Memórias do holocausto nazi e o papel de Pio XII no processo – “A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic”, por Miguel Riaño

 

Nota do editor:

Com o texto publicado ontem – O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio na Croácia” (ver aqui)- , o texto que publicamos hoje – “A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic” – e o que publicamos amanhã – “A controvérsia sobre Pio XII e o holocausto” – queremos sublinhar a importância da preservação da memória dos factos históricos, não como lembrança estática do passado ou para nos comprazermos com uma controvérsia que é certamente importante, mas antes porque, para além de trazer à luz factos gravíssimos (totalmente) silenciados por muitas das reportagens sobre o holocausto e a Alemanha nazi e o papel da Igreja católica em todo o processo, a memória destes factos é essencial ao nosso olhar e reflexão sobre o presente e às escolhas que fazemos viradas para o futuro.

São textos longos mas que nos parece que devem ser publicados numa única edição dado a importância de uma leitura seguida dos relatos.

O caso do genocídio sob o regime da Croácia fascista entre 1941 e 1945 não é caso único de entre outras perseguições por motivos religiosos, culturais ou de raça [1]. Mas merece a nossa atenção pelo silêncio que tem rodeado o autêntico holocausto aí ocorrido no período do nazi-fascismo.

O texto que publicamos hoje – “A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic” – debruça-se sobre o papel e atrocidades cometidas por Ante Pavelic, líder da Croácia fascista independente, a sua morte e sepultura em Espanha e de outros comparsas que igualmente terminaram os seus dias, descansadamente ou não, em Espanha. Este texto de hoje é, tal como o de ontem. um texto duro, mesmo violento, mas assim foram os factos que nele se descrevem.

 O terceiro texto – “A controvérsia sobre Pio XII e o holocausto” –, a publicar amanhã, ajuda-nos a contextualizar as divergências em torno da figura de Pio XII e o seu comportamento durante a Segunda Guerra Mundial, texto este que finaliza destacando a falta de firmeza do Papa na condenação do nazismo e o facto de cada abertura de novos arquivos da época lançarem “sombras cada vez mais densas não só sobre a atitude mas também sobre a ideologia do Papa Pacelli“. 

 

Nota

[1] Desde logo, e sem pretender ser exaustivo, a matança de S. Bartolomeu em França em 1572 (estima-se que 10.000 a 20.000 mortos), as guerras na Europa entre protestantes e católicos, perseguição aos cátaros em França nos séculos 12 e 13, a inquisição, com particular incidência nos judeus ou cristãos-novos, a grande fome na Ucrânia em 1932-33 (3 a 7 milhões de mortos), até aos recentes genocídios na Arménia (entre um milhão e um milhão e meio de perseguidos e assassinados pelo governo otomano entre 1915 e 1923), no Camboja (assassinato de pelo menos 2 milhões de pessoas pelo regime khmer entre 1975 e 1979), a revolução cultural na China de 1966 a 1976 (estimativas variam entre 1 milhão e mais de 20 milhões de mortos), o assédio de Israel à Palestina desde 1948 (estima-se em pelo menos várias dezenas de milhar de mortos palestinianos, incluindo massacres a campos de refugiados como Sabra e Shatila).

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A esquecida e consentida sepultura em Madrid do genocida fascista Ante Pavelic

 Por Miguel Riaño

Publicado por  em 28/12/2018 (ver aqui)

 

Nos anos de 1990, durante a guerra de independência da Croácia, destacamentos completos de milícias ustachas iam e vinhm dos campos de batalha cantando uma canção ligeira: “U Madridu u Madridu grobnica od zlata, tu pociva voda svih Hrvata”. O estribilho fala do “líder de todos os croatas”, que descansa “em Madrid numa sepultura de ouro”. Referem-se a Ante Pavelic, o ditador fascista ungido como líder da Croácia independente como títere de Hitler e Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial. Um sanguinário genocida, cujos crimes de guerra contra sérvios, judeus, ciganos e opositores rivalizam ou superam em crueldade os crimes dos próprios nazis.

Pavelic fugiu da Croácia após a derrota do Eixo e acabou refugiado na Argentina sob o amparo de Perón. Após mais de uma década de relativa tranquilidade começou a suspeitar da infiltração na sua vizinhança dos serviços secretos jugoslavos e voou então para Madrid onde passou os últimos anos acolhido por Franco. Morreu em 28 de Dezembro de 1959 no Hospital Alemão e os seus restos foram enterrados no cemitério sacramental de San Isidro, na capital. Aí permanecem, alheios ao ruído das exumações, embora no calor dos ultra-nacionalistas que guardam o seu túmulo como local de peregrinação. Há 20 anos foi célebre a foto do então dianteiro do Real Madrid, Davor Suker, posando sorridente junto à sepultura.

 

Mas a canção mente. A sepultura não é de ouro. De facto, pode ser a mais humilde de todo o pátio sacramental, uma acumulação barroca de filigranas arquitectónicas utilizadas como panteões. O túmulo do genocida croata está encolhido, atrás de uma lápide ilegível mas preciosa que parece ser a de um músico, e à sombra do enorme panteão familiar dos Condes de Valmaseda. À esquerda do túmulo de Pavelic há outro conjunto de lápides, cinzentas, modestas e quase enterradas pelo musgo, pertencentes à família de Cánovas del Castillo, que foi aqui enterrado antes do traslado do seu caixão para o Panteão dos Homens Ilustres.

