Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – Enquadramento: “O Sr. Weill vai a Washington”. Por Frontline

Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

 

O Sr. Weill vai a Washington

A política e o impacto da criação do Citigroup por Sandy Weill, o primeiro superbanco de serviço completo, e a revogação da Lei Glass-Steagall que o impedia.

 

Por em 8 de Maio de 2003 (ver aqui)

 

O Citigroup, formado pela fusão de Travelers e Citicorp em 1998, é a maior instituição financeira do mundo, combinando uma das maiores companhias de seguros (Travelers), um dos maiores bancos de investimento (Salomon Smith Barney), e o maior banco comercial (Citibank) da América. Mas antes de se poderem juntar, o CEO do Travelers, Sanford I. Weill, que tinha proposto a fusão a John Reed do Citicorp, teve de ultrapassar um grande obstáculo: a histórica Lei Glass-Steagall de 1933, que na sequência do colapso de 1929 tinha proibido os bancos comerciais de subscreverem títulos. A lei, ainda em vigor em 1998 mas enfraquecida ao longo dos anos, separava a banca de investimento da banca comercial a fim de evitar conflitos de interesses e proteger os investidores.

A criação do Citigroup por Sandy Weill – o primeiro assim chamado “superbanco” – e a sua bem sucedida pressão para a revogação da Lei Glass-Steagall que era um obstáculo nesse caminho, foi uma demonstração do músculo político de Weill e Wall Street. Mas qual tem sido o impacto do desaparecimento da Glass-Steagall e da fusão de bancos de investimento e bancos comerciais dentro de um único gigante financeiro? Será que o aparecimento de super-bancos de serviço completo como o Citigroup contribuiu para os abusos da bolha do final da década de 1990? Abordando estas questões, em excertos das suas entrevistas FRONTLINE, estão o ex-Presidente da SEC Arthur Levitt, o antigo membro do Conselho da Reserva Federal Alan Blinder, o Procurador-Geral do Estado de Nova Iorque Eliot Spitzer, o historiador financeiro Charles Geisst, Scott Cleland, do Grupo Precusor, e Kenneth Guenther, dos Banqueiros Comunitários Independentes da América.

 

Greenspan, Weill e Companhia: a Washington Connection

 

 Arthur Levitt, Ex-banqueiro de investimentos e presidente da Bolsa de Valores Americana, foi presidente da Securities and Exchange Commission de 1993 a 2001.

Quando entrou como presidente da SEC no início dos anos 90, qual era a situação da lei Glass-Steagall e das leis bancárias?

Era para mim evidente que as proteções da lei Glass-Steagall já tinham sofrido uma grande erosão. Mas o Congresso, em várias ocasiões, quase aprovou um projeto de lei para acabar com a Glass-Steagall. Era evidente que não se tratava de saber se a Glass-Steagall iria desaparecer mas quando é que iria desaparecer. Milhões de dólares estavam a ser derramados nos cofres de campanha dos senadores e congressistas que estavam determinados a fazê-lo.

Quem estava a pressionar?

A indústria dos seguros, o Conselho da Reserva Federal, a Casa Branca, os banqueiros de investimento, os banqueiros comerciais – quase toda a gente o queria. (…)

Foi uma cena incrível, mas eu vi-a passar por duas vezes. Uma vez foi durante um período de tempo em que o Al D’Amato presidiu ao Comité Bancário [do Senado] – e não teve sucesso em obter a revogação do Glass-Steagall – onde centenas de lobistas vieram ao Congresso, estavam nos corredores de manhã, durante o dia e à noite. Lobistas das companhias de seguros, dos bancos de investimento, dos bancos comerciais, puxando a favor dos seus próprios interesses paroquiais.

Depois quando Phil Gramm [Democrata – Texas] se tornou presidente do comité bancário, o mesmo grupo veio fazer lobby, só que agora eram complementados por lobistas da indústria de derivados, de outros novos produtos que se tinham desenvolvido, e das bolsas de valores e das bolsas de opções. Perseguiam os senadores e congressistas, de manhã, durante o dia e de noite.

Do ponto de vista dos investidores, eu estava preocupado que a proteção vital dos investidores, em termos de supervisão da SEC em matéria de valores mobiliários, fosse corroída ao entregar aos bancos toda a responsabilidade por iniciativas que, no passado, eram da esfera das empresas de valores mobiliários sob a jurisdição da SEC.

