QUE SALAZAR ERA O SALAZAR DE FERNANDO PESSOA? – por MANUEL SIMÕES

 

É recentíssima a edição do volume com este título, e com comentários de Manuel S. Fonseca (Guerra & Paz, 2021) contextualizando os textos do poeta de Mensagem sobre a política portuguesa e, concretamente, sobre a figura do ditador. Trata-se de uma edição divulgativa, de leitura ágil, com uma organização didáctica, ilustrando sempre os comentários com a transcrição dos escritos, «prosa ou verso, em que Pessoa escreve sobre Salazar». Lamenta-se apenas que esta edição não divulgue a proveniência dos fragmentos transcritos, dada a dispersão editorial que ainda penaliza um melhor conhecimento da globalidade da obra pessoana.

Como está documentado nos textos em prosa, a bibliografia pessoana evidencia um precoce interesse político pela “coisa pública”, caracterizada, como se sabe, pela instabilidade institucional, por governos efémeros e confusos programas de reforma. É sabido, de facto, que Pessoa seguiu de perto e com profunda participação o curso acidentado da história portuguesa: da “República Velha” à “Nova”, com o fugaz parêntese ditatorial de Sidónio Pais – consagrado por Pessoa na ode À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, de 1920  -, do golpe militar de 28 de Maio de 1926 à instauração do Estado Novo, a reflexão pessoana sobre a actualidade política é um contínuo de notas, comentários, panfletos, cartas abertas, ensaios, cujos títulos, só por si, dão uma ideia da riqueza dos temas e da variedade das análises, ao ponto de ele próprio se revelar republicano, monárquico, liberal, anti-democrata, anarquista, elitista, sebastianista, etc. – tudo isto numa síntese praticamente impossível, até pelos conhecidos paradoxos pessoanos.

Os textos em prosa de Pessoa, designadamente de teor político, foram ficando inéditos (como grande parte da poesia) e só muito tarde (a partir dos anos 70) começaram a ser publicados, e de forma fragmentária, à medida que os vários investigadores os foram recuperando do famoso baú da Biblioteca Nacional. Resolveram-se então alguns problemas de datação dos documentos que revelam a evolução do seu pensamento, o qual, como é lógico, acompanha a complicada evolução política portuguesa, de 1905 – ano em que regressa da África do Sul – a 30 de Novembro de 1935, data da sua morte. O que equivale a dizer que acompanha o final da Monarquia, a 1.ª República e a instauração do Estado Novo.

Manuel S. Fonseca manifesta-se a favor de «vários Salazares», o que nos traz à memória um famoso ensaio de Jacinto do Prado Coelho, Unidade e Diversidade de Fernando Pessoa, referindo-se, porém, à obra poética. Também aqui, e concordando que há diversas ‘tonalidades’ derivadas da evolução da própria figura do ditador  e dos reflexos que a ditadura acabou por ter na liberdade almejada, parece haver certa unidade na configuração contrastante como foi sendo observada a personagem desde o seu ingresso na cena política portuguesa. Pessoa confessou ser «situacionista por aceitação» mas não «por doutrina», ao mesmo tempo que se dizia um «individualista absoluto, um homem livre e liberal». É verdade que publicou, em 1928, o opúsculo O interregno. Defesa e justificação da ditadura militar em Portugal, mas não se deve esquecer que em Março de 1935, alguns meses antes da sua morte, escreveu a Nota biográfica onde declara peremptoriamente: «O folheto “O interregno”, publicado em 1928, e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito». Por motivos óbvios, nunca chegaremos a saber o que resultaria da revisão e do repúdio.

Foi praticamente no último ano de vida (1935) que Pessoa foi mais cáustico em relação a Salazar, sobretudo depois do discurso que este produziu na entrega dos prémios do Secretariado da Propaganda Nacional em Fevereiro desse ano. Já escrevera em 1934: «Nenhum de nós porém aceita que, quando o Prof. Salazar expõe uma ideia, não seja lícito contestá-la ou discuti-la com aquilo com que as ideias se discutem e se contestam – a argumentação». Por essa altura alude, em inglês, à «sombra sonolenta do fascismo de Salazar» mas é em português que o apelida de «seminarista da contabilidade» ou que escreve o poema, precisamente datado de 29 de Março de 1935, cuja primeira estrofe é composta por estes versos: «António de Oliveira Salazar./ Três nomes em sequência regular…/ António é António./ Oliveira é uma árvore./ Salazar é só apelido./ Até aí está bem./ O que não faz sentido/ É o sentido que tudo isto tem». Uma das várias sátiras contra o ditador, encontradas nos inéditos de Fernando Pessoa, e todas datadas daquele ano de 1935.

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