Sobre a Europa de Leste – A decepção da Europa de Leste. Entrevista a Ivan Krastev

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Nota de editor:

Na sequência do artigo que publicámos no passado dia 7 de Outubro de 2021 da autoria de Sheri Berman – As consequências do capitalismo neoliberal na Europa de Leste (ver aqui) – editamos hoje uma entrevista ao politólogo búlgaro Ivan Krastev que, sendo embora de Março de 2020, nos parece manter plena atualidade.

 


A decepção da Europa de Leste

Entrevista a Ivan Krastev

 

 Por Claudia Detsch

Publicado por  em Março de 2020 (ver aqui)

 

Os países da Europa de Leste abraçaram acriticamente o capitalismo liberal ocidental. Hoje, assistem à crise profunda desse modelo e há quem aproveite isso para levar a água ao moinho autoritário. Que se passa nessa parte da Europa, à qual nunca se presta suficiente atenção? Ivan Krastev, reconhecido politólogo e intelectual búlgaro, analisa a situação política da Europa de leste nesta entrevista.

Claudia Detsch (CD): O senhor chama aos 30 anos posteriores à queda do muro de Berlim a “idade da imitação”, quando se pensava que os Estados da Europa Central e Oriental deviam imitar as democracias liberais do Ocidente em vez de seguirem o seu próprio caminho. Como teria sido um verdadeiro modelo de desenvolvimento da Europa de Leste?

Ivan Krastev (IK): Ao finalizar a Guerra Fria, o capitalismo democrático converteu-se em sinónimo de modernidade, pelo que nada tem de estranho ou errado que as sociedades da Europa de leste decidissem imitar as instituições e os estilos de vida ocidentais. O que me parece preocupante é que nos tenhamos surpreendido tanto por se ter produzido uma reação contra a política de imitação precisamente quando o modelo liberal entrou em crise no próprio Ocidente e, ao mesmo tempo, as sociedades da Europa de Leste tiveram a sensação de estarem a ser tratadas como alunos que nunca poderiam diplomar-se.

CD: Qual foi o peso da política ocidental no rumo tomado pela Europa Central e Oriental e quanto se deveu a factores endógenos? Houve algum tipo de engano ou estavam realmente ansiosos por se tornarem estados e sociedades ao estilo ocidental?

IK: Seria injusto culpar o Ocidente pelo fracasso das democracias da Europa de Leste. Mas o Ocidente pode ser acusado de falta de curiosidade sobre a complexa transformação que esta região da Europa sofreu. Mesmo os analistas ocidentais mais empáticos parecem não perceber que a crise democrática em lugares como a Roménia ou a Bulgária é em grande parte o resultado da desilusão popular com as democracias ocidentais e os sistemas que estes países tinham anteriormente admirado e tentado imitar.

Quando o primeiro-ministro albanês, no meio do debate Brexit, comentou na televisão que a Câmara dos Comuns lhe recordava o parlamento bósnio, estava a tentar transmitir a ideia, partilhada por toda a região, de que o desmantelamento simultâneo das normas e instituições democráticas no Leste e no Oeste são expressões da mesma crise subjacente.

CD: Será que os liberais arrogantes de outrora aprenderam a lição?

IK: Hoje em dia, a maioria dos liberais estão zangados ou assustados. Sentem-se traídos pela história ou, para ser mais preciso, pela ideia do “fim da história”. Para aprenderem a lição, devem estar preparados para reconhecer que nem tudo o que os seus críticos disseram estava errado.

 

CD: É definitivo o fracasso do liberalismo na Europa de Leste, dado que o êxodo de pessoas jovens e formadas está a prejudicar as hipóteses dos partidos liberais?

IK: Os receios demográficos desempenharam um papel fundamental na ascensão de regimes políticos antiliberais na região. Nas sociedades do Leste envelhecidas e em retracção demográfica, muitos jovens estão convencidos de que se querem viver num país democrático, a melhor coisa a fazer é ir para o estrangeiro em vez de lutar para mudar o governo.

Mas, ao mesmo tempo, seria um erro falar do fracasso definitivo do liberalismo na região. O que estamos a testemunhar é o ressurgimento de um novo liberalismo pós-populista, como resultado da experiência de sociedades que vivem sob paradigmas populistas. Este liberalismo é diferente do liberalismo imitativo dos anos 90. Por exemplo: o presidente da Eslováquia e o recém-eleito presidente da câmara de Budapeste não falam inglês; falar línguas estrangeiras era um dos símbolos do novo liberalismo da Europa de Leste.