Isto não era apenas uma batalha territorial. Esta era uma questão de duas culturas diferentes: uma cultura de risco, que era o negócio dos títulos, e uma cultura de proteção dos depositantes, que era a cultura da banca. Duas culturas muito diferentes. …

Então na Reserva Federal, que supervisiona a actividade bancária, tinham vindo gradualmente a conceder cada vez mais excepções  Glass-Steagall. … O que se tinha passado nas décadas de 1980 e 1990?

Claramente, durante as décadas de 1980 e 1990, foram concedidas uma série  de exceções pelos reguladores da Reserva Federal, em termos do que os bancos podiam e não podiam fazer. O Controlador da Moeda também esteve envolvido nisto. … Permitiam que os bancos fizessem coisas que não podiam fazer no passado. Permitiram certas práticas que não eram aceitáveis no passado e, em consequência disso, as proteções da Glass-Steagall estavam quase totalmente corroídas na altura em que esta lei foi aprovada. …

Então, quando o Congresso finalmente age, é basicamente para ratificar?

O Congresso sancionou legislativamente práticas que os reguladores tinham permitido que se desenvolvessem ao longo das últimas duas décadas.

E o desenvolvimento dramático, em 1998, foi a fusão do Citibank com o Travelers. …

A fusão do Travelers e do Citibank foi, obviamente, o toque de morte da Glass-Steagall. …

 

 Alan Blinder, Professor de economia em Princeton, antigo vice-presidente do Conselho da Reserva Federal, e antigo membro do Conselho de Conselheiros Económicos sob o Presidente Bill Clinton.

Dr. Blinder, voltemos ao final dos anos 80 e início dos anos 90, e explique-me sobre as medidas que estavam a ser tomadas pelo Conselho da Reserva Federal para afrouxar, para liberalizar, as disposições da Lei Glass-Steagall.

Nos finais dos anos 80, após alguma agitação antes disso, os bancos começaram a levar ainda mais a sério a entrada no mercado de títulos, dos quais tinham sido mais ou menos proibidos desde a Lei Glass-Steagall nos anos 30. Houve, em primeiro lugar, alguns casos jurídicos. Depois houve uma decisão do Conselho da Reserva Federal, permitindo uma maior participação dos bancos, por exemplo, na subscrição de títulos de ações. O montante pelo qual lhes foi permitido fazê-lo subiu gradualmente em várias etapas – a mais importante aconteceu em 1996, quando foi elevado a um grau [25 por cento das receitas globais] que, excepto em alguns casos extraordinários, foi provavelmente suficiente para quase todos os bancos fazerem quase todas as subscrições de títulos que realmente gostariam de fazer.

Por outras palavras, estava muito próximo da revogação da Glass-Steagall, embora não revogando literalmente a Glass-Steagall. Glass-Steagall ainda estava em vigor. (…)

O senhor estava no Conselho da Reserva Federal nessa época. Qual era o pensamento no Conselho?

O pensamento era variado. Um deles era que o mercado tinha praticamente revogado a Glass-Steagall, de qualquer modo. As linhas de separação entre seguros, títulos e bancos tinham vindo sucessivamente a tornar-se difusas. Companhias de títulos como a Merrill Lynch estavam metidas em coisas que se pareciam muito com a banca. Bancos como o J.P. Morgan assemelhavam-se muito a casas de títulos, e assim por diante – tudo ao abrigo do quadro legal então em vigor. Assim, o mercado quase tinha acabado com a Glass-Steagall.

Em segundo lugar, havia a crença de que se poderia aumentar a concorrência em todos estes domínios se os bancos pudessem competir nos domínios das casas de títulos, e as casas de títulos pudessem competir nos domínios dos bancos, e assim por diante. Haveria um sistema financeiro mais competitivo e, portanto, mais eficiente. (…)

Para aquelas poucas organizações que não poderiam fazer o que gostariam de fazer ao abrigo do quadro regulamentar existente, a revogação da Glass-Steagall tornaria isso possível. O Citigroup foi o exemplo mais proeminente, devido à escala da companhia de seguros. Com Travelers, uma imensa companhia de seguros, e um imenso banco [Citibank], e uma imensa corretora [Salomon Smith Barney], reunidos no âmbito do Citigroup, precisavam realmente da revogação da Glass-Steagall ou mesmo de uma maior liberalização dos regulamentos – mais do que era provável. (…)

Qual foi o papel do Presidente Alan Greenspan neste processo? Qual era o seu pensamento? Ele era a favor [da revogação]? Era ele um defensor? O que é que ele fez?

