Ainda sobre Cuba – Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA: vontade de mudança radical ou explosão momentânea de dieta escassa em comida e farta em pandemia ? Deve Cuba ser defendida? – “Em que direção vai Cuba? ” Por Juan Carlos Monedero

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Em que direção vai Cuba?

 

 Por Juan Carlos Monedero

Publicado por  em 23/07/2021 (ver aqui)

 

Milhares de pessoas participam num comício de apoio à revolução em Havana (Cuba) – EFE

 

A esquerda, não deve mentir

Uma das diferenças entre a direita e a esquerda quando se trata de enfrentar os problemas é que a direita (neste momento histórico que se move para a extrema-direita) não tem qualquer compromisso de lutar contra as mentiras. A sua vontade não é com a verdade, mas com o poder. É por isso que não precisa de justificar as suas posições e, portanto, podem dizer uma coisa e o contrário. Eles fazem isto constantemente.

Por esta mesma razão, quando se articula internacionalmente, não o faz com base num programa partilhado – o acesso ao poder faz-se em cada país de uma forma diferente e não existe um “programa da extrema direita” – mas sim com base nessa vontade partilhada de poder: o quadro neoliberal como base; Condor planeia eliminar os adversários; sincronia política contra a Venezuela, Cuba ou Nicarágua – na altura também contra o Brasil, Bolívia, Equador, Argentina… -; sincronia mediática com intelectuais e jornalistas agindo como autênticos aríetes; redes sociais partilhadas através de empresas.

Por outro lado, a esquerda, como ampla família política que procura mudar o status quo, não pode mentir porque perderia o controlo do seu compromisso de mudança. A esquerda precisa de programas, de uma leitura coerente da realidade e de um compromisso claro com a verdade.

 

Se não compreendes o anti-imperialismo, não compreendes nada.

Nós, de esquerda, zangamo-nos frequentemente com Cuba. Como um filho fica zangado com o seu pai ou como um pai com o seu filho; como um fã fica zangado com a sua banda por causa do último álbum ou com o seu cantor favorito por causa de declarações infelizes, como um leitor com o seu escritor favorito ou como um aluno com o professor que o ensinou a ler. Por vezes essa raiva toma a forma de ruptura, como aconteceu com José Saramago. Só se rasga aquilo que faz parte do músculo e está ligado ao osso.

Algo que não é totalmente compreendido na Europa, incluindo a Espanha, é que enquanto a esquerda europeia teve o operariado como ponto de referência, a esquerda latino-americana teve o anti-imperialismo como condição necessária. Os Estados Unidos compreendem isto, mas fingem ser tolos por isso. O anti-imperialismo é normal num continente que foi invadido pelos Estados Unidos quase uma centena de vezes (é curioso que a direita espanhola odeie os árabes por causa de Al Andalus, quando eram povos que viveram sete séculos na Península Ibérica). Sem compreender o anti-imperialismo, Cuba não pode ser compreendida, tal como o peronismo não pode ser compreendido. Não se compreende Sandino e como o Sandinismo resistiu à guerra que os Estados Unidos travaram contra eles com os Contras, e nunca se compreenderá o papel desempenhado por Chávez na Venezuela e na América Latina quando, como potência petrolífera, travou aqueles que construíram o mundo, incluindo o Plano Marshall, dependente do petróleo com as cinco “irmãs”, que foram sempre a verdadeira ONU norte-americana.

Os golpes de estado que as elites latino-americanas lançavam, apoiadas por exércitos aristocráticos ou mercenários, tinham sempre o aval dos EUA. Em repetidas ocasiões, muito mais do que aval, como aconteceu no Chile com Allende. O imperialismo é militar, cultural e económico. É bem conhecida a transferência permanente de rendimentos desde o sul do Rio Grande para o norte, especialmente desde os tempos da dívida externa desde os anos 80.

