O mundo disfuncional de ontem e de hoje – 3. NFT NFT NFT [ou a destruição da Arte como suposta criação artística]. Por Matt Levine

Composição fgt: Realidade virtual (Crédito a Talking Influence, 25julho2019) e Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, pormenor.

 

Uma série de três textos dedicada à minha filha, Sara Pargana Mota, que passou no dia 25 de Maio por uma situação que mais parecia a reprodução ao vivo de um grande pesadelo

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. NFT NFT NFT [ou a destruição da Arte como suposta criação artística]

 Por Matt Levine

Publicado por  em 24 de Maio de 2021 (extrato do artigo Money Stuff: Merril Lynch Puts Down the Phone, ver aqui. Publicado originalmente por Bloomberg Opinion, Money Stuff)

 

(…)

Algures, no domínio dos Tokens não fungíveis (NFT- non fungible tokens), aqui está um e-mail que recebi sobre este evento:

No dia 27 de Maio, o famoso artista da Marvel e DC Comics Rob Prior queimará a sua pintura original diante da câmara e apresentará o Token não fungível digitalizado após a queima do original durante um evento em direto.

O quadro, que é inspirado no Lobo de Wall Street, terá moeda fiduciária a cair do céu; será queimado para demonstrar que o futuro da arte, e Wall Street, está destinado a passar pela blockchain, pela digitalização.

A pintura de Prior apenas passará a existir sob a forma de um ERC1155 NFT digitalizado e será leiloada exclusivamente na plataforma do Mogul. Rob Prior pintará igualmente em direto e revelará as suas duas próximas obras NFT durante o evento, incluindo uma interpretação de Deadpool inspirada em Marvel e uma pintura de Luke Skywalker da Star Wars.

 

Ele aparentemente também o fez no mês passado? Vejam. Escrevo muito por aqui sobre aquilo a que chamei o ciclo “NFT ‘objeto fogo-token-moeda'”, onde se pega numa pintura ou outro objeto de arte, acende-lhe uma fogueira, e depois vende-se um NFT “da” queima da pintura. E embora inicialmente pensasse que estava a brincar, parece cada vez mais que é assim que os produtos NFT funcionam: A forma padrão de criar uma NFT é fazer ou comprar uma pintura e depois destruí-la, e que essa combinação é um produto artístico, um NFT.

A um nível, eu percebo-o: Apagar outras artes, comentar a comercialização da arte, fazer arte da não permanência e da ausência, todos estes são gestos comuns e, francamente, agora algo clichés na tradição artística, e a ascensão dos NFTs revigorou esses gestos e sobrepôs-se alguma excitação tecno-futurista sobre eles.

Por outro lado, isto é muito, muito estúpido e todos deveriam deixar-se disso. Escrevi no outro dia que o resultado final da loucura do NFT será “que o conceito de queimar arte para reproduzir a sua destruição na forma digitalizada, blockchain, se torna mais valioso do que a arte real, de tal modo que todas as pinturas do mundo podem assim ser queimadas para aumentar o seu valor”. Isso é mau! Eu não quero isso! Quero que os artistas considerem a possibilidade de que a moda dos produtos [Tokens] não fungíveis [NFT], que representam a destruição pelo fogo da própria arte possa não durar tanto tempo quanto a moda das, o leitor sabe, das pinturas bonitas para vermos penduradas nas paredes [nos museus], e eventualmente, em vez disso, poder desejar ter as pinturas.

Também a possibilidade de que esta coisa de “queimar – arte para produzir NFTs” seja realmente considerada aborrecida e sem sentido, não havendo nada de interessante a dizer!

Também o facto de que o ciclo “objeto fogo-token-moeda” não é necessário para a natureza dos produtos NFT; pode-se fazer um símbolo não-fungível representando uma obra de arte existente em vez de apenas uma que você destruiu. (Como Sarah Meyohas faz com as pétalas de rosa, ou Unisocks com as meias, etc.) Suponho que existe aqui um problema teórico, pois se tiver uma referência de blocklchain a uma pintura, e também à pintura física, alguém poderia separá-las e então poderia ter dúvidas sobre a propriedade, sobre o que é que é a obra “real”, etc. Mas está bem! Se queimar a pintura, responde a essas perguntas da forma mais estúpida e contundente possível: “Só o ponteiro da blockchain é real porque destruí o objeto físico”. Se não destruir o quadro, então essas perguntas tornam-se mais subtis e interessantes.

De qualquer modo, na medida em que esta minha secção de textos na Bloomberg  é considerada influente nas tendências da arte financeira, [ria bem alto e forte] lol, o que não é de modo algum verdade, deixem-me dizer novamente: Parem com isso, parem com a queima dos quadros! Façam NFTs mais interessantes!

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O autor: Matt Levine é um colunista da Bloomberg Opinion cobrindo o setor financeiro. Foi editor da Dealbreaker, um banqueiro de investimentos da Goldman Sachs, advogado de fusões e aquisições da Wachtell, Lipton, Rosen & Katz, e secretário do Tribunal de Recursos da 3ª Região dos EUA.

 

 

 

 

 

 

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