Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (5), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (5)

Quinto dia no país

por António Gomes Marques

Hoi An

Pequeno-almoço tomado, iniciou-se a caminhada até Hoi An — que significa «encontro pacífico»—, a histórica aldeia que é Património da Humanidade, como já disse.

Trata-se de um porto comercial de pequena escala desde o século XV, tendo desempenhado um papel importante na Rota da Seda, entrando em declínio no século XIX, sendo um ponto de encontro de várias culturas, vietnamita, chinesa, japonesa e culturas ocidentais, nomeadamente portuguesa e francesa. Trata-se de uma Cidade Antiga muito bem preservada, onde a sua arquitectura é também um testemunho da combinação de várias culturas, pois ali podemos ver casas vietnamitas, lojas residenciais e templos chineses, não faltando o constante testemunho de ter sido o Vietname uma colónia francesa, aqui bem presente nos bem coloridos edifícios coloniais franceses, destacando eu nessa combinação de culturas a ponte coberta japonesa de Chùa Câu com mais de 400 anos, de madeira, de uma notável beleza, a que se acrescenta um pagode.

Ponte coberta japonesa (Célia junto à bandeira, Francis Dussel no canto inferior direito). Fot. AGM

Desempenhou Hoi An um papel de crucial importância na Rota da Seda, tendo comercializado, nesse desempenho, com países do Sudeste e do Leste asiático, mas também com o resto do Mundo, nomeadamente com a Europa.

O início da produção de seda pelos chineses perde-se no tempo, tão remoto foi esse início, acabando por chegar o momento em que os ocidentais tomaram conhecimento da sua existência e se mostraram dispostos a pagar um bom preço por esse produto, originando-se assim a chamada Rota da Seda que marcou o início das trocas comerciais entre o ocidente e o oriente, sendo Hoi An um dos portos importantes dessa Rota da Seda, proporcionando grandes proventos. Atente-se numa transcrição que farei mais à frente.

O fruto desse comércio ainda hoje pode verificar-se se atentarmos nos seus mais de 1.100 edifícios muito bem conservados, com estruturas diferenciadas, com tijolos ou paredes de madeira, componentes de madeira com motivos esculpidos tradicionais, pagodes, edifícios religiosos, edifícios comerciais. O traçado das ruas é ainda o original, dizem-me, mantendo Hoi An as suas características comerciais e, inclusive, a sua diversidade populacional com um pacífico relacionamento entre os vietnamitas naturais da cidade e outros habitantes não vietnamitas mas alguns já ali nascidos, o que faz com que Hoi An continue a mostrar uma fusão de culturas e a ser ainda um importante porto asiático tradicional.

Houve oportunidade de visitar uma casa antiga, a Tan Ky, um verdadeiro símbolo da velha cidade de Hoi An, situada mesmo no centro da velha cidade. Trata-se de uma casa do século XVIII, onde podemos ver verdadeiras obras de arte chinesas, japonesas, móveis de madeira únicos, informando-nos o guia de que a casa possui a única xícara de Confúcio existente no Vietname. Verdade ou mentira? Não importa!

Um aspecto do interior da casa Tan Ky (fotografia AGM, retirada do filme)

Antes da programada visita a esta casa antiga, foi possível visitar uma fábrica de seda, e chamo-lhe fábrica por ter verificado que de artesanal nada tem, tal é o profissionalismo dos seus trabalhadores.

Lá vi os bichos-da-seda no seu labor e a comer as folhas de amoreira, os teares em pleno funcionamento, os vários quadros com motivos os mais variados bordados na seda, a exposição de vários produtos elaborados com seda e, até, um espaço onde os visitantes podem tirar as medidas para adquirir uma peça de vestuário à sua escolha, com preços que nada têm a ver com os praticados nas luxuosas lojas ocidentais e que não superam a qualidade dos que em Hoi An podem adquirir-se. A Célia tirou medidas para uma blusa, que lhe foi entregue nesse mesmo dia no hotel, às 20h00 locais, não tendo sido necessário fazer qualquer alteração, pois assentou que nem uma luva, como é uso dizer-se.

Fotografia de Célia Marques, com o autor em primeiro plano

As casas estão ao longo das ruas lado a lado, em ruas estreitas, umas paralelas ao rio e outras verticais, quase todas com um estabelecimento comercial ao nível da rua.

