A GALIZA COMO TAREFA – trovão – Ernesto V. Souza

Na semana passada as árvores começaram a deitar, prematuramente, no relvado dos parques folhas acastanhadas. A luz na tarde era intensa, mas o sol já não queimava. Ante-ontem o céu escureceu profundamente. Depois, contra as oito do serão, brilhou o lôstrego. Com o trovão chegou a chuva. Uma chuva súbita, forte e ventosa, após um par de meses de seca, que batia como uma pantalha de água nos cristais.

A água entupiu os esgotos. Corria nas ruas, em minutos, a torrenteira, arrastando a lixeira, o pó, os fragmentos de papéis, caixas de cartão e pequenos resíduos urbanos. Em pouco tempo, bairros inteiros de Valhadolid, já contemplavam pequenas enchentes até os tornozelos. Impressiona a força dessas correntes inesperadas.

Afortunadamente parou em breve. Depois, choveu mais amodo e chuviscou a noite inteira. Estas enchentes redesenham os cursos d’água antigos e os dessecados da Esgueva. Fica definido de volta o percurso no velho casco histórico, constringido antano, por eles e o rio em que desaguavam, à velha cerca inexistente há séculos que contornava a pequena elevação fortificada em que se situa a origem remota do assentamento primitivo e da cidade medieval.

Nem se precisa de muita perspicácia para intuir que uma forte tormenta, combinada com o aumento do caudal do rio poderia meio mergulhar boa parte da cidade. O Pisuerga, por vezes, pelo outono e primavera, sonha em se converter no Orinoco e, de quando em quando, ameaça as pontes, enchendo os seus olhos com madeiros, pequenas ilhas de entulho e vegetação que arrasta e desbordando as ribeiras. Alhures, numa pasta, devo ter um número do jornal Ahora de 1934 com as fotografias cor sépia das tremendas inundações daquele ano. Procurando na rede é doado encontrar alguma antiga e moderna para sustento desta tese e narrativa.

Não poucas vezes tenho contemplado estas pequenas enchentes fulminantes, cá e noutras partes. Pequenas inundações, regatos e rios a correr imparáveis pelas ruas, recuperando os leitos pré-históricos. Uma vez apanhou-nos, também por sorte sem alcance, e houvemos de ficar sitiados por um par de horas, com as aguas a subirem até as janelas, num barzinho, com um caudal em pendente alimentando o rio, ao final da rua principal de Arenas de San Pedro, lá em Gredos.

E quem diz as chuvas e os rios, diz o mar: temporais, borrascas, galernas que no norte e na Galiza natal, rompem pedras e cons, alteram as costas, movimentam dunas e praias artificiais inteiras, arrastam blocos de portos e passeios marítimos, derrubam construções ou deslocam carros e mobília urbana com apenas uma onda. Pela tv tenho contemplado outras pequenas e grandes catástrofes, algumas de verdadeiro dramatismo.

J. M. W. Turner (1775–1851) “Eruption of Vesuvius” aguarela 1817 (via wiki)

A força da natureza é incomensurável  quando conforma ciclones, tornados, furacões, ou estoura em terramotos, maremotos, erupções vulcânicas. Para os orgulhosos humanos, auto-proclamados reis da criação confiados na sua própria fantasia e invenção de religiões, que tudo subestimam, a natureza é sempre imprevisível. Moram, é verdade, tranquilos, até algo acontecer, ao pé dos Vesúbios, nos leitos secos dos vales, sob rios represados, nos meandros de grandes caudais que desviam ou lagoas que secam, a rés ou por baixo do mar que pretendem ter confinado e deixam, para a arqueologia, ou como contos de velhas ou matérias legendárias as histórias de cidades calcinadas, assulagadas, abaladas pelos tremores, destruídas pela força das ondas.

Lisboa, e as mais das cidades históricas, conservam grandes cicatrizes. Mas falamos, nessa soberba protagonista, nessa imprevisão constante e já se verá, da Mudança climática. Como se fosse o mundo inteiro que muda por nos chatear, e não apenas as nossas formas de viver. E teimamos, quando temos contemplado tanto, sem ver, nestes dous últimos anos, em que uma “gripezinha” deixou de joelhos as nações, abalou a humanidade e alterou os nossos modos de viver, a circulação e viagens, a planificação urbana, os trabalhos, os relacionamentos, a economia, e deixou consequências, por vir e transformações estruturais em habitações, sistemas de produção e logística inteiros, hábitos, costumes e leis.

Continuamos, como se o mundo não estivesse, nos seus ciclos e tempos geológicos, sujeito a transformações de proporções cósmicas. Talvez deveríamos começar a enxergarmos os avisos, tirar-nos tanto protagonismo e cego orgulho de domadores da natureza. Talvez deveríamos falar mais em concreto da constante de inconsciência, imprevisão, confiança cega, da estupidez dos humanos e menos da mudança climática.

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