Ele era certamente a favor disso. O Conselho da Reserva Federal, de facto, tinha sido, repetidamente durante os anos 90, a favor da revogação. (…) Penso que [Greenspan] desempenhou um papel substancial, no sentido em que, se ele fosse contra, essa posição não poderia ter acontecido. Ele não podia ter impedido o mercado de invadir fronteiras – esses eram uma espécie de acontecimentos naturais do mercado. Mas ele poderia ter parado – pelo menos abrandado e, penso eu, provavelmente parado – o ambiente regulador mais amigável. (…)

Não creio que em nenhum sentido – pelo menos pelo meu conhecimento – tenha sido ele a conduzir o processo político que acabou por levar à revogação [da Glass-Steagall]. Mas, definitivamente, ele era um defensor [da revogação]. Foi chamado a testemunhar sobre isto muitas vezes no Congresso durante muitos anos, e foi sempre a favor da revogação da Glass-Steagall. (…)

E então a decisão [do Fed] de aprovar a fusão do Citibank e Travelers – que vai muito além da regra dos 25 por cento?

Na verdade, penso que tiveram muito pouca escolha quanto a isso. Há diretrizes em matéria de fusões. As diretrizes foram cumpridas, nomeadamente a possibilidade de que, se a revogação da Glass-Steagall não tivesse chegado – o que aconteceu – o Citigroup teria tido de se despojar de pelo menos uma grande parte dos Travelers. … Provavelmente, de facto, teria significado tudo isto. Portanto, o Citi estava preparado, se tivessem de, se a lei não fosse alterada, fazer os desinvestimentos adequados que os teriam mantido legais. Assim, o Fed não tinha realmente motivos para se opor à fusão. (…)

Não tinha Sandy Weill um acesso especial se falava diretamente com Alan Greenspan e Bob Rubin do Tesouro e com o presidente dos Estados Unidos?

Absolutamente, ele tinha, e nem todos os banqueiros dos países da América podem ter esse tipo de acesso. (…) Mas é preciso lembrar que este acordo de que Sandy Weill vinha falar com estas pessoas não era sobre abrir uma nova agência no Texas ou algo assim. Isto era um negócio muito importante. Eles estavam a criar a maior empresa financeira à face da terra. Penso que é muito, muito apropriado.

Teria sido uma tolice como um puro assunto de negócios – não importa a política, que, claro, se envolve – como um puro assunto de negócios, teria sido uma tolice simplesmente avançar com isso sem informar Alan Greenspan, Bob Rubin, e assim por diante, mesmo que seja apenas por cortesia.

O senhor diz: “não importa a política”, mas a política envolve-se de facto. O que quer dizer com “política”?

A política envolve-se, porque [Weill e Reed] sabiam na altura que iriam precisar de uma mudança na lei para manter esta empresa unida. (…) E isso viria a sair do sistema político. Alan Greenspan não o podia fazer por eles. Bob Rubin não o podia fazer por eles – embora ambos possam ajudar, é claro, dizendo que gostam da ideia. O Congresso teve de o fazer.

 

 Kenneth Guenther, presidente e diretor executivo da Independent Community Bankers of America

Estamos a falar da maior fusão financeira do mundo. Estamos a falar de, pela primeira vez na história moderna dos Estados Unidos, desde 1933, o maior banco, uma das maiores empresas de títulos, uma das maiores empresas de seguros, estarem reunidas sob propriedade comum.

A legislação está pendente para tornar isso legal, e aqui tem a liderança — Sandy Weill da Travelers e John Reed do Citicorp – a dizer: “Olha, o Congresso não está a avançar suficientemente depressa. Façamo-lo por nós próprios. Para o diabo com o Congresso. Façamos isto”. E assim avançam para a sua realização, e recebem a bênção do presidente do Sistema da Reserva Federal no início de Abril, quando a legislação está pendente.

Isto é arrogância, no pior sentido da palavra. Quem pensam eles que são? Outras pessoas, empresas, não podem agir desta forma. (…) O Citicorp e a Travelers eram tão grandes que foram capazes de fazer isto. Conseguiram fazer o maior conglomerado financeiro – o maior conglomerado financeiro de bancos, seguros e títulos – quando a legislação ainda estava em vigor a dizer que isto era ilegal. E conseguiram-no com as bênçãos do presidente dos Estados Unidos, Presidente Clinton; do presidente do sistema da Reserva Federal, Alan Greenspan; e do secretário do Tesouro, Robert Rubin.