Fazendo parte da Rota da Seda, não será de estranhar a presença das culturas chinesa e japonesa, curiosamente separadas pelo rio Thu Bom, o que parece evidente ao visitante, o que não implica que algumas casas mostrem uma mistura das duas culturas, como é o caso da casa antiga Tan Ky, que acima referi. Se são bem visíveis as culturas chinesa e japonesa, também a cultura europeia não deixa de o ser, a qual se tornou presente mais tarde.

Fotografia AGM

«A cidade antiga de Hoi An foi classificada como Patrimônio Cultural Nacional em 1985 e, posteriormente, como Sítio do Patrimônio Cultural Nacional Especial de acordo com a Lei do Patrimônio Cultural de 2001, emendada em 2009. A cidade inteira é propriedade do Estado e está efetivamente protegida por uma série de entidades nacionais relevantes leis e decisões governamentais, tais como: a Lei do Patrimônio Cultural (2001, alterada em 2009) e a Lei do Turismo (2005). O Estatuto da Cidade de Hoi An de 1997 define em regulamentos que são implementados pelo Centro de Gestão e Preservação de Monumentos de Hoi An, o órgão responsável pelo Comitê do Povo para a gestão da propriedade. A gestão do dia-a-dia envolve a colaboração com várias partes interessadas, para manter a autenticidade e integridade da propriedade e para monitorar as atividades socioeconômicas dentro e adjacentes à propriedade. A capacidade da equipe profissional foi e continua a ser desenvolvida por muitos cursos de treinamento nacionais e internacionais. A receita com ingressos é aplicada diretamente na gestão, preservação e promoção do imóvel. A gestão e a preservação são ainda mais fortalecidas por meio de planejamento mestre e planos de ação em nível local. Existem também programas regulares de restauração e conservação.» (1)

Agora, volta a falar-se de uma nova Rota da Seda, sendo a China um dos países mais interessados na sua implantação, o que não será por acaso. Os chineses não esquecem a história, sabendo tirar dela os seus ensinamentos, e lembrar-se-ão da primitiva Rota da Seda que passava por Hoi An. «É uma cidade muito charmosa, que fazia parte da Rota da Seda, nos séculos XVI a XVIII. É considerada, pela UNESCO, patrimônio cultural da humanidade. A cidade é formada por dois bairros: o bairro chinês, com uma administração permanente local. E o bairro japonês que era sazonal. Os dois bairros eram separados pelo rio, mas nem sempre era possível cruzá-lo, devido as cheias. Para uni-los, os japoneses construíram uma ponte coberta (numa das pontas há um cachorro e na outra um macaco). Dizem que a construção começou no ano do cachorro e terminou no ano do macaco (ano de 1600). Dentro da ponte, ainda, há um pequeno altar taoista. Nas ruas há várias lojas de roupas, galerias de arte, restaurantes, alfaiatarias etc. Muitas lanternas coloridas enfeitam a rua. No 14º dia do mês lunar, desligam a eletricidade e toda a cidade fica iluminada pelas lanternas e os moradores colocam no rio, várias velinhas acessas.

O que foi a Rota da Seda?  No passado remoto, os chineses descobriram a produção da seda a partir das fibras brancas do casulos do bicho da seda. Mantinham a fabricação em segredo. Encontraram no ocidente pessoas dispostas a pagar um preço bem alto pelo produto. Daí surgiu o comércio do ocidente com o oriente. Já por volta do século VI a. C., os comerciantes do império Persa, saiam levando marfim africano, ouro, peles de animais, vinhos e animais de montaria, em troca de ervas aromáticas e a seda tão desejada dos chineses. Mas no século XII, os soldados de Gengis Khan tomaram toda a Ásia Central, o norte da China e os territórios Tibetanos. Para passar pela rota era necessário pagar uma taxa para trafegar e fazer comércio. Com isso outras rotas foram criadas. Marco Polo, saiu de de Veneza no séc. XIII e percorreu a Rota da Seda, trazendo vários produtos do oriente para o ocidente. Um deles é o macarrão.» (2)

Claro, também tive de comprar umas camisetes (só para não dizer «t-shirt») vietnamitas, maravilhosas para os dias de calor, dado que o preço era altamente convidativo. Não estou arrependido desta compra, com as camisetes a serem óptimas para os tempos de praia.

