Cuba – Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA: vontade de mudança radical ou explosão momentânea de dieta escassa em comida e farta em pandemia ? Deve Cuba ser defendida? – 4. Frei Betto: “A crise existe, mas há que defender Cuba”. Por Claudia Fanti

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4. Frei Betto: “A crise existe, mas há que defender Cuba”

Entrevista. Fala o escritor e teólogo da libertação Frei Betto: «Conheço a vida quotidiana de Cuba, as dificuldades que a população enfrenta, as críticas dos intelectuais e dos artistas»

 

 Por Claudia Fanti

Publicado por em 20/07/2021 (ver aqui)

 

                              Frei Betto

Poucas pessoas conhecem Cuba melhor do que o escritor brasileiro e teólogo da libertação Frei Betto. Durante quarenta anos, como recorda no seu recente artigo sobre os protestos da ilha, intitulado “Cuba resiste”, tem viajado para o país para vários “compromissos e convites de trabalho”. “Conheço em pormenor”, continua, “a vida quotidiana cubana, incluindo as dificuldades enfrentadas pela população, os desafios colocados à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas. Visitei prisões, falei com opositores, convivi com padres e leigos cubanos que se opõem ao socialismo”.

No entanto, para o frade dominicano, Cuba continua a ser uma fonte de inspiração para todos aqueles que “lutam por um mundo mais justo”. Porque é verdade, escreve ele, que aqueles que são ricos e vão viver para Cuba “conhecerão o inferno”, uma vez que não podem pagar todos os luxos a que estão habituados nem “explorar o trabalho dos outros”, e aqueles que pertencem à classe média “viverão no purgatório”. Mas para aqueles que são pobres, sem abrigo e sem terra, será como ir “para o céu”: alimentação, habitação, trabalho, educação e cuidados de saúde. E é por isso, diz-nos ele, que Cuba merece a solidariedade dos ativistas de todo o mundo.

 

Surpreenderam-te os protestos contra o governo?

Frei Betto – Cuba enfrenta atualmente uma situação extremamente difícil. Para além do embargo criminoso e genocida imposto pela Casa Branca, agravado pelas 243 novas medidas restritivas adotadas por Trump e ainda não anuladas por Biden, há um declínio da atividade económica causado pela pandemia, especialmente com o colapso do turismo, que era uma das principais fontes de rendimento do país. Por conseguinte, considero normal a insatisfação de uma parte da população, principalmente devido à escassez de certos produtos da dieta cubana. Não foi por acaso que o Presidente Diaz-Canel foi às ruas para falar com os manifestantes, reconhecendo que as suas reivindicações são justas. No entanto, repudiou aqueles que, sob o impulso da contra-revolução instalada em Miami, pretendem desestabilizar o país, temendo que Biden adote a mesma política de abrandamento do embargo seguida por Obama, que tinha reiniciado as relações diplomáticas entre os dois países e encorajado um aumento do turismo e do comércio.

 

Não parece, contudo, que Biden tenha essa intenção neste momento. A obstinação dos EUA contra Cuba continua …

Frei Betto – Os Estados Unidos tentaram sempre sabotar a Revolução cubana, tanto através do embargo, que nos últimos sessenta anos causou ao país uma perda de 144 mil milhões de dólares (5 mil milhões dos quais durante a pandemia), como através da invasão falhada da Baía dos Porcos e subsequentes ataques terroristas dentro e fora da ilha. O governo já provou a existência de agitadores profissionais financiados pelos contra-revolucionários de Miami. Felizmente, porém, apesar das dificuldades, a maioria da população permanece firme na sua defesa do socialismo e da soberania de Cuba.

 

Como avalia a atual situação económica na ilha?

