Cuba – Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA: vontade de mudança radical ou explosão momentânea de dieta escassa em comida e farta em pandemia ? Deve Cuba ser defendida? – 2. “Fome e protestos” em Cuba, os dirigentes culpam Washington e a manipulação das redes sociais. Por Roberto Livi

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. “Fome e protestos” em Cuba, os dirigentes culpam Washington e a manipulação das redes sociais

Preocupação após as manifestações de domingo. Para o Presidente Miguel Díaz-Canel, o descontentamento expresso nas ruas é o resultado dos “ataques virtuais e reais” a que a ilha foi submetida pela Administração Biden, com a confirmação das políticas de Trump. Mas os atrasos nas reformas são também um fator

 

Por Roberto Livi

Publicado por  em 14/07/2021 (ver aqui)

 

Tensão entre a polícia e os manifestantes em Havana ©Ap

 

 

“A revolução cubana não dará a outra face àqueles que a atacarem em espaços virtuais e reais”, escreveu ontem o Presidente Miguel Díaz Canel através do Twitter. A situação na ilha após os protestos populares de domingo foi examinada numa reunião da Mesa Política do Partido Comunista, na qual também participou Raúl Castro, apesar de o ex-presidente de 90 anos se ter reformado após o recente 7º Congresso do partido.

SÃO EVIDENTES SIGNIFICADOS da forte preocupação dentro da cimeira política cubana sobre “uma agenda intervencionista” que tem origem nos Estados Unidos e é amplificada por uma “campanha mediática” em rede que tem os seus apoios em Espanha e na Argentina.

“Não há guerra entre o povo cubano”, reiterou o presidente. Em vez disso, há uma campanha para “manipular o povo”, tanto sobre a grave escassez de alimentos e medicamentos como sobre a intensificação da pandemia.

Cuba não teve um período tão sombrio como agora durante muitos anos. Há 32.000 casos ativos de Covid-19 e 1.500 vítimas. Em Junho passado e nas primeiras semanas deste mês registaram-se mais casos de infeção e mortes do que em todo o ano passado. Pouco mais de 15% da população completaram os seus ciclos de vacinação com os dois soros cubanos, Abdala e Soberana. A primeira foi autorizada para utilização de emergência como vacina e está em curso uma campanha nacional massiva  para a sua utilização.

A escassez de alimentos e de medicamentos é generalizada. Os preços excessivamente elevados dos bens de primeira necessidade e as longas e esgotantes filas de espera diárias para sobreviver, geraram sem dúvida um descontentamento popular que tem vindo a crescer.

Díaz-Canel e a liderança política cubana apontam a administração Biden como o principal culpado nesta situação dramática, uma vez que continua a política de estrangulamento económico, financeiro e comercial de Donald Trump. Nos últimos meses, tanto em Cuba como nos EUA, esperava-se que o novo presidente mantivesse as suas promessas eleitorais de retomar a política de relativo apaziguamento do ex-presidente democrata Obama com Havana.

Não tem sido este o caso. As 243 medidas presidenciais adotadas por Trump, que Biden poderia ter removido com um só traço de caneta, permanecem. E atingem duramente a ilha, entre outras coisas ao limitarem drasticamente as remessas e as relações familiares entre cubano-americanos e familiares na ilha. O Presidente Biden elogiou a “coragem dos cubanos que protestaram pacificamente para exigir os seus direitos”. Exatamente como Trump o tem feito na Florida.

O presidente da comissão de negócios estrangeiros da Câmara Baixa dos EUA, Gregory Meeks, apelou a Biden para levantar as sanções de Trump se realmente quer que se  acredite no que diz a  sua administração quanto a “querer ajudar o povo cubano”. A proibição do embargo foi também pedida ontem pelo governo chinês, bem como pelos presidentes do México e da Argentina. Se estas vozes, como é provável, não forem ouvidas, existe uma suspeita crescente de que, por razões de política interna, o Presidente Biden tem a intenção de prosseguir a política de desestabilização do governo socialista cubano do seu antecessor e também de uma possível intervenção direta, disfarçada de necessidade de “ajuda humanitária”.

“Fome, desespero, protestos” foram, segundo o então Secretário de Estado Adjunto, Lester D. Mallory, os objectivos do embargo unilateral dos EUA contra Cuba decretado em 1960.

Contudo, colocar TODA a responsabilidade pela crise social em curso na ilha sobre a política intervencionista dos EUA e a campanha dos meios de comunicação social corre o risco de ser um perigoso erro político. Para além de fatores externos, a crise em curso na ilha tem também causas estruturais internas, erros nas políticas económicas, reformas decididas há dez anos e em grande parte inacabadas, um Estado socialista de direito que ainda não emergiu das páginas da nova Constituição. Estas causas foram reconhecidas pelo governo, que nos últimos meses delineou meticulosamente estratégias para as ultrapassar. Mas a autocrítica e os planos devem conduzir a resultados, que estão a demorar muito tempo a chegar.

Os planos de desestabilização denunciados por Díaz-Canel fazem parte destas contradições. As manifestações de domingo não foram todas pacíficas e espontâneas, mas não podem ser reduzidas a atos de “manipulação por redes sociais” ou de “confusão em massa”. As razões de milhares de pessoas que saíram às ruas da ilha para exigir mudanças e para as implementar no pleno respeito pela soberania nacional merecem e devem ser ouvidas. A par de medidas para defender a Revolução, o governo cubano “deve procurar uma solução política para a crise e iniciar um processo de diálogo social que muitos têm exigido”, diz a liderança da Joven Cuba, um blogue de analistas socialistas.

ESTA É A RESPONSABILIDADE da liderança política agora composta por líderes nascidos após a revolução de 1959. Desta forma, pode responder a uma campanha mediática que difunde vídeos de violência, que fala de mortes e de tortura e que utiliza imagens falsas. Ou aos apelos para “ouvir o descontentamento popular e libertar os manifestantes detidos por razões políticas” feitos pelo chefe da política externa da UE, Josep Borrell.

A situação na ilha permanece tensa. Sem Internet, a comunicação é difícil.

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O autor: Roberto Livi, jornalista aposentado, correspondente de Il Manifesto em Havana.

 

 

 

 

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