CD: Porque é que o espectro da imigração em massa é uma narrativa tão poderosa para os líderes populistas da Europa Oriental, enquanto que provavelmente a maior ameaça às suas sociedades é a emigração em massa?

IK: Como George Steiner uma vez escreveu, “as árvores têm raízes, enquanto as pessoas têm pernas”, e as pessoas usam as suas pernas para ir a lugares que parecem melhores, onde pensam que poderão viver uma vida melhor. Nós, europeus de Leste, estamos muito conscientes disto porque somos migrantes. Paradoxalmente, a hostilidade dos europeus de Leste em relação à imigração é produto do trauma causado pela fuga de muitos dos seus compatriotas que decidiram deixar o país, e do medo da diversidade étnica presente no ADN dos Estados da Europa de Leste. Este medo teve origem na desintegração dos impérios continentais multiculturais da Europa – Habsburgo, Otomano e Soviético.

No século XX, as revoluções, as guerras mundiais e as ondas de limpeza étnica mudaram o mapa étnico da Europa. Todos estes traumas e revoltas deixaram para trás uma Europa cujos estados e sociedades são mais, e não menos, etnicamente homogéneos. No século XX, a homogeneidade étnica foi vista como uma forma de reduzir tensões, aumentar a segurança e reforçar as tendências democráticas. As minorias eram vistas com desconfiança.

A homogeneização étnica é particularmente visível na Europa Central e Oriental. Em 1939, quase um terço da população da Polónia não era de etnia polaca: havia importantes minorias alemãs, judaicas, ucranianas e outras. Hoje em dia, os polacos étnicos são responsáveis por mais de 95% dos cidadãos polacos. Neste canto da Europa, a homogeneidade étnica é considerada por muitos como sendo essencial para a coesão social.

No entanto, o século XXI está a trazer mais diversidade. Se o século XX na Europa foi o século da pureza, o século XXI é o século da mistura étnica. Por detrás do desafio migratório que os países da Europa Central e Oriental enfrentam, existe um desafio intelectual: para enfrentar com sucesso a migração, estas sociedades terão de desaprender o que muitos deles ainda vêem como a principal lição do século XX: que a diversidade étnica e cultural é uma ameaça à segurança.

CD: A reputação do liberalismo na região nunca recuperou da crise de 2008. Poderá uma reforma abrangente do capitalismo tirar o vento às velas populistas, ou será que o navio zarpou?

IK: Quando a História terminou e a Era da Imitação começou em 1989, o Leste enamorou-se do Ocidente. Simultaneamente, e em parte como resultado, o Ocidente apaixonou-se por si próprio. Lisonjeados pelo desejo do Leste de se refazer segundo o modelo ocidental, os decisores políticos ocidentais perderam toda a perspectiva crítica sobre as deficiências das suas próprias sociedades.

Tornou-se agora claro que mudar o modelo económico é uma condição prévia para restaurar a confiança dos cidadãos na democracia liberal. Na segunda metade do século XX, a democracia conseguiu domar o capitalismo; no século XXI, não conseguiu fazê-lo. Mas a mudança de modelo económico não significará um regresso às políticas económicas do período social-democrata clássico. A nostalgia não é suficientemente poderosa para se voltar atrás no tempo.

CD: Continua a ser optimista em relação ao projecto europeu, ou será que o fizemos abortar?

IK: O que os optimistas e pessimistas partilham é uma visão determinista da história. Ser optimista ou pessimista é pretender saber o que acontecerá no futuro. Para mim o futuro é a invasão do desconhecido, por isso não sou nem optimista nem pessimista. Estou preocupado mas esperançado: preocupado porque penso que a desintegração da União Europeia é uma opção realista, mas também esperançado porque não gostaria de viver numa Europa pós-União Europeia.

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O entrevistado: Ivan Krastev é investigador no Instituto de Ciências Humanas em Viena. Ele escreve regularmente para o The New York Times. Escreveu numerosos livros sobre democracia, liberalismo e a Guerra Fria.

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A entrevistadora: Claudia Detsch chefia o departamento editorial da revista Internationale Politik und Gesellschaft. É socióloga, e foi editora da revista Nueva Sociedad. Entre 2008 e 2012 dirigiu o escritório da Fundação Friedrich Ebert no Equador.

 

 

 

 

 

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