As consequências do capitalismo neoliberal na Europa de Leste. Por Sheri Berman

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

 Por Sheri Berman

Publicado por  em 6 de Setembro de 2021 (The consequences of neoliberal capitalismo in eastern Europe, ver aqui)

 

Sheri Berman argumenta que a adoção pela esquerda pós-comunista do liberalismo económico bem como político permitiu aos populistas atacarem o liberalismo político.

 

Dziurek/Shutterstock.com

 

Durante a última década, mais ou menos, a euforia associada ao colapso do comunismo transformou-se em pessimismo, uma vez que muitas democracias outrora promissoras na Europa de Leste deslizaram para o iliberalismo e mesmo para o autoritarismo. Compreender por que razão isto aconteceu é crucial não só para os estudiosos da região, mas também para os apoiantes da democracia em todo o mundo.

Uma vez que os países da Europa de Leste são hoje mais ricos do que em 1989, com os cidadãos a terem acesso a produtos e comodidades com que só podiam ter sonhado sob o comunismo, as injustiças económicas são frequentemente descartadas como causas potenciais de apoio aos populistas de direita e ao recuo democrático por eles desencadeado. Mas tal raciocínio assenta numa compreensão simplista da transição e das consequências sociais e políticas do capitalismo neoliberal. Embora a Europa de Leste seja, obviamente, distinta em muitos aspetos, a investigação por estudiosos da região sobre estas consequências tem lições para aqueles que tentam compreender o papel desempenhado pelo capitalismo neoliberal na causa dos problemas da democracia em outras partes do mundo de hoje.

 

Avaliações enganadoras

Um novo livro de Kristen Ghodsee e Mitchell Orenstein, Taking Stock of Shock [Fazendo um balanço do choque], proporciona um excelente ponto de partida. Com base no seu próprio trabalho e no de outros estudiosos da Europa de Leste, Ghodsee e Orenstein deixam claro como podem ser enganadoras as avaliações baseadas em medidas simples e agregadas de crescimento económico, produto interno bruto e assim por diante. Mostram que, embora os países da Europa de Leste sejam de facto mais ricos hoje do que em 1989, chegar lá implicou imenso sofrimento económico e mudanças sociais: a transição para o capitalismo gerou “o maior e mais duradouro colapso económico que atingiu qualquer região do mundo na história moderna”.

Nos países da Europa Central mais bem sucedidos, este colapso foi comparável ao vivido pelos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Noutros países pós-comunistas, foi pior e durou mais tempo – nalguns casos durante décadas. Durante este período, em média, a pobreza aumentou 23 pontos percentuais e “em dez países, incluindo a Polónia, as taxas de pobreza aumentaram 49 por cento ou mais antes de começarem a diminuir”. Ghodsee e Orenstein constataram que “no pico da miséria em 1999, 45% de todas as pessoas nos países pós-comunistas … viviam abaixo da linha de pobreza absoluta de 5,50 dólares por dia”.

Taking Stock of Shock não só detalha o sofrimento experimentado pelas sociedades pós-comunistas, no seu caminho para se tornarem as economias relativamente prósperas de hoje, mas também deixa claro que isto não foi igualmente partilhado. A desigualdade de rendimentos e riqueza explodiu e profundas divisões – entre áreas urbanas e rurais, elites instruídas e trabalhadores, velhos e jovens – produziram-se como resultado da transição.

Isto foi particularmente perturbador, uma vez que antes de 1989 a Europa de Leste estava entre as regiões mais igualitárias do mundo. Além disso, como observam Ghodsee e Orenstein, “uma coisa é cair na pobreza profunda pela primeira vez na sua vida. Uma outra coisa é cair na pobreza quando algumas das pessoas à tua volta estão a desfrutar de níveis de riqueza pessoal anteriormente inconcebíveis”. Isto, segundo eles, deixou “cicatrizes profundas” na “psique coletiva”.

 

Deslocamento social

Além disso, não são apenas as consequências económicas traumáticas da transição para o capitalismo o que se perde com um enfoque no PIB contemporâneo relativamente elevado de que os países da Europa de Leste usufruem hoje em dia. Tal como Taking Stock of Shock deixa claro, o deslocamento social tem sido imenso. Talvez a manifestação mais óbvia seja uma crise demográfica de proporções históricas. Após 1989, a emigração da Europa de Leste foi “sem precedentes em termos de velocidade, escala e persistência em comparação com as experiências de emigração noutros lugares”.

Isto foi acompanhado por um colapso na fertilidade e um aumento na mortalidade. Os homicídios (e o crime em geral) dispararam, juntamente com consumo excessivo de álcool, doenças cardíacas, suicídio e outras “mortes de desespero“, particularmente entre os homens de meia-idade que vivem fora das grandes cidades. Cumulativamente, muitos países da Europa de Leste registaram um declínio populacional semelhante, ou mesmo superior, ao verificado nos países envolvidos em grandes guerras.