Alguns dizem que quando se pensa em Cuba há um olhar nostálgico sobre a Guerra Fria, quando havia, dependendo do entendimento ideológico de cada um, bons e maus. É verdade que já não estamos nos tempos do confronto entre a URSS e os Estados Unidos, quando era mais fácil identificar posições. Mas no século XXI o imperialismo ainda funciona, mesmo que a palavra tenha envelhecido. Agora essa conquista de alguns países por outros é mais elegante e não é necessário bombardear o Palácio de Moneda como aconteceu no Chile em 1973, ou ocupar o Vietname ou a Coreia, ou financiar os Contras como fizeram na Nicarágua. Claro que, por vezes, ainda recorrem ao clássico golpe – o penúltimo nas Honduras, o último, talvez, no Haiti – mas a capacidade de pressão no século XXI é judicial, mediática, económica e financeira. Mais limpo mas igualmente letal. Se o capitalismo financeiro dobrou o braço da Grécia de Tsipras, será que não farão o mesmo numa América que consideram como sua propriedade?

 

Cuba era Fidel mas foi sempre mais do que a sua liderança

O compromisso da esquerda mundial é com Cuba, não com o seu regime político. O compromisso com Cuba tem a ver com a sua resistência ao polícia mundial americano, com a sua capacidade de enviar brigadas médicas para todo o mundo, com a sua solidariedade com as lutas pela soberania, com a generosidade de Che Guevara, com a capacidade desta pequena ilha de produzir a sua própria vacina – a Espanha ainda não o conseguiu fazer e é a quarta maior economia do euro -, com a qualidade e humanidade dos seus médicos – em forte contraste com muitos médicos latino-americanos, arrogantes e solícitos apenas para com os ricos -, com a inteligência de Fidel Castro, com a qualificação da sua população, com as suas taxas de educação universitária, com o seu empenho no igualitarismo num mundo cheio de desigualdades, com o seu empenho na paz num mundo cheio de guerras… No entanto, não há esquerda no mundo que queira transferir o regime político cubano para o seu país. Será isto uma contradição? Não. Porque Cuba é apoiada pela sua enorme dignidade e pelas suas realizações concretas nesse país em concreto.

 

Defender Cuba, pedir sempre contas aos dirigentes

Uma das maiores e, ao mesmo tempo, mais eficazes estupidezes da direita tem sido criticar a esquerda nos seus respetivos países por supostamente quererem importar as políticas diabólicas dos países de algum eixo do mal. Durante muitos anos, a ameaça era a de querer aplicar o sistema soviético. Porém, hoje fazem-se exorcismos pelo que juram ser a chegada iminente do castrismo. Particularmente bem sucedida tem sido a acusação de querer transformar cada país numa sucursal da Venezuela. A demonização da Venezuela não tem sido gratuita. Tem a ver com o facto de Chávez ter feito cinco coisas proibidas pelo polícia mundial: (1) criar a UNASUR e enviar a OEA para o caixote do lixo da história, unindo os latino-americanos sem tutelas; (2) construir uma diplomacia do petróleo, que envolveu a revitalização da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), elevando o preço de um barril de petróleo a um preço justo e propondo que as transações petrolíferas não fossem necessariamente feitas em dólares; (3) sensibilizar o seu povo através da educação e meios de comunicação alternativos – ao ponto de o golpe contra Chávez em 2002 ter falhado; (4) fazer o que não deixaram Allende fazer, ou seja, construir um socialismo baseado no respeito pela democracia parlamentar, eleições e a Constituição; e (5) romper com Yalta e Potsdam, que proibiam países como a Rússia e a China de se envolverem em transações económicas e políticas com a América Latina.

