A GALIZA COMO TAREFA – outonias – Ernesto V. Souza

Continuo francamente fora de jogo, sem rumo, tarefa concreta ou propósito nenhum, a deixar passar os dias.

Tratei, ultimamente, como projeto e fim de ciclo, de reunir em documentos (com mais ou menos sentido de conjunto e seguindo a cronologia do narrado) alguns textos velhos, de tema galego, escritos em espaços diversos na rede, entre 2005 e 2020. Muito desse material espalhado é já difícil de encontrar, pois desapareceu (quem ia dizer da fragilidade e obsolescência da modernidade digital) da Internet, na liquidação de blogues, mudanças de servidores e obsolescências de formatos. Nem de tudo tinha cópia direitinha, mas versões, pre-prints ou fragmentos em discos rígidos, memórias e copias CD-ROM .

Levo anos nesta, mas pode-me a parálise: petisco, por vezes assalto com algo de intensidade, mas abandono logo; penso muito nos textos, na estrutura e nas formas, mas dedico tempo real de menos a bem pouco em dar redação, formatação unificada, coerência nas referencias, bibliografias e final. Trabalho ingrato o da edição e o da estirpe dos editores de raça.

Lamento (seja dito um pouco de passagem, mas não sem pouca dor) não ter desfrutado de algum conselho, mais bem de umas últimas conversas, com Pancho Pillado, quem tanto mos reclamou. Que longe nos levou a vida diária do trato e tertúlia de tanta gente de palavra e inteligência generosa. As perdas destes últimos anos foram importantes.

O material dá para dous livrinhos, mas não saberia dizer já se aquilo têm coerência, valor ou qualquer sentido após os anos transcorridos. Para além está a questão de onde e como publicar. E para que. Que sei eu. Na Galiza das tribos é difícil, não sendo parte de nada. E, por outra parte, nunca dei muita importância à escrita. Produzo com bastante facilidade textos. Mas não sei ir além. Não frequento intelectuais e académicos que andam nestas, nem os espaços culturais, vermutes e coquetéis onde se apalavram estes negócios de autoria, livros e editoras.

Os meus escritos, são basicamente como estes de cá. Alguns mais a sério, ou de maior extensão e formatação para-académica. Predominam os breves, humorísticos, exuberantes, arcaizantes e barrocos, não desprovistos de uma certa raiva social.

Não escrevo por arte, nem por prazer; nem escrever é qualquer impulso natural ou necessidade para mim. Escrevo cartas. Escrevi sempre para alguém concreto, por compromisso em projetos ou por pedidos de amizades. Também nunca foi o de escrever uma questão profissional, nem me deu dinheiros ou serviu a produção numa carreira académica ou jornalística. Não pensei nunca que estes contributos servissem para mais que entreter e fazer pensar, escritos sempre para coletivos concretos, para grupos de amizades ou de relacionamento, arredor ou dentro de projetos mais ou menos entusiastas dos que tenho participado.

Mas hoje por hoje, perdi essa gente, esses entusiasmos ou extraviei-me eu desses espaços e maltas. Continuo errante na idade madura, fora de lugar; talvez teria de ter sido docente num liceu de vila pequena, para, quem sabe, dar um sentido e uma ordem aos saberes soltos e um objetivo concreto às comunicações. Isso ou fazer parte de alguma Instituição a sério na que se pesquisasse.

Fiquei demais na margem, e assim, a própria vida e a imagem, como os textos, ficaram como numa névoa estranha. Não sei quem me leia. Pior, quitando algum velho amigo que nada tem a ver com a escrita, ou gente que de quando em quando mantém o trato epistolar digital comigo, não sei agora nem para quem falar, nem para quem falei. Esvaíram as amizades da vista, ou não percebo por perto; não compreendo onde ou a que andam, ou talvez onde eu ando, sem mapa, não me encontram.

É a parte mais feia de estar fora. Desconexo de gentes e de atividades, de trato. As redes sociais assulagam-me em quanto interatuo um pouco: aparece gente de mais, com muitas exigências; pessoal que acha que eu sei do que lhes interessa, do que me falam ou que coincido 100% com as suas teimas, estéticas, ideologias ou projetos.

A única cousa boa é que leio mais, que tenho tempo para ler. Estas tardes soalheiras e solitárias de outono prestam-se para leituras clássicas, de autores cortesãos e primeiros românticos, desiludidos do mundo, do seu governo e das gentes.

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