A GALIZA COMO TAREFA – ocaso – Ernesto V. Souza

Assistimos a uma mudança acelerada, como acho não se vive desde a Revolução Industrial. Afinal é a mesma cousa, substituir o trabalho animal ou humano, apenas que as máquinas não se movimentam a vapor, e é a eletrónica que conduz o salto.

E avança a cousa a alancadas prodigiosas, saltos de fases acelerados. O menos interessante é talvez o incremento da produção e a acumulação de capital em poucas mãos, quanto as repercussões, as mudanças e vertigens que provoca na sociedade, na vida, na organização dos ciclos, dos trabalhos, da aprendizagem, do consumo, das dinâmicas estabelecidas no comercio, na sociedade, na circulação e acumulação de capital e também dos calendários, organigramas, alguns deles fixados desde há séculos.

Agita-se tudo, tanto… perdemos pé numa superficialidade, agitada, arbitrária, que pretendemos agachar sob burocracias, normas, legislações e indicadores que são rapidamente superados na avalanche, no terramoto, no tsunami.

Passamos em 50, 40, 30, 20 anos de um ocaso do rural, que permanecera fixo em habitação, estruturas e ciclos, a uma alvorada de novidades em cascata que se sucedem sem que tivéssemos tempo de as incorporar. A informação é o de menos, os suportes, comparado com as dinâmicas que se estabelecem nas que se dinamita a propriedade, o valor do objeto obtido, criado, desenhado, fabricado, adquirido para fazer parte do património em prol de um valor do uso imediato, do acesso, da descarrega. Para que investir no objeto quando o que interessa é o aceso, o uso?

Renina Katz / Retirantes / Xilogravura

A propriedade e com ela a habitação e os serviços públicos vai-se alterando em função dos ciclos de despovoamento do rural e crescimento urbano. Perde valor e perde sentido o património construído, os caminhos, a paisagem lavrada. O ciclo repete-se: retirantes de novas clearances do rural que se abandona para uso de eólicos e florestas de produção de massa e papel, acumulação de gente nas cidades como mão de obra barata e para nutrir o consumo. Fecham-se escolas, centros hospitalários, correios, bibliotecas no rural. Desaparecem os bancos como apareceram, perde sentido o dinheiro em papel como ontem os metais padrão das moedas. Altera-se o consumo e o relacionamento eletrónico com as administrações, os serviços e os nossos contemporâneos. Passa-se ao cidadão a gestão dos processos sob uma propaganda individualismo de controlo pessoal e liberdade. A exclusão, a inadaptação, os fracasso, vão por conta das pessoas e as suas vidas que carecem de importância. Bom momento para ler The Grapes of Wrath ou visionar o filme fordiano.

Na procura da ordem rota fica o refúgio na ficção, na fantasia de um futuro melhor e nas saudades do pretérito imaginado, é claro. Afinal a nostalgia é uma defensa, como a participação, o debate como produto, nas redes sociais, como a história, a memória a conservar e descartar, a política de extremos ideológicos pela que torcer, a narrativa do passado a impor, a novela gótica, a utopia ou a sci-fi. Procuramos algo fixo, um suporte. Aquele passado que evocamos como estabilidade, esse programa político de máximos que nos ilude como uma fantasia de ordem, nação, moral ou progresso. O auge das ultra-direitas, dos nacionalismos, dos populismos não surpreende. Como não surpreende o triunfo da banalidade, da barbárie, das aparências, das personagens inventadas, do culto às pessoalidades, a exaltação da individualidade sucedida, dos discursos sem fundo que se refugiam na forma e na palavra bem dita.

Mas a gente continua vivendo as suas vidas. Aprende a descartar, a renunciar, a se socializar, descobre novos truques ou trabalhos, adquire novos hábitos e necessidades, muda de língua de cultura, de cidade ou país, de pátria apenas numa geração, mal-vive, sobrevive, consume, evade-se, adapta-se ou vai tirando. Não há outra. Quando menos na Galiza aceita-se, com fatalismo. Improvisações individuais a problemas coletivos que não se podem resolver. A realidade é o que acontece, como uma corrente, umas vezes calma, outras torrencial. Afinal tanta mudança, não é muita a novidade, é continuar a viver como viveram por séculos os nossos antepassados, sem controlo, sem possibilidade de decisão sobre as mudanças arredor que impõem os poderes económicos, políticos e sociais que dizque empreendem, enxergam o futuro e governam o mundo com o seu bandulho.

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