Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 3. ARCHEGOS E AS APOSTAS SELVAGENS DE WALL STREET – 3C. REFLEXÕES EM TORNO DA ARCHEGOS: 6. Archegos vista em inícios de Junho de 2021.  Por Matt Levine

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 


Nota de editor

Conforme acordado com o Júlio Mota, com este texto finalizamos a série Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street. O ponto 4 inicialmente previsto, Uma perspetiva global sobre os mercados financeiros, dada a sua extensão e uma vez que os seus textos não perdem atualidade, será organizado em série separada, que publicaremos oportunamente.

FT


 

3C. Reflexões em torno da Archegos – 6. Archegos vista em inícios de Junho de 2021

 

 Por Matt Levine

Extracto do artigo “MoviePass Changed Some Passwords” publicado em 8 de Junho de 2021 em  (aqui)

Archegos

A história básica da Archegos Capital Management, o escritório familiar do antigo gestor de fundos de cobertura Bill Hwang, é que comprou uma mão cheia de ações utilizando swaps de retorno total altamente alavancados, e depois essas ações subiram muito, e depois desceram muito rapidamente. Quando desceram, alguns dos principais corretores da Archegos – que financiaram as suas apostas utilizando swaps de retorno total – não conseguiram vender as ações a tempo e perderam milhares de milhões de dólares. Desde o início, havia algo de ligeiramente misterioso nesta história. Uma das maiores posições de Archegos era em ações da ViacomCBS Inc., que atingiu um máximo de 100,34 dólares no dia 22 de Março. Uma semana mais tarde, a 29 de Março, tinha caído para $45,01; os principais corretores da Archegos estavam a vender freneticamente as ações para fecharem as suas posições altamente alavancadas.

Mas apenas dois meses antes, a ViacomCBS também tinha estado a ser negociada a valores de cerca de $45. No ano passado, quando o Archegos parece ter acumulado grande parte da sua posição nos títulos ViacomCBS, estes estavam a ser negociados nos $20s e $30s. As outras posições da Archegos tinham trajetórias semelhantes. Não é óbvio que todos explodiriam quando uma ação que a Archegos comprou por 30 dólares caísse para 45 dólares. Quarenta e cinco é mais de que 30! A Archegos estava em alta nas suas transações. Como escrevi quando discutimos pela primeira vez Archegos [1]:

Uma coisa sobre os empréstimos com margem é que se pedir dinheiro emprestado para comprar ações, e as suas ações subirem, a alavancagem é automaticamente desalavancada. Se utilizar $15 do seu próprio dinheiro e pedir emprestado $85 ao seu corretor para comprar ações no valor de $100, tem 85% de alavancagem; se as ações subirem, para $200, a alavancagem desce para 42,5% dada pelo rácio do crédito concedido face ao valor dos ativos (ou seja (85/200)x100=42,5%. Ainda deve $85 ao seu corretor, mas agora tem $200 em títulos. Se o título cair então 25% para $150, isso ainda é ótimo: Ainda está a ter ganho e o seu corretor ainda tem ampla segurança para o seu empréstimo.

O que aconteceu aqui não é apenas que a Archegos fez apostas muito alavancadas em algumas ações. É que fez isso, e essas apostas compensaram, e a Archegos tirou então os seus ganhos da mesa, de modo que quando as ações desceram novamente não havia mais garantias. No meu exemplo, eu iria ao meu corretor e diria “ei, está acordado, dê-me $85 dos meus ganhos, pode ficar com os outros $30 como garantia”. E depois, se as ações caírem de novo para 150 dólares, o corretor está no vermelho. [N.T. com efeito o corretor emprestou 85 para a compra dos títulos e deu-me outros 85 dos ganhos. Os títulos custaram, pois, ao corretor 85+85=170 e os títulos valem agora 150 dólares]

O que é que a Archegos fez com esses ganhos? Presumi na altura, e suponho que ainda presumo, que os tenha gasto todos de novo em apostas mais alavancadas em mais acções – e isto é  parte da razão pela qual a ViacomCBS e as outras ações da Archegos subiram tão rapidamente, é que a Archegos continuou a comprar mais acções. Presumi que a Archegos não tinha mais dinheiro disponível e que quando acabou por entrar em colapso foi em parte porque a Archegos não conseguiu arranjar mais dinheiro para comprar a sua parte de uma oferta de ações de ViacomCBS.