É evidente que defender Cuba não significa querer importar o seu regime político. Para um polítólogo tal pretensão é tão idiota como para um biólogo querer transplantar um rim ou um coração de um pardal para um condor. Cuba é um ponto de referência na luta imperialista, atacada sem limites, desumanamente bloqueada e nunca autorizada a fazer os seus ajustamentos governamentais em liberdade. Os Estados Unidos nunca permitiram que Cuba se desenvolvesse, como permitiram a outros países subordinados, fossem eles democracias ou ditaduras sangrentas. Na verdade, isto aconteceu a toda a esquerda real desde pelo menos a Comuna de Paris de 1871. E a Espanha republicana conhece-o bem. Durante 60 anos, o bloqueio económico de Cuba tem vindo a colocar obstáculos ao desenvolvimento do país. 184 países das Nações Unidas, excepto os Estados Unidos e Israel, acabam de votar contra o bloqueio. O louco de cabelo laranja que foi Presidente dos Estados Unidos piorou ainda mais a situação com 248 novas regras que impedem a ilha de negociar com o mundo (o que é como afundá-los no mar), e a administração Biden, que no exterior seguirá muitas das diretrizes de Trump, ainda acredita que tem o direito de dizer qual o país que é terrorista e qual o que não é. Embora, se aplicassem essa bitola a si próprios, poderiam ter de invadir o seu próprio país. Acrescente-se a isso as tentativas de assassinato de líderes cubanos (quando querem matar-te constantemente, alguma razão tem a tua paranóia), a que se deve acrescentar o genocídio silencioso de tentar matar o povo à fome negando ao seu governo o direito de negociar economicamente com outros países como todos os outros o fazem.

Cuba é uma referência socialista concreta frente aos Estados Unidos – aquele país que inventou que o Iraque tinha armas de destruição maciça para o invadir e assassinar 600.000 pessoas – mas é governada por uma liderança política que pode perfeitamente deixar algo a desejar, ser emocional, cometer erros e até fazer parte de uma burocracia estagnada, tal como pode acertar, agir inteligentemente e ter taxas de COVID invejáveis de uma perspetiva europeia.

É possível apostar por Cuba sem fissuras, porque é isso que se faz com a dignidade. E, ao mesmo tempo, compreender que para manter este ponto de referência socialista num lugar condenado na sua história a ser um quarto traseiro dos Estados Unidos, é necessário, no século XXI, antecipar algumas mudanças, fazer algumas reformas que têm a ver com algo que os cubanos têm vindo a exigir há muito tempo.

 

A dupla moral com Cuba

Mas não nos enganemos a nós próprios. É muito hipócrita criticar Cuba e silenciar o que está a acontecer no resto do continente. Na Colômbia, 75 pessoas foram mortas desde que os protestos e a greve nacional começaram. Mais de 500 pessoas desapareceram. Biden anuncia novas sanções contra Cuba por causa dos prisioneiros. Houve alguma vez sanções contra os milhares de assassinatos na Colômbia de Uribe com os falsos positivos (em Espanha, o narcotraficante Uribe acaba de ser convidado para a Universidade Rey Juan Carlos, tristemente famosa pelos seus muitos casos de corrupção ligados ao Partido Popular). E se me permitem perguntar, onde está a polícia cubana a disparar como a ESMAD, o Esquadrão Anti-distúrbios móvel colombiano? Que manifestantes em Cuba aparecem nas valas com uma bala na cabeça? Onde se vê em Cuba massacres como os perpetrados pelas ditaduras argentina, chilena e brasileira? Que país foi agredido militarmente por Cuba como os Estados Unidos fazem de forma permanente, muitas vezes com o apoio da União Europeia?

Cuba não é atacada por violar os direitos humanos. É atacada porque é um símbolo da possibilidade de tentar um sistema político diferente. É atacada pela mesma razão pela qual acabaram a sangue e fogo com o Chile de Salvador Allende. Cuba é ferozmente atacada por aqueles que não conseguem suportar que a dignidade de um continente passe por esta pequena ilha. É por isso que só a esquerda, do seu compromisso moral, pode criticar o governo cubano por prender manifestantes ou impedir protestos. Porque a direita latino-americana nos seus próprios países assassina-os. Uma única morte, uma única detenção num protesto em Cuba é algo que nos entristece. Os milhares de jovens camponeses ou pessoas pobres assassinados na Colômbia e apresentados como guerrilheiros para recolher a recompensa sob o governo de Uribe não abalam aqueles que gritam Liberdade, liberdade! pensando em invadir Cuba. Aqueles que mantêm o poder judiciário sequestrado em Espanha exigem justiça em Cuba.