Frei Betto – Cuba tinha duas moedas: o Cuc, o peso cubano convertível equivalente ao dólar, que era utilizado pelos turistas, e o peso (Cup), utilizado pela população. 1 Cuc valia 24 pesos. Agora, com a unificação das duas moedas, verifica-se um aumento da inflação, como aconteceu na Europa quando todas as suas moedas foram unificadas em torno do euro. E isto, agravado com a pandemia, e considerando que Cuba importa mais de 60% dos alimentos que consome, cria muitas dificuldades, especialmente face aos obstáculos que o embargo impõe às importações e exportações da ilha. Finalmente, existe uma crise energética que afeta a produção, as escolas e toda a população cubana.

 

Acha que a resposta do governo aos protestos poderia ter sido diferente? Não terá o facto de ter havido uma morte e muitas detenções prejudicado a imagem do governo?

Frei Betto – Não conheço as circunstâncias desta morte, mas sei que a polícia agiu com respeito para com os manifestantes, prendendo apenas aqueles que tinham promovido actos de vandalismo, por exemplo, partindo montras de lojas e danificando monumentos públicos. Nada remotamente comparável à repressão verificada nas chamadas democracias da América Latina, como no Brasil e em muitos outros países.

 

E o que responde àqueles que acusam Cuba de falta de democracia?

Frei Betto – A rotatividade eleitoral não faz por si só uma democracia. O Brasil e a Índia são considerados países democráticos, mas são um modelo de miséria, exclusão e opressão. A Revolução, pelo contrário, assegura os três direitos fundamentais do ser humano: alimentação, educação e cuidados de saúde, assim como habitação e trabalho. Cuba, além disso, é o único país latino-americano que conseguiu, graças ao seu progresso científico, criar duas vacinas contra Covid: Soberana 2 e Abdala, um nome retirado de um livro de José Martí em que o jovem Abdala vai para a guerra para defender a sua pátria. A vacina Abdala tem uma eficácia de 92,28% em três doses. Em Agosto, 70% dos 11 milhões de habitantes da ilha estarão vacinados. Os Estados Unidos têm 1.724 mortes por milhão de habitantes em comparação com apenas 47 em Cuba.

 

Escreveu que a resiliência do povo cubano, alimentada por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, provou ser invencível. Será a Revolução de novo bem sucedida desta vez?

Frei Betto – Viver num país socialista é como viver nessas micro sociedades socialistas constituídas por conventos e mosteiros, onde eu vivo. É preciso pensar, antes de mais nada, na comunidade. Isso não é fácil. Portanto, é normal que haja quem coloque os seus interesses individuais acima dos da comunidade, gravitando em direção à órbita do sonho americano. E é aqui que, no caso de Cuba, entra a contra-revolução financiada pelos Estados Unidos, cujas empresas e milionários nunca conseguiram ultrapassar o facto de terem perdido os seus bens com o sucesso da Revolução. Todos aqueles que lutam por um mundo mais justo devem expressar solidariedade para com o povo cubano.

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A autora: Claudia Fanti, jornalista italiana, escreve há mais de 20 anos para o semanário Adista e colabora com o Il Manifesto e outras publicações. Especialista em movimentos eclesiais e sociais latino-americanos e em ecoteologia, é co-fundadora da Associação Amig@s, Movimento Senza Terra Italia e co-editora da edição italiana dos Textos da Agenda Latino-Americana. As suas publicações incluem: El Salvador. Il vangelo secondo gli insorti, Sankara, 2007 e La lunga marcia dei senza terra. Dal Brasile al mondo (com M. Correggia e S. Romagnoli), Emi, 2014. Ele editou os volumes L’alba dell’avvenire. Socialismo do século XXI e modelos de civilização da Venezuela e da América Latina (com M. Correggia), Punto Rosso, 2007; Oltre le religioni. Una nuova epoca per la spiritualità umana (com F. Sudati), Gabrielli Editori, 2016; Il cosmo come rivelazione (com J. M. Vigil), Gabrielli Editori, 2017; Una spiritualità oltre il mito (com J. M. Vigil), Gabrielli Editori, 2019.

 

 

 

 

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