E depois, quando tudo isto acaba, o que acontece? O secretário do Tesouro torna-se o vice-presidente do emergente Citigroup.

 

 Charles Geisst, professor de Finanças na Faculdade de Manhattan, autor de numerosos livros sobre Wall Street e história financeira

As decisões da Reserva Federal tinham arrasado a Glass-Steagall. No entanto, será que Sandy Weill precisava de legislação para colocar num caixão a Glass-Steagall – para acabar com ela?

Sim, precisava. (…)

Pressionou Sandy Weill para que se legislasse no Congresso? E porquê?

Certamente, o Citigroup pressionou para que a legislação se livrasse da lei Glass-Steagall, aprovando o que na altura era chamado HR10, que se tornou a Lei de Modernização dos Serviços Financeiros [de 1999].

Parte do acordo [de Weill] com a Reserva Federal era livrar-se de todas as violações da Glass-Steagall no novo Citigroup no prazo de dois anos. Caso contrário, teria sido confrontado com a alienação de uma empresa que tinha acabado de ser constituída, devido a uma lei antiga que ainda estava em vigor. Por isso, foi essencial para ele, e muitas outras pessoas da indústria dos serviços financeiros que queriam realizar essencialmente o mesmo tipo de coisas no futuro, pressionar para que a Glass-Steagall fosse revogada. (…)

Então, eles pressionaram duramente?

Pressionaram muito duramente. (…) Pressionaram com tanta força que a legislação, HR10, Resolução 10 da Câmara, que se tornou a Lei de Modernização dos Serviços Financeiros, ficou conhecida no Capitólio como “a Lei Citi-Travelers”. (…)

A aprovação pelo Fed da fusão Citibank-Travelers deu realmente ímpeto ao Congresso para aprovar a lei?

Sim. Sem a aprovação do Fed, o Congresso teria provavelmente arrastado os pés. (…) Mas quando o Fed deu o seu imprimatur, era apenas uma questão de tempo até que caísse [a lei Glass-Steagall]. Parte disto teve a ver com o efeito geral de auréola em torno de Alan Greenspan em Wall Street, na altura. …

Qual foi o impacto político no Congresso de Sandy Weill pressionar para a revogação da Glass-Steagall?

Quando Weill quis claramente ver-se livre da Glass-Steagall para que a sua nova organização sobrevivesse, muitos no Congresso – pessoas importantes no Congresso, que anteriormente se tinham oposto à modernização da legislação – decidiram entrar a bordo [desse comboio]. (…)

Foram trazidos para a corrente pelo mesmo tipo de argumentos que Alan Greenspan tinha vindo a apresentar nos últimos 10 anos, que Weill tinha vindo a apresentar e outros, como Merrill Lynch, tinham vindo a apresentar. Penso que eles perceberam que se não entrassem a bordo, poderiam ser vistos como um obstáculo ao progresso financeiro.

O que fez com que Sandy Weill fosse tão influente no Congresso?

O seu sucesso. (…) Sandy Weill provou que quando, por exemplo, Smith Barney e Travelers podiam juntar-se e ter sucesso, que as antigas proibições talvez se baseassem em políticas do [passado] que já não eram válidas. O seu sucesso foi mostrar às pessoas que a velha lei era exatamente isso, era antiquada.

Fez muita pressão pessoal? Telefonemas para membros-chave do Congresso, como Paul Sarbanes, e o que não?

Sim, a sua organização fez. … No ano anterior à Lei de Modernização dos Serviços Financeiros, a coisa que anulou a Glass-Steagall, o Citibank gastou 100 milhões de dólares em lobbying e relações públicas, o que é um bom indicador.

E a maior parte, ou tudo isso, para revogar a Glass-Steagall?

Sim. Eles gastaram uma pequena fortuna, um resgate de rei, se quiserem, para se livrarem da Glass-Steagall. De facto, quando se juntou ao lobby de outras empresas financeiras, esteve mais perto dos 200 milhões de dólares durante um curto período de tempo. (…)

 

O que Sandy fez: o impacto do superbanco

 

 Scott Cleland, estratega de topo em telecomunicações, Cleland é o fundador e presidente-executivo do Grupo Precursor, uma boutique de pesquisa para investidores institucionais.