O local encontra-se em silêncio, num enclave privilegiado de Madrid, com uma vista perfeita sobre o rio Manzanares e o centro da capital de Espanha. Os poucos visitantes concentram-se nos nichos que rodeiam o pátio, que na realidade é um museu valioso mas esquecido, ao qual quase ninguém vai. Aqui estão enterrados Moratín, Mesonero Romanos, José Echegaray, Emilio Castelar… mas nos túmulos não há grinaldas, flores ou ornamentos a não ser pedra esculpida. Excepto para no de Pavelic, que está sempre cheio. Na quinta-feira passada, quando este jornal o visitou, tinha três ramos de flores, velas, T-shirts e vários autocolantes com a bandeira croata e o brasão de armas da Croácia.

  A sepultura de Ante Paveli no cemitério de San Isidro em Madrid. G.M. Piantadosi

A Câmara Municipal afirma que a questão do túmulo do ditador dos Balcãs nunca foi discutida na comissão de memória histórica, e que em qualquer caso não corresponderia ao consistório tratar da exumação. O governo, questionado sobre a situação, também não oferece qualquer resposta.

 

Jasenovac, o horror esbatido

A tranquilidade do local onde repousa o genocida faz lembrar sinistramente o que se respira em Jasenovac, longe de Madrid, na fronteira entre a Croácia e a Bósnia-Herzegovina, exatamente onde os rios Sava e Una se encontram. O mesmo frio, o mesmo nevoeiro e silêncio semelhante. Só que em Jasenovac, um Auschwitz quase enterrado na memória coletiva do horror europeu, Pavelic selvagem e sadicamente pôs fim à vida de pelo menos 100.000 pessoas, o suficiente para encher algumas vezes o cemitério de San Isidro onde agora descansa, agasalhado e em paz.

Hoje, a memória do horror do campo de extermínio limita-se a uma escultura em forma de pétalas abertas para o céu, erguida no fim de um passadiço de madeira que serpenteia entre lagos plácidos e prados verdes. O local parece um campo de golfe, completamente desprovido do grotesco fardo que carrega. No passado houve centros de exposição que mostravam a violência em todo o seu esplendor: as ferramentas utilizadas para os massacres, a faca especialmente concebida para cortar a garganta aos sérvios, as fotografias das valas comuns, dos cadáveres amontoados e em decomposição dos resistentes que entravam no campo de extermínio. O governo nacionalista de Tudjman, após tornar-se independente da Jugoslávia, empreendeu uma política de branqueamento do regime criminoso de Pavelic e substituiu tudo o que era explícito por alegorias difusas que envergonham a maioria da população croata nos dias de hoje.

                    Jasenovac na atualidade. Wikimedia.

 

Em Jasenovac, o mais parecido com a memória do horror está na aldeia, um enclave tranquilo de um par de ruas que misturam casas de tijolo com outras que ainda guardam como tesouros nas suas fachadas esburacadas os estilhaços da guerra. Nos anos de 1990, esta área, que estava imersa no coração da Krajina sérvia, foi palco de ferozes batalhas e foi praticamente abandonada.

 

Nesta região da Europa, as atrocidades sobrepõem-se umas às outras e de tempos a tempos vem a história para as resgatar. Na década de 1940, foi escrito que em Jasenovac “o crime mais feroz da história” estava a ser cometido, um crime que “só podia ser comparado ao Inferno de Dante”. O testemunho tem valor porque não é propaganda inimiga: foi dito por Hermann Neubacher, o comissário de Adolf Hitler na península balcânica.

Mile Budak, um dos homens fortes de Pavelic, já tinha deixado claros os princípios do governo da Croácia recentemente independente, na realidade um fantoche da Alemanha e Itália, onde o ditador tinha passado a sua vida sob a protecção de Mussolini e a treinar as suas milícias. Budak, titular do Ministério da Educação e Cultura, resumiu as principais linhas do seu projeto para sérvios, judeus, ciganos e qualquer croata que se afastasse das doutrinas de ferro do movimento Ustacha: “Para todos eles, temos três milhões de balas”.

 

A matança de 29 de Agosto

Tal como a canção do túmulo dourado, Budak também estava a mentir. As balas não eram o método de extermínio preferido dos Ustachas. Nem eram as câmaras de gás, embora também as utilizassem. O instrumento preferido dos guardas croatas que guardavam Jasenovac – e outros campos por todo o país – era um pequeno instrumento agrícola constituído por uma lâmina de faca presa a uma luva, para que o empunhador pudesse usar a lâmina como uma garra. Renomearam-na srbosjek (corta-sérvios) e fizeram dela a sua arma mais letal.