Mas não está totalmente claro, e pode-se imaginar outra resposta. Poder-se-ia imaginar a Archegos a distribuir o dinheiro a Bill Hwang. E depois quando os bancos foram à Archegos pedir mais dinheiro (para comprar ações da ViacomCBS para se repor o valor inicial do swap ou para chamadas de margem), a Archegos poderia ter dito “lamento, há dinheiro para repor a margem “, e desta forma a Archegos afundar-se-ia e os bancos iriam perder dinheiro enquanto Hwang ficaria com o que quer que fosse que tenha retirado.  Não tenho razões para pensar que isto tenha acontecido e parece um pouco improvável. Mas parte de mim está a desejar que tenha sido assim.

De qualquer modo, aqui está um artigo do Wall Street Journal intitulado “Inside Credit Suisse’s $5.5 Billion Breakdown“, sobre como o Credit Suisse Group AG perdeu tanto dinheiro na Archegos. Uma coisa que ele faz é descrever quando e como é que a Archegos sacou muito dinheiro da mesa:

Dias antes da derrocada da Archegos, os títulos da ViacomCBS e Discovery atingiram novos máximos. Por volta de meados de Março, o Credit Suisse pagou ao fundo Archegos os pagamentos que eram ganhos da Archegos sobre os ativos dos swaps, é o que dizem.

Devolver garantias pode ser uma coisa normal para um cliente com uma carteira diversificada de participações que tinham subido de valor. Mas no caso da Archegos, era um problema porque a maior parte do que detinha estava apenas num punhado de ações. Isto criava riscos especiais, uma vez que qualquer ação que caísse poderia torpedear a empresa.

A Archegos estava também a fazer apostas altamente alavancadas em algumas das mesmas ações com outros bancos de investimento. Segundo os executivos do Credit Suisse, o Credit Suisse não estava ao corrente dessas movimentações.

O banco não estava a avaliar completamente os riscos de as suas ações estarem tão concentradas num único nome e sector, de acordo com os atuais e antigos altos quadros do banco.

Da perspectiva do Credit Suisse, o problema aqui é que a Archegos pediu os seus ganhos e, em vez de dizer à Archegos : “aguente-se, ainda podemos perder, vamos ficar com esse dinheiro por um minuto”, o Credit Suisse pagou-lhes. Outros bancos utilizam “um sistema de ‘marginação dinâmica’ mais sofisticado que se basearia em fatores adicionais em tempo real para além do preço, tais como volatilidade e risco de concentração”, o que lhes permite ter mais garantias quando os mercados se tornam estranhos, e que aqui teria levado o Credit Suisse a dizer não quando a Archegos pediu o seu dinheiro.

Mas da minha perspetiva, a questão mais interessante é: O que fez a Archegos com o dinheiro que o Credit Suisse lhe enviou em meados de Março? Cerca de uma semana mais tarde, as ações da Archegos estavam a cair e os seus bancos estavam em pânico; a Archegos não estava a cumprir as chamadas de margem e os bancos estavam a perder dinheiro. Na semana seguinte, estaria a Archegos a fazer apostas maiores, a aumentar os preços para níveis insustentáveis e deixando-se ficar sem dinheiro para satisfazer as chamadas de margem? Ou estava a tirar lucros, enfiando dinheiro em malas, e preparava-se para calmamente cavalgar a tempestade que se aproximava para os seus bancos?

 

 

NOTA

[1] As pessoas não gostaram deste uso de “alavancagem”, mas não importa. Óptimo, tem 85% de empréstimo por valor, etc.


O autor: Matt Levine é um colunista da Bloomberg Opinion cobrindo o setor financeiro. Foi editor da Dealbreaker, um banqueiro de investimentos da Goldman Sachs, advogado de fusões e aquisições da Wachtell, Lipton, Rosen & Katz, e secretário do Tribunal de Recursos da 3ª Região dos EUA.

 

 

 

 

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