Que diferença fez o facto de a lei Glass-Steagall ter sido revogada, e de se ter conseguido juntar estes megabancos?

A revogação da Glass-Steagall foi um grande negócio. Permitiu um tipo de combinações colossais que não eram imaginadas antes, onde se juntou o conhecimento e experiência de uma casa bancária de investimento como a Salomon Smith Barney com um Citibank. O Citibank podia emprestar uma enorme quantidade de dinheiro. Assim, quando se juntam estas duas coisas, é uma espécie de combinação imbatível. Dizer que podes fazer banca de investimento e banca comercial ao mesmo tempo, é uma combinação muito poderosa.

Assim, Sandy Weill e a sua equipa podem comercializar em toda a linha para Bernie Ebbers [Director Executivo do WorldCom]. “Não precisas de ir a mais lado nenhum, Bernie”.

É uma estratégia de “balcão único”. É muito poderosa.

Quanto é que isso é responsável pela febre do investimento, e esta sensação de “entrar na equipa”, “entrar no comboio” que se tem no final dos anos 90?

A revogação da Glass-Steagall foi uma importante contribuição para a bolha.

De que forma?

Bem, acrescentou ao frenesim. Acrescentou ao fervor da banca de investimento. Acrescentou à quantidade de dinheiro que foi apostado nisto. Essencialmente, tinha um ombro maior a empurrar aquela rocha colina acima. (…)

O golpe mortal da Glass-Steagall é realmente a fusão Citibank-Travelers, que surge em 1998, através de uma excepção concedida pelo Conselho da Reserva Federal. Se olharmos para trás, compreende o que Sandy Weill andava a tramar quando insistia nesta fusão, e que ele estava a mudar todo o panorama da banca?

(…) Não, na altura, penso que as pessoas não ligavam os pontos. Mas, em retrospectiva, a revogação da Glass-Steagall foi um acelerador para a bolha das telecomunicações, porque lembre-se, as empresas de telecomunicações precisam de angariar uma enorme quantidade de capital, tanto através do capital próprio como através da dívida. E estas empresas libertas da Glass-Steagall foram capazes de fornecer qualquer capital que uma empresa de telecomunicações pudesse alguma vez esperar angariar. (…)

 

 Arthur Levitt, Ex-banqueiro de investimentos e presidente da Bolsa de Valores Americana, foi presidente da Securities and Exchange Commission de 1993 a 2001.

A ideia [da Glass-Steagall] era separar diferentes tipos de bancos de modo a não ocorrer o tipo de colapso que sucedeu em 1929?

Sim. … a Glass-Steagall foi aprovada [em 1933] para responder a alguns dos escândalos do início do século, onde investidores individuais foram gravemente prejudicados por bancos que estavam a promover acções que eram de interesse para os bancos, e não para os investidores. Esta era uma divisão muito sensata da banca de investimento e da banca comercial.

O que me preocupa em juntar estes dois interesses é, mais uma vez, o incentivo, a probabilidade, de que os bancos comerciais liguem as suas atividades de empréstimo às suas atividades de investimento. (…)

Estava preocupado com um clima em que vale tudo? “Confie no mercado, e os investidores podem cuidar de si próprios”?

Sim, preocupava-me com o poder assumido pelos bancos comerciais que agora tinham a capacidade de ser um armazém de serviços financeiros que podia satisfazer as necessidades de todos, mas cujo interesse primordial, segundo me pareceu, favoreceria os seus interesses empresariais em oposição aos do investidor individual. (…)

Então preocupava-o que o investidor individual e o depositante e as suas proteções se perdessem no conceito de super-banco?

Sim, estava muito preocupado com isso, porque senti que a cultura da banca e a cultura da banca de investimento eram tão diferentes (…) O fascínio da banca de investimento, e a quantidade de dinheiro que isso significava para os bancos comerciais, era tão maior do que o que quer que recebessem dos depositantes, que a ponderação da sua ênfase favoreceria os negócios comerciais em detrimento do investidor individual. (…)

Estava preocupado com a erosão das normas da banca comercial. (…)

O tipo de escrutínio que um banco comercial faria a um empréstimo tem de sofrer uma erosão. … Um dos incentivos oferecidos a esse banco seria: “Dar-lhe-emos não só o nosso negócio de empréstimos, mas também o nosso negócio de banca de investimento”. (…)

