CARTA DE BRAGA -“do carro eléctrico e Groucho Marx” por António Oliveira

Ainda me lembro, apesar de já lá irem algumas dezenas de anos, de ir no 24, o eléctrico do Carmo até à Praça do Chile, carro à cunha, com a gente mais nova pendurada nas portas dos lados e atrás e eu ajeitando-me entre um senhor antigo que teimava em ler o jornal que nem conseguia desdobrar e uma senhora a cheirar a perfume já destilado, debaixo de uma espécie de gabardina com pele de algum bicho mal apanhado, a ver por dois buracos fora do sítio.

Antes de chegar à Avenida de República, uma moça nova levanta-se e desata a tocar a campainha de paragem, puxando o fio de cabedal que antes havia naqueles carros, para as pessoas avisarem o condutor que queriam sair na próxima paragem.

O condutor parou mesmo no meio do trânsito, o revisor abriu caminho conforme pôde até que toda a gente ouviu a tal moça dizer alto e bom som ‘Senhor condutor, é melhor parar o eléctrico, que este senhor quer sair pela janela!

Com a gente toda a rir às gargalhadas, o homem que estava sentado ao lado dela, levanta-se, rosto bem encarnado (na altura não se podia dizer ‘vermelho’) e ainda hoje não sei como conseguiu chegar à rua, para desaparecer na esquina mais próxima.

Lembro-me desta historieta por ter lido, não há ainda muitos dias, o jornalista e escritor Juan José Millás, contar de, numa tertúlia, ter ouvido alguém perguntar o que aconteceria se chegado a um restaurante, ouvisse o cozinheiro dizer ‘Não sei o que fazer hoje para comer!’ e, transferindo esse caso para ele e para todos nós, os que nos atrevemos a escrever para outra gente, perguntou para o grupo todo, ‘E se ficarmos sem ideias?

Parece-me que a resposta a esta questão foi dada há dias pelo jovem director de orquestras, Gustavo Dudamel, recentemente nomeado novo director musical da Ópera Nacional de Paris por seis temporadas, ‘A cultura não é só entretenimento, mas um elemento essencial para o ser humano’.

Na verdade, a cultura é uma maneira de habitar este mundo, de se entender com ele, de poder colher os frutos a pingar da árvore das emoções, das experiências, das falas e das conversas com quer que seja, porque cada pessoa é um ser diferente, colheu frutos de outras árvores, com outras e talvez melhores raízes, esquecendo e pondo de lado, modas, sectarismos políticos, a imediatez destes tempos e, como dizia o autor de ficção científica Philip K. Dick, ‘Realidade é tudo aquilo em que se deixa de acreditar e não desaparece’.

E, há alguns dias, li também uma outra historieta, contando de Churchill, que era ‘louco’ pelos charutos cubanos ‘Romeo y Julieta’ (passe a publicidade!). E contava a historieta que a tabacaria onde ele os comprava, ficou totalmente destruída num dos bombardeamentos nazis à capital britânica. O gerente, aflito, foi encarregado de o avisar e ligou-lhe às duas horas da madrugada, ‘Os seus puros estão a salvo, sir!’ O resto nem sequer o preocupava!

E, a terminar, um dito de Groucho Marx, que todos devíamos praticar ‘Eu, e não os acontecimentos, tenho o poder de me fazer sentir feliz ou infeliz hoje. Eu posso escolher como é que quero estar. O ontem está morto, o amanhã ainda não chegou. Tenho apenas este dia, o de hoje, e vou ser feliz enquanto ele decorrer’.

Também é saber estar, também é cultura!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

1 Comment

  1. Vale a pena lembrar que o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, é um “produto” de EL SISTEMA, rede venezuelana de escolas de música frequentadas por muitos milhares de crianças oriundas das classes mais desfavorecidas.
    É no EL SISTEMA que se inspira, e bem, a nossa (portuguesa) rede ORQUESTAS GERAÇÃO.

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