Em Espanha, durante a pandemia, foi exercida pressão sobre o governo de coligação do PSOE e de Unidas Podemos para permitir a actividade económica, especialmente na indústria hoteleira. Algo semelhante ao que a direita exigiu foi o que as autoridades cubanas fizeram com o turismo, o principal sector económico da ilha. Esta abertura teve necessariamente de aumentar os contágios. O dilema era terrível: moeda estrangeira para importar alimentos e medicamentos, ou um aumento de contágios? Qualquer que fosse a decisão que o governo cubano tomasse, seria errada. As mesmas pessoas que defendiam uma coisa no seu próprio país, como fez a direita espanhola, prontas a chamar ao governo cubano de assassino por fazer o que estavam a pedir nos seus próprios países.

 

Quando as vacinas também são geopolítica

As manifestações em Cuba tiveram uma expressão popular em alguns lugares – por exemplo, onde houve cortes permanentes de energia, como San Antonio de los Baños – mas foram organizadas a partir do exterior da ilha e foram lideradas pela direita internacional. Nos protestos havia setores populares que tinham uma justa raiva e exigências pendentes, mas também mercenários com agendas políticas pagas pelas organizações clássicas dos EUA (USAID, o National Endowment…). A violência nos protestos, com ataques diretos à polícia, muito provavelmente veio destes sectores (ainda temos na nossa mente as imagens da polícia a arder em Caracas durante as manifestações manipuladas pela direita, tal como não podemos esquecer a celebração destas imagens por aqueles nos seus países, incluindo Espanha, que defendem a polícia porque as vêem como parte da sua garantia de poder e privilégio).

Na organização dos protestos e da demonização de Cuba participaram os mesmos que tentaram ignorar a vitória de Pedro Castillo no Peru, aqueles que atacam constantemente a Venezuela e a Nicarágua por qualquer razão, aqueles que construíram a imagem ameaçadora da “caravana centro-americana” que Trump usaria na sua campanha, aqueles que tentaram impedir López Obrador de ganhar as eleições no México, os que celebraram a injusta prisão de Lula no Brasil, os que justificaram o golpe de Estado na Bolívia, os que perseguem Cristina Fernández de Kirchner e Rafael Correa, os que defendem as barbáries contra os direitos humanos perpetradas por Bolsonaro, os que escondem os assassinatos na Colômbia pela polícia, os que negam as detenções ilegais no Equador. São os mesmos que tentaram a invasão da Venezuela a partir de Cúcuta e aqueles que, com botas e robôs e falsas mensagens nas redes sociais, tentam dia após dia derrubar governos que querem governar para as maiorias.

Cuba desenvolveu duas vacinas, que está disposta a partilhar com o continente e os países pobres do mundo. Nem os Estados Unidos nem a União Europeia estão dispostos, no meio deste choque que poderia permitir-lhes virar a lógica neoliberal de pernas para o ar, a que Cuba perturbe os seus planos. As vacinas são geopolítica.

Acrescentemos a crescente confrontação dos Estados Unidos, também com o recentemente eleito Presidente Biden, contra a China, que coincide com a crescente agressividade contra precisamente os países que negoceiam com as autoridades chinesas: Venezuela, Cuba e Nicarágua. Fingir que a agitação em Cuba é apenas uma expressão de descontentamento popular é uma dessas ingenuidades que custa aos povos a sua liberdade.

 

Cuba e a legitimidade do socialismo

Embora seja verdade que o regime político cubano é menos aberto do que aqueles que entendemos como democráticos, em 2019 todos os cubanos votaram a favor da sua nova Constituição e optaram inequivocamente pelo socialismo. 78% dos cubanos disseram que queriam continuar com o socialismo. O imaginário socialista continua a ser defendido pela maioria da população. Apesar de todas as dificuldades. Porque Cuba é, insistimos, o símbolo da soberania latino-americana por ter resistido às tentativas de invasão e de assassinato dos seus líderes, por demonstrar que existe uma alternativa real e pelo exemplo de uma forma diferente de gerir a economia que tem mostrado enorme sucesso (especialmente em comparação com o seu contexto geográfico – pensemos no Haiti ou na América Central – embora os números da mortalidade infantil ou da pobreza no Harlem ou no Bronx nos Estados Unidos tenham sido sempre piores que os de Cuba). Fazer troça dizendo que Cuba é o “paraíso dos pobres” só é possível a partir da estatura económica de alguém que não é pobre.

