CARTA DE BRAGA – “da justiça e fugitivos” por António Oliveira

A expressão ‘Follow the money’, (‘Siga o dinheiro’) passou a ser conhecida em todo o mundo no princípio dos anos 70, devido à investigação para o ‘Washington Post’, feita pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein ao caso Watergate, tida por muitos como a melhor de todas as reportagens de investigação do jornalismo mundial que, aliás, até veio a determinar o afastamento de Richard Nixon da presidência dos EUA. 

Trata-se apenas da adaptação da expressão latina ‘cui bono’ quando, perante um qualquer facto nascido de- e originar também- irregularidades, mentiras e interpretações diversas, se é levado a perguntar ‘quem se beneficia com o crime?’ ou, de acordo com as opiniões do dr. Google, ‘Se você quer saber onde está o centro do poder real no mundo, siga o dinheiro- cui bono”. 

Isto ocorreu-me quando, há alguns dias, (e tendo em conta ter já passado o tempo dos comentários a quente), fomos alertados pela notícia de que um ‘simpático’ senhor descabelado, ao contrário dos seus dois advogados, se tinha escapado para o Belize, afirmando não ter vontade de algum dia regressar a este país, onde teria ‘angariado’ (!?!) fundos suficientes para uma ‘reforma’ merecida.

E também me ocorreu que tal pergunta nunca teria sido sugerida aos investigadores que, em 2008, teriam iniciado a investigação ao BPP, depois dos anunciados 700 milhões de prejuízos só nesse ano, a reflectir as perdas de cerca de 3.000clientes de tal instituição -de benefício privado-, conforme ficou demonstrado.

Curiosamente, o descabelado só em 2014 começou a ser julgado, para vir a ser condenado em três processos, a dez, cinco e três anos de prisão, mas apenas um deles transitou em julgado e só em Setembro último, 13 anos depois dos tais 700milhões e das tais 3.000 vítimas, o banqueiro da cabeça brilhante, perante uma ida eminente para a prisão, ‘emigrou’ para o Belize, com paragem no apeadeiro de Londres, borrifando-se para a Justiça cá do Eucaliptal.

Apetece-me aconselhar todos aqueles que tenham alguns meios para iniciar um ‘negócio’ que envolva milhões, se devem dirigir ao Belize, ou sugerir ao tal sujeito que crie cursos via ‘zoom’, agora tão divulgados pelas restrições do confinamento covidiano, sobre a melhor maneira de ‘fintar’ juízes, provedores, delegados, ministros, governos e parlamentos, mostrando como é mais fácil lesar 3.000 inocentes aforradores, do que um pobre num supermercado, conseguir meter no bolso, sem pagar, um papo-seco para matar a fome e sem qualquer apeadeiro no caminho directo para a ‘reforma’.

Mas há mais lugares para se poder viajar, alguns até mais perto, como a Sardenha, sugerindo mesmo uma ‘maleita’ qualquer na cachimónia, isto sem provocar grandes alterações nos relacionamentos vicinais, regionais ou nacionais, a confirmar pelo que se tem visto em campos diversos nos últimos tempos, a fazer ainda, as delícias dos Woodward’s e Bernstein’s caseiros, que têm, aliás e também, outros mediáticos campos para se evidenciarem. 

A história da modernidade europeia, mostra como o homem seria mais livre se fizesse parte de um colectivo, mas a percepção do mundo mudou drasticamente nos últimos anos, como no número de Outubro do ‘Philosophie Magazine’, afirma o francês Pierre Rosanvallon, catedrático de História Moderna e Contemporânea, ‘A injustiça não é mais avaliada como uma relação de classes, mas como uma relação de cada um com o mundo. A indignação não é mais uma questão de estatísticas, mas uma reacção aos problemas que temos, aqui e agora’.

E apesar destas palavras bonitas, a reflectir as relações individualistas e egocêntricas da -e na- sociedade actual, também não me esqueço do estóico Marco Aurélio, imperador romano do século I, D.C., referindo e classificando como fugitivo, ‘Aquele que se evade das suas obrigações para com os outros’ e, neste caso, ‘lesados’ serão apenas os tais 3.000 lesados do BPP, ou também os outros, nós todos, habitantes do Eucaliptal?

Cui bono?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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