Mas não se pode sair de Hoi An —a opinião é minha— sem se visitar um pagode. O escolhido foi o Phuoc Kien, que tem, como provavelmente todos os outros, uma história digna de nota.

Este templo, hoje designado Phuoc Kiem Assembly Hall (e também Fukian Assembly Hall), terá tido um templo precursor budista em colmo, designado Kim Son, construído em 1692 (há quem aponte 1690), por vietnamitas residentes em Hoi An, tendo sido adquirido, já muito danificado, por mercadores Fukian fugidos da China e que nesta cidade se instalaram, no séc. XVII, como consequência da derrota dos seus antepassados derrotados na restauração da dinastia Ming, tornando-se, então, na maior comunidade chinesa em Hoi An.

O templo foi pelos mercadores Fukian recuperado em 1697 e, sessenta anos depois, 1757 (ou 1759?), de novo restaurado por eles, já com tijolos e cobertura de telha, sendo rebatizado como Phuoc Kien Assembly Hall, dedicado a Thien Hau Thanh Mau, deusa dos mercadores que cruzam os mares e que é suposto tê-los protegido aquando da sua fuga.

Junto da porta principal, há dois relevos pendurados e, mais à frente, a maquete de um barco, que é suposto simbolizarem a viagem até ao Vietname.

Maquete de um barco que simboliza a viagem inicial ao Vietname (Fotografia AGM)

No edifício podemos ver muitos símbolos orientais —peixes, dragões, unicórnios, fénix e tartarugas— no salão da Assembleia. «Esses símbolos refletem profundamente a filosofia oriental que valoriza a realização, potência, resistência, conhecimento e nobreza.» (3)

No jardim do Salão da Assembleia de Phuoc Kien (fotografia AGM)

«O salão principal abriga as estátuas de Avalokitesvara sentadas em mediação, Thien Ly Hau Santa Mãe, o Deus de Thien Ly Nhan Thien Hau (visão de mil milhas) e o Deus de Thuong Phong Nhi (audição de mil milhas). No centro do santuário posterior estão as estátuas dos três reis mais famosos da dinastia Ming e dos seis generais da família que morreram na luta pela restauração da dinastia. O altar direito no santuário nos fundos é dedicado aos três goddeses Sanh Thai (4) e 12 parteiras que supostamente ensinam aos recém-nascidos habilidades básicas, como sugar e sorrir. Como resultado, os casais que desejam ter filhos costumam visitar o Phuc Kien Assembly Hall para orar pelos filhos. Por outro lado, os mercadores que desejam riqueza e sorte costumam adorar o Deus da Riqueza cuja estátua está localizada no altar esquerdo.» (5)

Visitada a cidade antiga, havia que planear a tarde livre e, entre alguns componentes do grupo, incluindo eu e a Célia, resolveu-se escolher uma visita às colinas de Ba Na.

Colinas de Ba Na

Chegados ao local, não fomos dirigidos para o já famoso teleférico sem que, primeiro, nos fosse mostrado o jardim no edifício de onde parte o teleférico, considerado o mais moderno do Sudeste Asiático.

Jardim acima referido (fotografia AGM)

Há um primeiro teleférico, o mais longo e mais alto do Mundo, e, depois, um outro bem mais curto, na horizontal e que nos leva à réplica dos edifícios franceses.

Pormenor do longo teleférico (fotografia AGM)

No alto da colina, tem-se, então, a oportunidade de ver a French Village Campanile, a estátua gigante de Buda (27 metros de altura), o jardim de tulipas das mais variadas cores — cuja beleza fica na nossa memória—, e a já célebre ponte conhecida como Golden Bridge (Ponte Dourada).

A réplica dos edifícios franceses está a 1487 metros de altitude. O estilo gótico dos edifícios atraem os nossos olhos, mas também há ali um Museu de Cera e vários restaurantes.

Pormenor de French Village Campanile (fotografia AGM, retirada do filme)

Para além do teleférico e das vistas que ele proporciona enquanto subimos ou descemos, o jardim de tulipas e a Ponte Dourada também dão um grande contributo para o visitante se sentir compensado com a deslocação e dar por bem empregue o respectivo custo. A ponte é única, aquelas mãos gigantes que a seguram fazem-nos admirar a excelência do projecto arquitectónico.

A Ponte Dourada (fotografia AGM)

Quando me encontrei no meio de todos aqueles edifícios que pretendem replicar uma aldeia francesa, senti algo de diferente, ou seja, de repente estava na Europa, mas não deixava de estar no Sudeste Asiático, no Vietname, num país que tinha sido colonizado pela França, mas que, ao mesmo tempo, não rejeitava a cultura francesa, que procurava tirar partido dessa relação que, na verdade, acabou violentamente, mas, agora, havia que construir o futuro em harmonia com o Mundo, particularmente com o país colonizador. Mas a aldeia francesa está bem rodeada da cultura vietnamita, de uma beleza bem vincada e que o jardim de tulipas bem expressa, o chamado Jardim de Amor, que, na verdade, é composto por 9 jardins em diferentes níveis.

Fotografia AGM (retirada do filme)

Há que tirar lições da história, com relações fraternas que, em pé de igualdade, a todos possam aproveitar.

Julgo ser o Vietname um dos países a melhor saber disso tirar partido, não podendo eu, e é apenas um dos exemplos, esquecer-me da distinção que fazem entre os governantes e chefes militares dos EUA, por um lado, e o povo americano por outro, considerando este como um amigo. Não é a opinião de um ou outro vietnamita, mas o sentimento da nação.

A despedida do Buda de Ba Na (fotografia de Célia Marques)

Havia agora que regressar a Da Nang, aonde se chegou já de noite, oportunidade para ver uma cidade moderna, cheia de luz e cor, como qualquer outra cidade turística em qualquer ponto do mundo em que vivemos. É agradável ver, mas não é o que mais me interessa.

Durante esta viagem pelo Vietname, dois portugueses foram referidos, ligados ao futebol, com destaque claro para o Henrique Calisto, treinador da selecção vietnamita, sempre referido com muita simpatia, e, claro, o Ronaldo, mas, curiosamente, a este se referiam os vietnamitas dizendo que ele tinha comprado um luxuoso apartamento em Da Nang, em cuja inauguração esteve presente, mas depois não se lembram de o ter voltado a ver na cidade. Em relação ao Ronaldo, limito-me a referir o que os vietnamitas me disseram, não sabendo eu nem cuidando de saber se é ou não verdade, mas também não é importante. Que o excelente atleta Ronaldo seja feliz, são os meus votos.

Amanhã, após o pequeno-almoço no hotel, será tempo de partir, em autocarro, para Hué, a antiga cidade imperial do Vietname.

Vou ter uma noite tranquila, com toda a certeza, graças à benção de Buda.

 

 

NOTAS

Vietname – Quinto dia no país
  1. in: https://whc.unesco.org/en/list/948/ (em português do Brasil);
  2. in: http://blogmiaira2.blogspot.com/2014/10/hoi-rota-da-seda-vietna.html;
  3. in: https://architectureofbuddhism.com/books/phuoc-kien-assembly-hall-hoi-vietnam/, que temos estado a seguir para a história do pagode;
  4. in: https://vovworld.vn/en-US/culture/mother-goddess-worship-and-trance-rituals-in-vietnam-90437.vov encontrei a explicação que se segue, que julgo referir-se ao que no texto se expõe:
«A religião “Đạo Mẫu” refere-se à adoração de deusas mães no Vietnã. No início, a adoração das deusas eram representações da natureza, como a deusa da terra, da água e da montanha. Mais tarde, princesas, rainhas e fundadoras de vilas artesanais foram homenageadas e adoradas pelo povo local como deusas-mães. A imagem da deusa-mãe é muito conhecida na vida espiritual vietnamita. Ela é um deus com poderes misteriosos ou uma mãe de coração tolerante. O ex-diretor do Instituto de Estudos Culturais do Vietnã, Professor Ngô Đức Thịnh disse à VOV: “Acredita-se que as deusas mães criam e controlam o universo, ao mesmo tempo que protegem os humanos e lhes trazem saúde, riqueza e prosperidade. Quanto mais desenvolvida é a sociedade, mais a Deusa Mãe concede saúde, riqueza e fortuna ao povo.
  1. Ver nota 3;

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