O mundo disfuncional de ontem e de hoje – 2. Colapso na bolsa com a moeda Bitcoin. Não só por causa da escolha chinesa. Por Stefano Bocconetti

Composição fgt: Realidade virtual (Crédito a Talking Influence, 25julho2019) e Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, pormenor.

 

Uma série de três textos dedicada à minha filha, Sara Pargana Mota, que passou no dia 25 de Maio por uma situação que mais parecia a reprodução ao vivo de um grande pesadelo

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. Colapso na bolsa com a moeda Bitcoin. Não só por causa da escolha chinesa

Novas tecnologias. Os analistas mais autorizados também explicam que, de facto, já estava em curso uma venda massiva de moedas criptográficas, mas não há dúvida de que o controverso chefe da Tesla e do Space X colocou uma grande carga sobre ela

 

 Por Stefano Bocconetti

Publicado por  em 21 de Maio de 2021 ver aqui)

 

Uma caixa ATM de criptomoedas em Hong-Kong

Uma notícia atrás da outra, com a segunda talvez destinada a pesar mais do que a primeira. Começa com o que aconteceu na outra noite: o colapso do valor da criptomoneta mais famosa, o Bitcoin. O seu valor, ao longo do dia, levou-o a tocar a taxa de câmbio a 30 mil dólares (embora à medida que escrevemos as cotações estejam a recuperar ligeiramente).

Há apenas dois meses, para melhor compreendermos o que se passa, por um Bitcoin tinha que se pagar 64 mil e 829 dólares. A segunda notícia (que acompanha e que, filtrada por alguns dias, provavelmente esteve na origem da primeira) é a decisão de três organismos financeiros chineses: a National Internet Finance Association of China, a China Banking Association e a Payment and Clearing Association of China proibiram os bancos de operar com moedas criptográficas. Mesmo os clientes individuais dos bancos chineses não poderão negociar, comprar, ou fazer investimentos com moedas virtuais. Paragem total. Mesmo a publicidade envolvendo moedas criptográficas não será permitida.

Quais as razões do colapso, que em qualquer caso não diz respeito apenas ao Bitcoin, uma vez que o Ethereum e o Dogecoin também reduziram praticamente para metade o seu valor? A sensação de uma parte dos observadores é que esvaziar o peso das moedas contribuiu – e contribuiu muito – para as últimas tiradas de Elon Musk. Os analistas mais abalizados também explicam que na realidade já estava em curso uma venda massiva de moedas criptográficas, mas não há dúvida de que o controverso chefe do Tesla e do Space X colocou uma boa carga neste colapso. E com muito peso, claro, foi um tweet – a ferramenta com que ele faz os seus anúncios – há sete dias atrás. Quando, negando o que tinha afirmado até então, escreveu que os seus carros deixariam de poder ser comprados com moeda criptográfica. Citando razões ambientalistas (para produzir um bitcoin, sem o comprar, são necessárias milhares e milhares de horas de computadores super-poderosos).

A juntar a tudo isto, no outro dia, foi a misteriosa paragem técnica em Coinbase, a plataforma – cotada na bolsa de valores, cujas ações também caíram quase metade do seu pico de Abril – especializada na troca de moedas criptográficas, onde é possível – era, pelo menos até quinta-feira à tarde – comprar e vender Bitcoin, Ethereum, Ripple e outras moedas menores.

Assim, muita gente tentou ver-se livres das moedas rapidamente. Uma venda que parece sem precedentes na sua – embora curta – história. Para completar o quadro existem então os comentários – alguns deles – que parecem decididamente alarmantes para os investidores. Tais como os dos analistas do banco JP Morgan – citados pelo theregister.com – segundo os quais uma nova fase poderia mesmo ser aberta, onde as bitcoins seriam postas de lado para voltar a apostar, nada menos, do que “no ouro”.

Há também aqueles que – Steen Jakobsen, por exemplo, o chefe do departamento de investimentos do Saxo Bank – argumentam que as muitas operações em bitcoins se devem a uma “desalavancagem generalizada”, a necessidade neste momento pós-pandémico de as empresas reduzirem as dívidas. A venderem o que têm.

Entre as causas deste terramoto, porém, há também as que acrescentam “as escolhas penalizadoras de algumas instituições, que eram esperadas”. A referência, é claro, é a China e a decisão de ontem das autoridades financeiras em Pequim.

Decisão que à primeira vista não parece ter nada a ver com uma pequena queda nas ações dos grupos, de alguma forma relacionados com a China que utilizam a cadeia de blockchain: a Shenzhen Forms Syntron Information Co., a Ygsoft Inc. e a Brilliance Technology Co. Em Singapura está-se em baixa, mas apenas cinco por cento – como revelado pelo cabaz de moedas monitorizado pela Bloomberg – contra a queda de 34 por cento nas “ações criptográficas” – não é correto mas vamos chamá-las assim para compreender – no resto dos mercados mundiais.

O facto é que, desde ontem, Pequim proibiu quaisquer operações com moedas criptográficas. Na verdade, ilegalizou-as. Mesmo a “mineração” seria proibida, ou seja, a extração de moedas virtuais por via eletrónica.

Já não podem ser utilizados como dinheiro. Talvez melhor: as outras moedas criptográficas, as moedas criptográficas dos outros, não podem ser utilizadas na China. Porque, de facto, há algum tempo que Pequim tem vindo a trabalhar na sua própria moeda, a moeda yuan digital. E já está para além das primeiras experiências.

Embora este yuan não possa ser exatamente chamado de moeda digital, pelo menos daqueles que pertencem às fileiras das redes de blockchains. E porque aqui há uma diferença fundamental: a moeda chinesa virtual permite que as transações sejam rastreadas, não permitirá o anonimato.

Será algo mais, será uma outra coisa. Mas Pequim está a apostar nisso. E talvez esta seja uma das razões que explica a proibição, a declaração de ontem das autoridades financeiras. Se isto é assim, só o saberemos nos próximos meses.

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O autor: Stefano Bocconetti, de esquerda. Romano. É jornalista, agora na reforma, foi redator no Liberazione (órgão quotidiano da Refundação Comunista). Colaborou dois anos com o Unità.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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