CARTA DE BRAGA – “de pedras e de noites pequenas” por António Oliveira

Ouvi na rádio, já lá vão muitas noites, falar de um poeta que não conhecia, Humberto Ak’abal, um guatemalteco filho e neto de xamãs de uma comunidade maia, tendo o quéchua como língua, a que ali se falava antes da chegada dos colonizadores espanhóis e que, por aqueles lados, implantaram o castelhano. 

E também ouvi alguns poemas ditos primeiramente por ele, na língua original, depois na língua que lhe ‘vestiram’ e, uns instantes depois, na tradução em português, feita e lida pela premiada poeta portuguesa, Ana Luísa Amaral, que até o tinha conhecido. 

Mas, de todos os curtíssimos poemas que ouvi, alguns a parecer apenas aforismos (nas palavras da poeta!) recordo estes, que me calaram fundo, até por ter nascido e vivido os meus primeiros anos, numa terra onde eles se aplicariam na perfeição, ‘Não é que as pedras sejam mudas, apenas guardam silêncio’.

Obviamente que a ‘descoberta’ deste nome e da riqueza semântica e semiológica da sua poesia, me levaram ao dr. Google, para me indicar caminhos que pudesse andar, sem tropeçar em minudências dissimuladas e abstrusas, mas confirmei que a net do conhecimento, se liga indissoluvelmente à net da energia e à net da mobilidade, talvez as que poderão estar atrás da revolução digital, a que parece experimentar e ter já encetado uma nova era para o ser humano. 

Não posso nem quero meter-me por este caminho, por só usar o computador para pouco mais do que escrita, leitura e mailing, sem me preocupar com redes sociais, locais ou não, mas a pedir ajuda sempre que uma tecla não quer fazer aquilo que peço, por também já ter aprendido que aquilo é coisa em que não se ‘manda’!

O que me trouxe a esta Carta foi ter lido num sítio qualquer, assinado apenas com um modesto A, ‘A sabedoria ancestral, cosmogonia unificadora com deuses e deusas dos mundos visíveis e invisíveis, nunca criaram rupturas, é a cultura colonizadora que as separa, para exercer controlo e domínio, pela religião monoteísta’.

Muito haveria para dizer neste campo, até por ‘Correrem maus tempos para as religiões; o ateísmo é a doutrina da moda para uma juventude cada vez mais relutante em aceitar crenças sem base empírica, começando a olhar a fé como um conservadorismo antiquado que respeitam, mas em que poucos acreditam’, explicou o cronista Yzan Pérez, já em Fevereiro, no diário ‘Nueva Tribuna’.

Mas um outro erro e uma outra falácia, próprios destes tempos, é encarar o ódio à Igreja como ódio à fé, quando são assuntos radicalmente diferentes. A Igreja, qualquer delas, deve ser vista como uma empresa, com financiação, hierarquia e sedes, sem definir crenças, mas beneficiando-se delas, por lhes serem a base e fundamento da existência, enquanto a religião não passa de um conjunto de ideias, pelo que ‘Abusos, guerras e fanatismos não são fenómenos derivados das religiões, mas dos usos que lhes dão pessoas e instituições’, adianta Pérez. 

E talvez seja bom não olhar só a fé como ‘Um acto ao lado de todos os outros, por ser uma atitude que os engloba a todos, a pessoa toda, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida’ afirma o teólogo Leonardo Boff, razão pela qual a fé ‘não é só boa para a eternidade, mas também para este mundo e, neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária)’.

O maior problema reside no facto de, em tempos como estes, de incerteza, insegurança e inquietação, as pessoas terem tendência para pensar e, talvez recorrer, à figura de um homem forte e, se ele conseguir disfarçar o que pensa, tanto melhor. Aliás, Erica Franz, professora de política na universidade do Michigan, salienta ‘A maioria dos regimes autoritários do mundo tiveram parlamentos, partidos políticos e eleições parcialmente abertas, celebradas regularmente. Não passa de uma farsa, mas funciona: os regimes autoritários com instituições pseudodemocráticas duram mais tempo no poder que os que as não têm’.

Veja-se o que aconteceu por cá até há quase cinquenta anos e o caso da Rússia, onde todos estão condenados a ser ‘putinados’ até 2036, mas outros mais se poderiam acrescentar! 

Li também há alguns dias, que Richard Nixon deixou escrita nas suas memórias, uma frase lapidar, ‘Nas presidenciais modernas, a imagem impõe-se à substância’, reconhecendo que o mais importante são as mensagens atrevidas, os enganos subtis e a manipulação das massas e, tudo isso até veio a terminar num trumpa

Muito mais dramática é esta transcrição de um pedaço do interrogatório de um juiz do Tribunal de Nuremberga, a Herman Goering, o comandante chefe da força aérea alemã e um dos julgados e condenados pelos crimes nazis na Segunda Guerra Mundial. 

E pergunta o juiz:

Como conseguiu que o povo alemão aceitasse tudo?

– Foi fácil. Não teve nada a ver com o nazismo, tem a ver com a natureza humana. Pode fazê-lo num regime nazi, socialista, comunista, numa monarquia e até numa democracia. A única coisa que precisa ser feita para escravizar as pessoas é assustá-las. Se consegue descobrir uma maneira de assustar as pessoas, pode fazer delas o que quiser’.

Por tudo isso e, enquanto posso, volto à enorme riqueza e simplicidade de Humberto Ak’Abal, ‘Sombra: noite pequena ao pé de qualquer árvore’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. Li o teu texto, sozinha, duas vezes…Li-o a 3 amigos que estavam cá em casa e a posição foi unânime . quem, como tu, faz com que se eleve a nossa consciência social? oBRIGADA…Vou paratilhar…Omeu abraço de gratidão e admiração!

  2. Muito obrigado, Amiga minha!
    São as coisas que me vão saindo e, para isso, muito contribuem vocês,
    os meus companheiros permanentes das boas rádios deste país!
    A minha gratidão para ti e todos os que me fazem companhia através do
    microfone e até me fazem dispensar os ecrãs!
    São vocês que merecem a minha e nossa admiração!
    AO

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