Embora o PIB tenha recuperado nos EUA e nos países europeus após a Grande Depressão, todos os estudiosos do período aceitam que o sofrimento económico associado teve imensas consequências políticas. Em alguns países, é claro, isso desencadeou o colapso da democracia. Que um sofrimento económico semelhante, se não mesmo maior, juntamente com as mudanças sociais profundamente perturbadoras vividas pelas populações da Europa de Leste desde 1989, não teriam consequências políticas é inimaginável.

No entanto, porque é que os populistas nacionalistas têm sido tão frequentemente os “beneficiários” das experiências traumáticas da Europa de Leste? Como observam Ghodsee e Orenstein, uma vez que foram os “perdedores” da transição, por vezes referidos na região como “pessoas deitadas fora” – cidadãos mais velhos, da classe trabalhadora, menos instruídos e/ou rurais – que apoiavam desproporcionadamente os populistas nacionalistas, explicar o seu comportamento político é crucial.

Que estes eleitores se tornaram a base dos partidos populistas nacionalistas na região não o foram, como o demonstraram miríades de estudiosos, incluindo David Ost, Maria Snegovaya, Anna Grzymala-Busse, Milada Vachudova, e Gabor Schering, porque eram inerentemente propensos a votar em políticos iliberais e xenófobos. Foi antes porque os populistas nacionalistas, em vez dos partidos de esquerda, se mostraram mais receptivos às suas reclamações económicas.

 

Ardentes campeões

Nos anos após a transição, a maioria dos partidos de esquerda na Europa de Leste tornaram-se ardentes campeões do neoliberalismo – ainda mais do que muitos dos seus homólogos da direita – e no governo implementaram dolorosas reformas neoliberais. Isto permitiu-lhes separarem-se do passado comunista, enquanto que o capitalismo neoliberal foi apresentado como o caminho necessário para a modernização económica pelos partidos de esquerda da Europa de Leste – reformas também defendidas, é claro, pela União Europeia.

O resultado foi que os partidos de esquerda passaram a estar associados ao neoliberalismo e ao sofrimento económico e deslocamento social por ele gerados. Além disso, recusaram-se frequentemente a apresentar-se como campeões dos trabalhadores e outros grupos que perderam na transição. De facto, muitos partidos de esquerda, bem como partidos liberais, viam as concessões aos “perdedores” como uma potencial ameaça ao liberalismo político e económico que tanto desejavam tornar realidade nas suas sociedades.

A ironia, evidentemente, é que ao ligar inextricavelmente o liberalismo económico e político, e não respondendo ao sofrimento e deslocamento social causados pelo primeiro, muitos partidos de esquerda (e liberais) criaram oportunidades para populistas nacionalistas que pouco se importavam com o segundo. Estudiosos, nomeadamente os acima mencionados, mostraram como os populistas nacionalistas apelaram propositadamente àqueles que sentiam que tinham perdido – dirigindo a sua raiva contra “estrangeiros”, “burocratas” europeus e “cripto-comunistas” – e implementaram pelo menos algumas políticas que abordaram as suas queixas económicas. Mais claramente do que na Europa Ocidental, os estudiosos conseguiram traçar o caminho eleitoral de muitos dos “perdedores” do capitalismo neoliberal, da esquerda, dos liberais e de outros partidos, para os braços dos populistas nacionalistas.

 

Lições óbvias

Embora devam ser evitadas comparações fáceis, é difícil não ver algumas lições potenciais óbvias da Europa de Leste. No mínimo, a investigação sobre a transição ali efectuada deveria lembrar-nos que as medidas agregadas de crescimento e desenvolvimento podem esconder um imenso sofrimento económico e que os custos sociais do capitalismo neoliberal podem ser ainda maiores do que os seus custos económicos. Além disso, as consequências políticas do capitalismo neoliberal são frequentemente indirectas e complexas: embora haja pouca correlação entre a riqueza e o sucesso dos partidos populistas nacionalistas, seria um erro ignorar o impacto causal das queixas económicas.

Que estas tivessem consequências políticas antidemocráticas não era inevitável: dependia da forma como os vários actores políticos reagiam a elas. Que os partidos de esquerda (e liberais) muitas vezes não quiseram ou não puderam oferecer respostas a estas queixas, no quadro da democracia liberal, criou uma oportunidade para que outros – não empenhados nesse quadro – o fizessem.

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A autora: Sheri Berman é professora de ciência política no Barnard College e autora de Democracia e Ditadura na Europa: Desde o Antigo Regime até ao Dia de Hoje (Oxford University Press).

 

 

 

 

 

 

 

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