Os protestos em Cuba são compreensíveis e ocorreram em praticamente todos os países antes e depois do COVID 19 (embora, como temos vindo a dizer, não haja ordens em Cuba, ao contrário do que disse o ex-presidente colombiano Uribe, para assassinar os manifestantes). Mas o COVID, o confinamento, a angústia da incerteza, é impossível que não provoquem raiva popular em qualquer canto do mundo. Embora os números do COVID em Cuba sejam invejáveis – 1.800 mortos num país com 11,3 milhões de habitantes. Em Espanha, com 46 milhões de habitantes, temos cerca de 81.000 mortes por OVID – não há dúvida de que as incertezas que todos nós já vivemos também existiram em Cuba.

Não se registaram os escândalos de corrupção com vacinas em Cuba a que assistimos noutros países. Não vimos as reivindicações contraditórias das autoridades – nem os negacionistas estúpidos entre a população. Também não vimos cadáveres abandonados nas ruas, nem falta de máscaras ou de material básico nos hospitais – embora haja restrições em matéria de medicamentos. Também não experimentaram as aquisições atamancadas e desleixadas de materiais que os países desenvolvidos experimentaram. Os decisores cubanos em matéria de política de saúde também não tiveram de se demitir por comportamentos ilegais ou imorais, como em tantos outros países.

 

Coisas que estão quebradas em Cuba

Quando um cidadão vê a sua vida piorar, tem ele o direito de dirigir a sua raiva para as autoridades? Parece sensato que seja assim. E que as autoridades se recusassem a ouvir as queixas seria um erro. O Presidente Díaz Canel teve razão em ir pessoalmente a San Antonio de los Baños para ouvir as queixas em primeira mão. Porque há elementos da situação atual em Cuba que as autoridades têm de abordar:

  • A crise económica – onde, nunca nos cansaremos de repetir, o bloqueio é essencial para compreender a situação (com a contenção das remessas devido à pressão de Trump, o bloqueio de navios, as dificuldades legais para qualquer empresa que negoceie com Cuba) – exige uma nova imaginação política.
  • O crescimento da inflação que dificulta o acesso aos bens de consumo (motivado pela decisão não facilmente explicável de unificar as moedas no meio da pandemia).
  • As desigualdades óbvias na ilha – algo que já era evidente com a existência da dupla moeda. Num sistema político socialista, é muito difícil para os cidadãos compreender porque é que as lojas são abertas para produtos básicos que só podem ser comprados em dólares. Mesmo que a explicação seja que com esses dólares podem depois levar essas mercadorias para as lojas que trabalham em pesos cubanos.
  • O aumento do número de jovens e afro-descendentes nas prisões, o que demonstra a existência de políticas públicas que atendem mais os idosos, bem como uma continuação da discriminação racial que ainda persiste na ilha.
  • As contradições geradas pelo contágio transportado pelos turistas – praticamente a principal economia nacional atualmente.
  • O desconforto das enormes filas de espera devido à ausência de bens de consumo.

 

A isto acresce o facto de haver uma geração que nasceu na crise – no período especial dos anos 90 – e que a legitimidade da Sierra Maestra e o fim do regime de Batista já não os interpela como interpelava os seus anciãos. O sonho capitalista proporcionado por Hollywood, pelas séries e pelas redes é falso, mas muito tentador. Não é preciso ter nada para ser uma classe média aspiracional. As prateleiras vazias, os cortes de energia – essenciais para compreender os protestos em algumas partes da ilha -, a Internet lenta, as dificuldades em imaginar um futuro mais brilhante não são resolvidas com as velhas formas de participação. Esta é a tarefa essencial da liderança política de Cuba. Ouvir as críticas e saber distinguir entre aqueles que querem derrubar a democracia e aqueles que têm reivindicações legítimas.

 

Escutar Fidel é sempre útil

Uma das vitórias indiretas da hostilidade aos governos da mudança é convertê-los em paranóicos. Desta forma, o sentimento popular já não é ouvido e os portadores de más notícias são decapitados. Com as redes sociais, os chefes só lêem nos grupos de WhatsApp as mensagens lisonjeiras: +1000! +1.000.000! Têm sido soberbos!! Estiveste magnífico! E assim deixa de se ouvir o caderno de reclamações do povo e deixam de aprender.