Digamos que um banco comercial subscreve uma empresa. Milhões de ações estão em circulação nas mãos do público, e a fortuna da empresa afunda-se. Normalmente, esse banco comercial colocaria os interesses dos seus depositantes acima de todos os outros nessa altura. (…) Que tipo de julgamento é que eles vão fazer neste ponto, onde têm talvez um milhão de investidores por aí que compraram ações da empresa em que o seu nome está inscrito? Provavelmente darão um passo em frente e emprestarão mais dinheiro e mais dinheiro, e mais dinheiro. Depois temos os acionistas e os depositantes no banco em risco. (…)

Será que esse banco terá o mesmo tipo de restrição, o mesmo tipo de controlos sobre a sua operação de empréstimo, que poderiam ter tido se estivessem livres dessa obrigação bancária de investimento aos milhões de acionistas a quem comercializaram ações? (…) Não se pode deixar esta empresa cair. É a reputação do banco que está em jogo agora. Então é aí que a ligação com a Glass-Steagall se torna muito, muito difícil. (…)

A fusão dos interesses dos bancos de investimento e dos bancos comerciais criou conflitos de interesses que prejudicam claramente o público investidor. Só uma atividade extraordinária por parte dos reguladores bancários e de seguros pode começar a enfrentar [a] questão.

 

 Alan Blinder, Professor de economia em Princeton, antigo vice-presidente do Conselho da Reserva Federal, e antigo membro do Conselho de Conselheiros Económicos sob o Presidente Bill Clinton.

E quanto [ao argumento de que] quanto maior a instituição, maior a propagação, maior o potencial conflito de interesses? (…) Tinha em mente alguma dessas questões [quando esteve no Conselho da Reserva Federal em meados da década de 1990]? Preocupação com conflitos de interesses num super banco?

Não penso que seja demasiado, porque tinha havido uma quantidade razoável daquilo a que algumas pessoas chamariam “história revisionista” – mas eu poderia chamar “história” – do que se passou na década de 1930 … o caldeirão que deu origem à Glass-Steagall. Penso que uma leitura justa disso teria sido de que houve muitos, muitos desmandos, muitas coisas aconteceram que nunca deveriam ter sido permitidas – muita desonestidade – mas muito pouco, quase nada, teve as suas raízes na junção da banca e da subscrição de títulos.

Ou seja, veja o que acabou de acontecer nos últimos anos, com os escândalos na indústria dos valores mobiliários. Isto não teve realmente a ver com a conjugação de bancos e valores mobiliários. Teve a ver com as falcatruas que ocorreram em empresas que não vou citar aqui, com analistas e outros, que nunca deveriam ter acontecido. Mas o facto de alguns deles [escândalos] poderem ter sido associados aos bancos foi praticamente irrelevante. (…)

Está a dizer que nenhum dos abusos que vemos em Wall Street foi produto desta fusão de todos estes diferentes serviços?

Sim, muito perto. É isso mesmo. Houve abusos. Alguns deles precisavam de ser legislados contra; alguns deles precisam de ser penalizados no sistema legal; mas penso que muito pouco, se algum, tem a ver com [a revogação da Glass-Steagall]. (…)

Pode-se argumentar, as pessoas argumentaram no longo debate sobre a Glass-Steagall, que havia uma diferença cultural entre, digamos, o negócio dos valores mobiliários e a banca, e o lado mau disso é que quanto mais a cultura dos valores mobiliários “infectou” a banca, pior seria a banca.

Havia outra forma de gerir o argumento, que era quanto mais a cultura da relação bancária, cito, “infectasse” – ou, devo dizer, “afectasse”? – a cultura dos valores mobiliários, melhor seria a indústria de títulos. Portanto, isto pode ir para os dois lados. (…)

A questão é que não estou nada convencido – seria preciso muito para me convencer disto – não vejo a evidência de que a bolha [do final dos anos 90] tenha sido agravada, para não dizer imensamente agravada, pela união de alguns bancos e algumas empresas de títulos. … O Citi foi, por acaso, combinado com um banco muito grande. Mas muitas das mesmas coisas – tão más ou piores – estavam a acontecer onde não havia tal aglomeração.

Vejam, se quiserem defender que muitas coisas sombrias estavam a acontecer neste período e que foi exercida muito má avaliação, estou convosco a 100 por cento. Mas se quiser defender que foi em grande medida devido ao derrube das barreiras entre seguros, bancos, e títulos, não vejo isso. (…)

 

 Eliot Spitzer, Procurador-Geral de Nova Iorque de 1999 a 2006. Liderou as investigações sobre as práticas de Wall Street que conduziram ao histórico acordo de $1,4 mil milhões anunciado a 28 de Abril de 2003. Eleito governador de Nova Iorque em 2007, demitiu-se em 2008 devido ao suposto envolvimento num escândalo de prostituição. Um autor, F. William Engdahl, sugere que Spitzer foi provavelmente alvo de uma operação da Casa Branca (de Bush filho) e de Wall Street para silenciar um dos críticos mais perigosos e eloquentes da condução pela administração Bush da crise do mercado financeiro (de 2008) (vd aqui).

Uma das alegações feitas por várias pessoas que seguem a indústria bancária é que a simples formação de um super banco como o Citigroup – e colocar seguros, corretagem, banca de investimento e banca comercial sob o mesmo tecto – aumenta inerentemente os conflitos de interesses. (…) A formação de super-bancos aumenta os conflitos de interesses que têm o potencial de prejudicar os investidores?

Absolutamente. Sem dúvida. Não há dúvida de que criámos uma teia de relações que oferece a oportunidade de abuso maciço. E o que descobrimos no ano passado demonstra que houve abuso massivo. A única questão que resta, então, é saber se se cria, e se se pode criar, uma forma de mediação entre estes conflitos para proteger o consumidor. Ou será que tem de separar a estrutura? Penso que temos um enorme debate político que se nos depara.

Está a dizer, por outras palavras, que temos de voltar atrás e reconsiderar se foi ou não inteligente permitir a formação destes superbancos?

Penso que isso é absolutamente algo que temos de reconsiderar. Não creio que o Congresso e o Fed neste momento estejam dispostos a fazer essa pergunta fundamental. Penso que eles estão a tentar criar barreiras de proteção entre estas várias peças para proteger contra os conflitos. Mas a enorme questão que se nos coloca é como proteger os consumidores, e as empresas que são consumidores à sua própria maneira, contra esta teia de conflitos de interesses? (…)

Em concreto, perguntava-me se todos vocês olharam ou não para o facto de o braço Travelers do Citigroup ter concedido uma hipoteca de mil milhões de dólares a Bernie Ebbers [CEO do WorldCom]? (…)

Analisámos algumas dessas questões relacionadas com os CEOs e Bernie Ebbers e a forma como o dinheiro lhe chegou, e de facto instaurámos processos judiciais contra alguns CEOs alegando que estes conflitos eram ilícitos civis. Portanto, sim, estamos profundamente perturbados com isso e é mais uma manifestação do fracasso do banco em operar dentro dos parâmetros empresariais adequados.

Está a referir-se àquela hipoteca de mil milhões de dólares?

Estamos a falar do facto de que estavam a ser feitos empréstimos e, ao mesmo tempo, de que esses CEOs estavam a ser solicitados para a banca de investimento, para o negócio de subscrição de empréstimos. Consideramos isso como intencionalmente – e, em alguns casos, ilegalmente – impróprio. (…)

Então está a dizer que a revogação da Glass-Steagall e a permissão para estes enormes superbancos é uma das causas próximas da corrupção em Wall Street?

Absolutamente. Não há qualquer dúvida sobre isso. No dia em que anunciei o acordo global, a 20 de Dezembro [2002], comecei por dizer que o problema na sua raiz é um modelo de negócio errado, e que o modelo de negócio é o produto de uma decisão reguladora governamental de revogar a Glass-Steagall administrativa e legislativamente, e de procurar esta tremenda concentração de poder, e depois o abuso desse poder por parte das firmas de investimento.

Mas foi esse esforço para criar estes bancos de serviço completo, e esse modelo, que foi a causa próxima de tudo isto.

E vê evidências de que alguém quer quebrar esse modelo?

Vejo provas de que pessoas muito reflexivas o estão a questionar. Não vejo qualquer evidência em Washington de que haja vontade de o fazer.

Vê Sandy Weill a fazê-lo no Citigroup?

Os banqueiros nunca o vão fazer eles próprios. Eles beneficiam com isso. Só quando o Congresso, que tem o poder de aprovar as leis, ou o Fed, que tem o poder, em última análise, de fazer as regras sobre os bancos, ou a SEC, determinar que os conflitos de interesse são tão intratáveis e tão para além da capacidade de mediação das casas de investimento, só quando chegarem a essa conclusão serão forçados a dizer que este modelo não vai funcionar.

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply