Em torno da edição de Mil Folhas pela Biblioteca da FEUC e da importância das Bibliotecas como símbolos contra a corrente da digitalização do Ensino Superior – 4. Reflexões sobre o Fundo Álvaro Ramos Pereira. Por Júlio Marques Mota

 

 

4. Reflexões sobre o Fundo Álvaro Ramos Pereira

 

 Por Júlio Marques Mota

                                    Coimbra, 6 de Abril de 2021

 

Pediram-me um comentário sobre o “Fundo Ramos Pereira” em que a apresentação deve “ser feita por quem conheça o “perfil” desse fundo bibliográfico e a personalidade/trabalho da personagem que lhe dá nome.

Hoje, tenho a sensação que na Universidade, sobretudo depois de Bolonha, se começa a sentir a redução do espaço de criação e de crítica, do espaço que torna possível a circulação de textos acutilantes face ao mainstream da economia. E estas são hoje características tomadas como irrelevantes porque não apelativas face aos ares do tempo. Por tudo isto, a primeira sensação ao ler o texto do convite, enviado por quem muito respeito, foi dizer não. Mas não o posso fazer, não me posso recusar a escrever umas linhas de homenagem a alguém a quem sempre muito respeitei, o dr. Álvaro Ramos Pereira.

No espaço disponível opto por falar de uma personagem singular, tão singular que marca a natureza do fundo, e menos do próprio fundo cuja composição fala por si. Trata-se de um fundo que eu conheço bem, alguns dos seus livros passaram-me pelas mãos enquanto ainda estudante do ISEG e visitante da sua casa. Na minha opinião, trata-se de um espólio riquíssimo de alguém que era de uma enorme e multifacetada cultura, o que é bem espelhado pela apurada seleção de livros por cada área das ciências sociais e não apenas de economia. Na linguagem atual diríamos que se tratava de um polímata, e os polímatas são agora na Universidade um pouco como os cisnes negros do “esquerdista” Nassim Nicholas Taleb, raros e perigosos, para o sistema de ensino dominante e para o sistema financeiro, respetivamente.

Quanto ao espólio de livros tornemos claro e primeiro que tudo, que a sua existência na FEUC se deve ao empenho e à tenacidade do saudoso Romero de Magalhães, por um lado, e à viúva de Ramos Pereira, Dona Lisete e aos seus filhos. Foi o Professor Romero que levantou a questão do interesse para a FEUC de ficar com o espólio de livros do Dr. Álvaro Ramos Pereira e, nesse sentido, pediu-me que contactasse a viúva, o que fiz com prazer. Fui a sua casa, onde jantei, e aí perguntei-lhe com toda a franqueza sobre o que esperava fazer da sua Biblioteca. Revejo ainda hoje a ansiedade bem espelhada na cara da Dona Lisete Pereira e que me pergunta: onde é que acha que os livros devem ficar? Hesitei na resposta e respondi mais ou menos isto: esta biblioteca marca toda uma época, pela qualidade, pela diversidade e pela raridade de muito do seu conteúdo. É uma pena ficar encapsulada em qualquer casa que seja, por mais que a estimem. Ela deve estar onde os que podem precisar dela a tenham ao seu dispor. E um desses lugares, e talvez o que ele mais preferisse, é a Faculdade de Economia. Foi mais ou menos isto a minha resposta. Disseram-nos depois que aceitaram a minha sugestão. Entretanto o filho mais velho selecionou alguns desses livros e ofereceu-mos em mão. Aceitei-os, como amigo, mas sobretudo como professor. [Nesse conjunto de livros que aceitei, uma dúzia deles penso eu, estavam três raridades, Os Princípios de Taussig (em espanhol); Teoria do Comércio Internacional de Gottfried Haberler (em espanhol) e International Trade de Jacob Viner em inglês, tudo obras dos anos 30, quando a economia como ciência era ainda uma criança. Por este exemplo pode-se ter uma ideia do valor do espólio disponível na FEUC que terá mais de 2000 mil livros para que seja necessário falar mais dele].

Em 2012, deixei a Faculdade e desse grupo de livros que me foram pessoalmente oferecidos pela família fiz o que me fizeram a mim: dei parte desses livros à Biblioteca da FEUC, ficando ao cuidado garantido da Dra Ana Serrano e auxiliares, e os restantes foram oferecidos à Margarida Antunes e ao Luís Peres. Estes últimos livros seguiram o mesmo destino que já tinham tido antes: entregues a quem muito podia precisar deles, e este muito diferencia a necessidade de um professor da de um estudante. Desse conjunto fiquei apenas com um livro, que guardo religiosamente: a Fenomenologia do Espírito de Hegel. Um banqueiro central a ler Hegel é coisa que nunca imaginaria na altura, como hoje também não se imagina um professor de economia preocupado com a dialética do senhor e do escravo em Hegel. Uma questão dos tempos.

Do professor Álvaro Ramos Pereira ainda me recordo de algumas das suas aulas lecionadas do curso de economia que eram lecionadas na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e, de entre estas, de uma que me faz recordar os tempos de hoje: a regulação das janelas abertas. Janelas abertas? Era uma metáfora e uma crítica à falta de regulação: esta não funcionava, os reguladores inspecionavam o respeito das reservas obrigatórias num dado banco, saíam e depois de saírem, saía parte do dinheiro disponível que fugia pelas janelas para outro banco e assim se respeitavam as reservas obrigatórias. Hoje, 2021, estamos a assistir ao equivalente de dois momentums trágicos da crise que estalou em 2008, então os momentums Madoff e Lehman Brothers, hoje o banco Greensill e o fundo de investimento familiar Archegos Capital Management e isto significa, tal como outrora, que a regulação não tem funcionado.

Conheci-o enquanto meu professor no ISEG e ficámos amigos a partir daí, uma amizade que durou décadas, até ao fim da sua vida. A existência na FEUC do Fundo Álvaro Ramos Pereira é também um pouco a expressão dessa relação.

Dessa amizade nasceu também uma série de textos que lhe dediquei em 2018, série essa organizada em torno dos trabalhos de Michael Pettis, um dos mais reputados macroeconomistas do nosso tempo. Era um texto de homenagem a Ramos Pereira. Nesse texto, de 18 de Janeiro de 2018, escrevi:

“No caso desta série de textos em presença dedico-a à família Ramos Pereira relembrando um dos professores para mim mais importantes que tive no ISCEF, Álvaro Ramos Pereira, alto quadro do Banco de Portugal e professor de Moeda, e aqui pela simples razão de que vários dos temas tratados na série foram-nos por ele explicados não nas aulas, mas em sua casa, em várias noites, no ano de 71 ou de 72. Vista à luz de agora, tratava‑se de uma situação estranha: um conjunto de estudantes estavam preocupados em saber Teoria Monetária, Balança de Pagamentos e sobretudo gostavam de perceber as ligações entre várias das suas rúbricas entre si, da balança de pagamentos, e com o crescimento da economia real. Uma situação hoje impossível de se verificar, penso eu. Essa situação devia-se, por um lado, às características pessoais e científicas de Álvaro Ramos Pereira e, por outro, ao “espírito” da época, pós-Maio 68. Por aqui passavam também questões ligadas à moeda e à igualdade I=S e a uma outra equivalente a esta mas em economia aberta X‑M=S-I. A estes estudantes respondeu o Professor Álvaro Ramos Pereira convidando-nos para discutir temas como os agora citados. Foi assim que pela parte que me toca, e alguns mais do grupo, fui parar a autores como Bernard Schmidt e o seu livro, Salaires, Monnaie e Profits, a Thomas Balogh, Partenaires inégaux dans l’échange international, a Robert Triffin e as suas análises sobre o sistema monetário internacional. Tudo isto sobre temas que hoje ou não se lecionam ou lecionam-se pela rama, com a rapidez de um gato a passar sobre brasas muito quentes.

Desses tempos recordo ainda o ar sempre bonacheirão de Ramos Pereira, a sua argúcia, a sua cultura quer geral quer no campo da economia e da banca, a sua capacidade de nos motivar, recordo também a sua capacidade em passar da teoria à prática, assim como do percurso inverso. Em tempo de recordações, e este é já o meu tempo, não deixo de me lembrar do sorriso sempre fraterno da sua mulher, a Dª Lisete, ou ainda de cada uma das suas duas filhas quando uma ou outra nos abria a porta e nos levava para o escritório. Os filhos eram mais “malteses”.

E algumas das coisas, não todas, que naquele tempo e naquele escritório da Praceta Paiva Couceiro, nos eram explicadas, mesmo que ditas de forma diferente, conceptualmente não estarão muito longe daquilo que nos falam alguns dos textos de Michael Pettis, hoje, [de quem, em termos de livros, saliento The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy e Trade Wars Are Class Wars: How Rising Inequality Distorts the Global Economy and Threatens International Peace]. Por isso, é com alguma emoção que organizei esta série de textos e é com grande estima que relembro igualmente aqueles “malucos” que iam comigo à Paiva Couceiro, à casa do Professor Ramos Pereira, porque queriam aprofundar o que sabiam de economia.”

 

 

 

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