A faca srbosjek (corta-sérvios) utilizada pelos croatas ustachas nos campos de extermínio

 

A brutalidade da invenção levou a orgias de sangue como a de 29 de Agosto de 1942, quando quatro guardas – Mile Friganovic, Sipka, Ante Zrinusic e Petar Brzica – decidiram competir para ver quem poderia matar o maior número de sérvios numa única noite. Este foi o relato de Friganovic, anos mais tarde: “Nunca tinha sentido nada assim na minha vida, após algumas horas tinha conseguido matar 1.100 pessoas enquanto os outros conseguiam matar entre 300 e 400 cada um. E então, quando estava a experimentar o meu maior êxtase, reparei num velho camponês ali parado a olhar calmamente para mim enquanto matava as minhas vítimas e para elas enquanto morriam de dor. Esse olhar chocou-me e de repente congelei e durante algum tempo não consegui mexer-me“.

“Empurrei-o para o lado e fi-lo sentar-se comigo num tronco. Ordenei-lhe que gritasse: ‘Viva o caudilho Pavelic’, ou eu cortava-lhe a orelha. Vukasin não falou. Arranquei-lhe uma das orelhas. Ele não disse uma palavra. Disse-lhe novamente para gritar “Viva Pavelic!” ou arrancava-lhe a outra orelha. Arranquei-lhe a outra orelha. Quando lhe ordenei pela quarta vez que gritasse ‘Viva Pavelic!’ e ameaçei cortar-lhe o coração com a minha faca, ele olhou para mim e na sua dor e agonia disse: ‘Faz o teu trabalho, criatura!’ Essas palavras confundiram-me, congelaram-me e eu arranquei-lhe os olhos, arranquei-lhe o coração, cortei-lhe a garganta de orelha a orelha e atirei-o para o poço. Mas algo se rompeu dentro de mim e eu não consegui matar mais aquela noite inteira. O Franciscano Pero Brzica ganhou a aposta porque tinha morto 1.360 prisioneiros e eu paguei sem dizer uma palavra”.

 

Quer os números fossem exagerados ou não, tais episódios de vómito eram comuns. Era prática comum empalar bebés e crianças com punhais à frente das suas mães. E ao contrário dos nazis, os Ustachas não tinham qualquer interesse em esconder os seus crimes: posavam para fotografias segurando as cabeças cortadas dos guerrilheiros sérvios, e por alguma razão gostavam de manter os olhos humanos em cestos. Fontes modernas colocam o número de exterminados em Jasenovac, que funcionou entre 1941 e 1945, em pelo menos 100.000. Na sua maioria sérvios, ciganos e também mais de 10.000 judeus, embora a partir de 1942 estes tenham sido enviados para campos alemães. Outras fontes falam de até 700.000 pessoas.

 

“Maks, o carniceiro”, enterrado em Valência

A efémera Croácia independente tinha durado exatamente isso, quatro anos. Chegou com Pavelic e com Pavelic se foi, embora o chefe (Pavelic) tivesse de facto sido um traidor que tinha desapontado até os mais leais. Em troca do apoio da Itália, Alemanha e também da Hungria, tinha entregue regiões inteiras como a costa da Dalmácia e o nordeste do país, cheias de croatas que ficaram órfãos de pátria. Durante este período, generalizou-se o uso da bandeira axadrezada, agora normalizada, mas cujo simbolismo assustou e excitou em igual medida os sérvios durante as [recentes] trágicas guerras dos Balcãs.

Dos responsáveis por esse horror, mantidos na gaveta da história negra europeia, praticamente ninguém pagou pelo que fez. Pavelic descansa pacificamente em Madrid desde 1959, com a sua esposa Maria (que morreu em 1984) e os seus filhos Velimir (1998) e Visnja (2015). O seu número dois, Dido Kvaternik, morreu em Rio Cuarto, Argentina, em 1962. Andrija Artukovic, outro agente responsável pelo sistema de extermínio croata, morreu em Zagreb em 1988, dois anos após ter sido extraditado da Califórnia, onde tinha passado décadas.

Mas o caso mais doloroso foi o de Vjekoslav Luburic, chefe do campo de Jasenovac e o principal animador do sadismo dos seus guardas. Depois de escapar da Croácia no final da Segunda Guerra Mundial, Maks, o carniceiro, acabou em Benigànim, uma pequena aldeia da Comunidade Valenciana onde viveu durante muito tempo sob a identidade de Vicente Pérez García, Don Viçent. Criou uma tipografia da qual distribuiu propaganda ultra-nacionalista e acabou por ser assassinado a 20 de Abril de 1969 por Ilija Stanic, um agente dos serviços secretos jugoslavos que conseguiu escapar de Espanha e foi recebido como herói em Belgrado. Os restos mortais de Luburic descansam hoje no pequeno cemitério de Carcagente, onde o Grupo para a Recuperação da Memória Histórica de Valência luta para pôr fim a esta “aberração”, ainda mais esquecida do que a do seu chefe.

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O autor: Miguel Riaño é redator chefe em El Independiente, onde trabalha desde Agosto de 2016. Foi jornalista autónomo em 2014-2016, colaborando com vários media (Marca, El Mundo) Foi bolsista no El Mundo em 2013/14. Licenciado em Jornalismo e Comunicação Audiovisual, Informação e Comunicação pela Universidade Rey Juan Carlos.

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