e da relação bancária. Em vez disso, estes agentes devem contar apenas com a informação publicada. Caso surjam problemas, as agências de notação não têm meios para ajudar e nenhuma informação privilegiada. Os subscritores não têm qualquer razão para prestar apoio, pois escaparam à responsabilidade, transferindo os deveres de certificação para as agências de notação. Pelo contrário, no passado, um banco como emissor e certificador via a importância de não pôr em risco a sua reputação e estava frequentemente disposto a servir como emprestador de último recurso“.

 

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[1] N.T. Obrigações emitidas pelo Banco de Inglaterra pela primeira vez em 1751, sob a forma de obrigações perpétuas, resgatáveis por opção do governo.

 

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O autor: Jamie Catherwood é Associado da Carteira de Clientes da O’Shaughnessy Asset Management (desde 2019), uma empresa de investimento quantitativa de capital de longo prazo sediada em Stamford, Connecticut. É presidente da Investor Amnesia LLC (desde 2020). Foi analista de investimentos na Gallagher (2017/19) e do VogelHood Group (abril 2016/abril 2017). É licenciado em História pelo King’s College de Londres (2017). É um autêntico marrão da História, em especial história das finanças e do Médio Oriente. Tem feito múltiplas colaborações com a Bloomberg TV.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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