É conhecida a resposta do monge cisterciense Arnold Amalric após as tropas papais terem derrotado os cátaros cidade francesa de Béziers em 1209. Como distinguir os bons católicos dos maus albigenses? O abade teria respondido: “Matem-nos a todos, pois Deus já conhece os seus” (Caedite eos, novit enim Dominus qui sunt eius). Será que nós, à esquerda, vamos fazer o mesmo com as críticas?

Em Biografía a dos voces, a volumosa e insuperável entrevista de Ignacio Ramonet a Fidel Castro, há uma reflexão no final que deve ser lida de novo com calma:

“Confiámos na crítica e na autocrítica, sim, mas isso quase se fossilizou. Esse método, tal como estava a ser utilizado, era quase inútil. Porque a crítica tende a ser de um grupo pequeno; nunca se vai à crítica mais ampla, à crítica num teatro, por exemplo. Se um funcionário da saúde pública, por exemplo, apresentou um facto falso sobre a existência do mosquito Aedes aegypti, ele ou ela é chamado e criticado. Está bem. Mas conheço algumas pessoas que dizem: “Sim, eu autocritico-me”, e ficam todos calmos, a rir-se à gargalhada. Estão felizes. E todos os danos que causaste, e todos os milhões que se perderam em resultado desse descuido ou dessa forma de agir?

Temos de ir à crítica e à autocrítica na sala de aula, no núcleo e depois fora do núcleo, no município e no país. Temos de usar a vergonha que os homens sem dúvida têm, porque conheço muitos homens que são justamente descritos como “sem vergonha”, e quando um jornal local relata o que fizeram, ficam cheios de vergonha. Nesta batalha contra os vícios não haverá tréguas com ninguém, tudo será chamado pelo seu nome, e apelaremos à honra de cada sector. No final, aqueles que não querem compreender corrigem-se a si próprios, mas de uma forma diferente; sim, vão ficar enlameados com o seu próprio lixo. De uma coisa temos a certeza: em cada ser humano há uma dose elevada de vergonha. E o primeiro dever de um revolucionário é ser extremamente severo consigo mesmo (…).

E isto não é falar mal da Revolução. Isto é falar muito bem da Revolução, porque estamos a falar de uma Revolução que pode enfrentar estes problemas e pode levar o touro pelos cornos, melhor do que um toureiro de Madrid. Devemos ter a coragem de reconhecer os nossos próprios erros precisamente por essa razão, porque essa é a única forma de alcançar o objetivo que estamos a tentar alcançar.

É absolutamente verdade que algumas das críticas à situação em Cuba são legítimas. E devem ser ouvidas. Porque mesmo em golpes suaves – aquela estratégia golpista dos EUA que consegue derrubar governos soberanos ao mesmo tempo que evita a condenação internacional de golpes duros – há uma parte de verdade. Para isso, são necessários novos canais para permitir a livre expressão com consequências políticas e sem repressão. Há leis pendentes na Assembleia Cubana que procuram precisamente aumentar a participação popular. É tempo de lhes dar uma saída.

Tudo isto é tão certo como qualquer protesto será utilizado por contra-revolucionários que não querem ouvir a decisão constitucional votada em 2019 de que Cuba é socialista. Como na Primavera árabe, os protestos legítimos foram rapidamente usurpados pela mão dos Estados Unidos para derrubar os governos que não lhes eram favoráveis. É um erro confundir as revoluções das cores, aqueles protestos mercenários organizados pelos Estados Unidos, com protestos populares legítimos. Porque, repetimos, um triunfo indireto dos golpes dos EUA é forçar os governos de esquerda a entrincheirarem-se, a fecharem-se sobre si próprios face aos ataques, a acreditarem que todos os protestos são contra-revolucionários. Porque com essa atitude, acaba-se por expulsar das fileiras da revolução aqueles que são revolucionários mas têm posições críticas. Ouçamos, insistimos, o que o falecido Fidel disse.

