A França e as políticas neoliberais de Macron – “Macron, desconstrutor da alta função pública”. Por Sophie Coignard

 

Macron, desconstrutor da alta função pública

 

 Por Sophie Coignard

Publicado por em 18/05/2021 (ver aqui)

 

Depois da “desconstrução” da história, Macron implementa a da alta função pública. Não sem falta de tacto e de ambiguidade.

 

Depois da “desconstrução” da história, Macron implementa a da alta função pública. © SARAH MEYSSONNIER / POOL / AFP

 

Após os fóruns dos militares, as petições dos altos funcionários públicos. Em 6 de Maio, 131 membros da Inspecção Geral dos Assuntos Sociais publicaram no Le Monde um texto de protesto contra a anunciada abolição do seu corpo, bem como os de duas outras inspecções gerais: de finanças, ligada a Bercy – de onde provém Emmanuel Macron -, e de administração, que depende do Ministério do Interior. Os prefeitos ainda não declararam pública e coletivamente o seu descontentamento, mas a sua indignação não parou desde que Jean Castex anunciou, também a 6 de Maio, o fim do corpo da prefeitura.

Trata-se de “funcionalizar” estas missões, para utilizar o vocabulário tecnocrático estereotipado que a Ministra da Função Pública, Amélie de Montchalin, utiliza sem moderação. Esta licenciada na HEC (Altos Estudos Comerciais) de Paris parece estar convencida de que, para ser eficaz, excelente e eficaz, três dos seus adjetivos favoritos, é preciso muitas vezes mudar de emprego para se ser “desafiada”. Caso contrário, contentamo-nos em desfrutar de um “rendimento vitalício”.

 

Perguntas certas, más respostas

Não é certo, ao ouvi-la dissertar, que a ministra tenha realmente conhecimento sobre a forma como trabalham, por exemplo, os membros da Inspeção Geral dos Assuntos Sociais. Realizam missões complexas, que exigem que sejam insensíveis às pressões, por vezes insistentes, das várias forças em presença, sejam elas políticas, económicas ou hierárquicas. Uma vez “funcionalizados”, os inspetores já não estarão imunes a decisões arbitrárias. Será que persistem na investigação de um assunto que incomode o poder vigente? Serão julgados “não produtivos” e transferidos para outra administração.

Na verdade, o executivo está a propor as respostas erradas às perguntas certas. Deve ser suprimida a entrada nos altos corpos da administração ao sair da ENA, ou do instituto que lhe sucederá? Sim, mil vezes sim, para que todos possam primeiro dar provas no campo operacional. A inspeção financeira, para não mencionar o nome, é demasiadas vezes utilizada como rampa de lançamento para belas e lucrativas carreiras no sector privado? Sim, claro que sim. Mas adiar por alguns anos a chegada de um funcionário público sénior a este organismo reduz os riscos de “porta giratória”, que podem ser controlados de forma mais rigorosa. É desejável a contribuição de diferentes perfis, tanto nos serviços de inspeção geral como na prefeitura? Sim, certamente, sim. No entanto, devemos evitar o favoritismo, ou mesmo o nepotismo, que tem sido demasiadas vezes o caso quando se trata de integrar personalidades “sem concurso”.

Em 26 de Maio, portanto, será apresentado ao Conselho de Ministros um projeto de portaria para substituir o texto em vigor desde Outubro de 1945. É de esperar que não se inspire em considerações banais de conveniência, tais como querer mostrar que, sem grandes custos, as reformas continuam, ou “punir” uma alta administração por vezes julgada como tendo falhado durante a crise de saúde, enquanto os políticos são os primeiros responsáveis por uma acumulação burocrática ingerível.

______________

A autora: Sophie Coignard [1960-] é uma ensaísta e jornalista francesa. Estudou na Escola Superior de Ciências Económicas e Comerciais. Repórter do Le Point, é autora de numerosas obras de investigação, nomeadamente sobre a franco-maçonaria e as elites francesas. Obras:

  • La Nomenklature française, com Alexandre Wickham, Belfond, 1986
  • La République bananière, com Jean-Francois Lacan, Belfond, 1989
  • Le Jour où la France a basculé, Robert Laffont, Paris, 1991
  • Le Nouveau Dictionnaire des girouettes, com Michel Richard, Robert Laffont, Paris, 1993
  • Les Bonnes Fréquentations – Histoire secrète des réseaux, com Marie-Thérèse Guichard, Grasset, Paris, 1997
  • L’Omerta Française, com Alexandre Wickham, Albin Michel, Paris, 1999
  • Le Rapport Omerta, Albin Michel, Paris, 2002
  • Le Rapport Omerta, Albin Michel, Paris, 2003
  • La Vendetta Française, Albin Michel, Paris, 2003
  • Le Rapport Omerta, Albin Michel, Paris, 2004
  • Le marchand de sable: La vérité sur le système Delanoë, Paris, Albin Michel, pag.227, 006
  • Jean Louis Gergorin, Rapacités, Paris, Fayard, 2007, 346 p.
  • Un état dans l’État, Paris, Albin Michel, 2009, 325 p.
  • Le pacte inmoral: comment ils sacrifient l’éducation de nos enfants, Paris, Albin Michel, 2011, 281 p.
  • L’Oligarchie des incapables, com Romain Gubert, Albin Michel, 2012
  • Michelle Obama, l’icône fragile, Paris, Plon, impr. 2012, 203 p.
  • 100 questions sur les francs-maçons, Paris, La Boétie, dl 2013, 156 p.
  • La caste cannibale: quand le capitalisme devient fou, Paris, A. Michel, 327 p.
  • Ces chers cousins – Les Wendel, pouvoirs et secrets, com Romain Gubert, éditions Plon, 2015.
  • “Ça tiendra bien jusqu’en 2017 …”, Paris, Albin Michel, 249 p.
  • La Caisse. Enquête sur le coffre-fort des Français, com Romain Gubert, Seuil, 2017
  • Le Nouveau Mal français, com Romain Gubert, Éditions de l’Observatoire, 2017
  • Benalla, la vraie histoire, Éditions de l’Observatoire, 2019
  • Les faux jetons, Fayard, Paris, 2019,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply