Talvez nem todos saibam que, desde 2013, existe um programa humanitário de bolsas para estudantes sírios, ideado pelo Presidente Jorge Sampaio, projecto que, segundo as suas palavras, lhes daria «a possibilidade de reatar a sua formação superior, interrompida por causa da guerra que tem devastado a Síria». Para este efeito, criou-se a Associação para gerir o programa de bolsas de estudo de emergência, a Plataforma Global para Estudantes Sírios, ou APGES, como é mais conhecida. Surge agora uma publicação que junta as vozes dos estudantes sírios às da pequena equipa que tem trabalhado arduamente na coordenação do programa, livro que tem a chancela da Editora Âncora, e que acaba de ser posto à venda, revertendo o produto integralmente para o “programa de bolsas de estudo de emergência” (“Global Platform For Syrian Students”).
A redacção destas histórias deve-se a Helena Barroco, com revisão de Dália Sendra, duas colaboradoras que integram a equipa; e as narrativas são bem ilustradoras da excelência do trabalho e das dificuldades que é sempre necessário vencer: obtenção de vistos, como reunir os estudantes («uns estavam na Síria, outros no Líbano, na Jordânia, na Turquia, no Iraque Curdistão, no Egipto, no Qatar, na Arábia Saudita e até na Argélia») e como integrá-los depois na sociedade portuguesa: «Ficamos sempre duplamente felizes quando, para além de oportunidades de estudo, conseguimos reunir famílias separadas pela guerra, irmãos que se perderam de vista, casais que assim se reencontram de novo» (p. 33).
As histórias dão-nos conta do trabalho intenso e das decisões que é preciso tomar no momento: «eram mails para cá e para lá, perguntas dos estudantes entre o receoso, o incrédulo e o hilariante […] Posso levar o meu gato? Quantos pares de sapatos preciso? Posso levar um pacote com um formato especial? […] Sim, claro, venha o alaúde, e espero que um dia possas tocar para nós, não digo durante o voo porque um C130 é barulhento como uma orquestra virada do avesso a tocar» (p. 31). Mas muitas delas são subscritas pelos próprios estudantes, neste caso identificados com os seus nomes, eventualmente alterados por motivos óbvios. São fragmentos de vidas, como a de Fadi, por exemplo, licenciado em Engenharia em 2001, saído da Síria em 2011, mestre pela Universidade do Cairo em 2013, com problemas de residência no Egipto, e doutoramento já na Universidade de Coimbra. Foi o primeiro aluno sírio da Plataforma a completar o doutoramento em Portugal.
São histórias de sucesso, como a de Omar o do seu MBA na “Porto Business School”; ou a de Tamim, Boshra e Heidi, família que não sabia de Portugal a não ser «que era a terra do Ronaldo», que passou pelo acolhimento de refugiados, que se integrou a ponto de dividir a pátria, embora com a «saudosa Síria bem-amada» no coração.
O livro acaba de ser posto à venda. Está disponível nas livrarias e através do “site” da Editora Âncora. Excepcionalmente, e porque a receita reverte a favor do “programa de bolsas”, indica-se aqui o PVP: 10 Euros.
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