 

Mais uma vez, caso alguém se tenha esquecido: com Cuba, por uma questão de dignidade

Em Cuba não há crianças a dormir na rua. Que ninguém se esqueça disso. E é o único país latino-americano com duas vacinas que funcionam. Mas a sociedade cubana precisa de avançar para que a vontade da maioria para construir o socialismo não se enfraqueça. Como diz a analista brasileira Joana Salem, em Cuba a economia foi nacionalizada, depois foi estatizada, mas nunca foi socializada. Certamente que há aí uma tarefa pendente. E nessa socialização, o regime cubano terá de aprender a ouvir diferentes vozes que têm visões diferentes sobre a construção do socialismo.

Já ouvimos o Presidente da Câmara de Miami, Francis Suarez, apelar para o bombardeamento de Cuba. Os Estados Unidos, sempre que intervieram em qualquer país desde 1945, destruíram-no. Enganaram a comunidade internacional com as falsas armas de destruição maciça no Iraque, enganaram na Síria, na Líbia, no Afeganistão. Na Líbia, o país mais próspero de África, anunciaram nos meios de comunicação internacionais que Gadaffi bombardeava civis e matava civis com mercenários subsaarianos contratados. Num momento crítico, estava em todos os meios de comunicação e notícias que Gadaffi, com um exército mercenário, ia entrar imediatamente em Bengazhi e passar pela espada a população rebelde que lutava “pela democracia”. Era tudo mentira, mas a opinião pública internacional, incluindo a esquerda, tolerou o bombardeamento da Líbia pelos EUA. Hoje é um país despedaçado, nas mãos de máfias de comércio de escravos, terroristas do ISIS e senhores da guerra que lutam uns contra os outros. As elites económicas americanas e ocidentais há muito que querem acabar com o exemplo cubano. Não nos iludamos. Eles transformariam Cuba noutra Líbia.

 

Algumas conclusões para debate: pressionar contra o bloqueio, abrir novos canais para o povo se expressar, construir uma nova legitimidade socialista

Trata-se agora, em tempos difíceis pós-COVID, de salvaguardar, sem ingenuidades, tudo o que foi ganho nestes 60 anos, que é imenso e património da esquerda mundial. Trata-se de manter este símbolo de dignidade soberana ouvindo o povo, de ir além deste “socialismo dependente” – não só tem havido capitalismo dependente – ao qual o bloqueio e também as decisões políticas têm conduzido. Cuba tem de reinventar um compromisso com a comunidade que nasce de baixo e que não seja uma expressão mecânica do mandato do Partido Comunista de Cuba. As novas gerações têm de aprender o respeito pelos outros, a epopeia de manter espaços de vida desmercantilizados, da mesma forma que o socialismo cubano tem de incorporar as novas exigências ecológicas, feministas e culturais que nascem necessariamente num mundo onde a Internet está a revolucionar as nossas sociedades. Trata-se de reativar as organizações populares a partir de um espaço que não pode ser o da luta contra Batista ou da Guerra Fria. É mais desafiante e, portanto, mais necessitado de apoio maioritário. Os Estados Unidos de Joe Biden vão trazer uma democracia fechada sobre si mesma – para evitar que loucos com chifres na cabeça entrem no Capitólio – mas é muito difícil que mudem radicalmente a sua política externa. É verdade que Biden travou uma nova crise de balseiros, mas não vai dar liberdade a Cuba para se desenvolver economicamente e tornar-se um exemplo latino-americano de prosperidade alternativa. As novas sanções vão nessa direção.

A sociedade cubana é mais plural do que no século XX. Se não ouvirmos essa pluralidade, atiramo-la para os braços do autoritarismo capitalista, da lógica consumista, da identidade autoritária da extrema-direita ou, como está a acontecer em muitos lugares, das máfias da droga. As oligarquias norte-americana, latino-americana e europeia não têm falta de dinheiro para convencer as pessoas, nem os criminosos. Trata-se, portanto, de encontrar o rumo do socialismo no século XXI. Um socialismo que terá necessariamente contornos diferentes dos do século XX. Os desafios são enormes. As expectativas das novas gerações não são as dos seus antepassados. Essas conquistas já foram alcançadas. Têm de ser estabelecidas novas. E não é fácil porque o neoliberalismo é um senso comum.

Sair do neoliberalismo, inventar um novo senso comum, é tão difícil e o contexto está tão cheio de dificuldades – alterações climáticas, desigualdades, regresso de doenças, guerras, robotização da economia, migrações, ameaças aos direitos conquistados pelas mulheres… – que só é confrontável confiando num povo que constrói a sua nova utopia. O prelúdio de cada revolução é uma grande conversa. É por isso que o diálogo não pode ser silenciado. Todas as vozes são necessárias. Incluindo as que rangem. O socialismo do século XXI precisa do maior número de pessoas possível, porque só com muita gente se podem resolver desafios tão grandes.

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O autor: Juan Carlos Monedero [1963 -] é um politólogo, político e professor espanhol. Professor da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense de Madrid desde 1992, é licenciado em Ciências Políticas por esta universidade e doutorado pela Universidade de Heidelberg. Foi assessor político de Gaspar Llamazares (2000-2005) quando este era coordenador geral de Izquierda Unida. Foi assessor do governo venezuelano (2005-2010) e professor visitante na Universidade Iberoamericana Puebla, universidade privada sob gestão dos jesuítas situada no México. Em 2010 assessorou vários governos da América Latina. Cofundador de Podemos, em 2014 formou parte do partido, tendo sido eleito membro do seu Conselho Cidadão Estatal, onde foi designado para secretário do Processo constituinte e Programa. Em 2015 demitiu-se da direção de Podemos. Desde 2018 apresenta em Público TV o programa “En la frontera” de entrevistas e debate político. É diretor do Instituto 25 de Maio, fundação do partido Podemos cujos fins são a análise, formação e criação política e cultural. Foi colunista do diário Público (de Espanha), e colabora atualmente com La Marea.

Autor de:

  • Monedero, Juan Carlos (1992). El retorno a Europa. De la perestroika al Tratado de Maastricht. Madrid: Complutense. p. 429.
  • Monedero, Juan Carlos; Paniagua Soto, Juan Luis (1999). En torno a la democracia en España. Problemas pendientes del sistema político español. Madrid: Tecnos. p. 501.
  • Monedero, Juan Carlos (2000). Informe sobre la implantación del euro en España. European University Institute: Badia Fiesolana.
  • Monedero, Juan Carlos (2003). Cansancio del Leviatán: Problemas políticos en la mundialización. Madrid: Trotta.
  • Monedero, Juan Carlos (2005). La Constitución destituyente de Europa: Claves para otro debate constitucional. Madrid: La Catarata. p. 160.
  • Monedero, Juan Carlos; El Troudi, Haiman (2006). Empresas de Producción Social. Instrumento para el socialismo del siglo XXI. p. 238.
  • Monedero, Juan Carlos (2009). Disfraces del Leviatán: El papel del estado en la globalización neoliberal. Madrid: Akal. p. 288.
  • Monedero, Juan Carlos (2009). Claves para un mundo en transición. Crítica y reconstrucción de la política. Madrid: Cyan. p. 74..
  • Monedero, Juan Carlos (2009). El gobierno de las palabras. Madrid: Fondo de Cultura Económica de España, S.L. p. 350.
  • Iglesias Turrión, Pablo; Monedero, Juan Carlos (2011). ¡Que no nos representan!: El debate sobre el sistema electoral español. Madrid: Popular. p. 127.
  • Monedero, Juan Carlos (2011). La rebelión de los indignados. Madrid: Rompeolas. p. 104.
  • Monedero, Juan Carlos (2011). La transición contada a nuestros padres. Madrid: La Catarata. p. 232.
  • Monedero, Juan Carlos (2012). Dormíamos y despertamos. El 15M y la reinvención de la democracia. Madrid: Nueva Utopía.
  • Monedero, Juan Carlos (2013). Curso urgente de política para gente decente. Madrid: Seix Barral. p. 246.
  • Anguita, Julio; Monedero, Juan Carlos (2013). Conversaciones entre Julio Anguita y Juan Carlos Monedero. Más Madera a dos voces. Madrid: Icaria. p. 120.
  • Monedero, Juan Carlos (2018). Los nuevos disfraces del Leaviatán. Madrid: Akal. p. 352.

 

 

 

 

 

 

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