CARTA DE BRAGA – “de migrantes, consumos e outras niquices” por António Oliveira

Refugiado climático, é todo aquele que se vê obrigado a abandonar a sua terra, pelas terríveis consequências das alterações do clima, tais como a seca e o final dos recursos próprios para a alimentação, chuvas torrenciais, inundações ou o aumento do nível do mar, tudo a provocar uma fuga desesperada, carregando filhos e misérias em direcção aos países teoricamente mais ricos, à procura de um tecto, um pão e um trabalho. 

Inclui-se naquela enorme classe indeterminada e raramente bem acolhida dos ‘migrantes’, que chegam a qualquer lugar distinto do seu território natal, sem ser convidados. E são ‘migrantes’ todos os que, por razões variadas e muitas vezes, interdependentes, têm necessidade de fugir devido a conflitos armados, políticos e ou económicos. 

O grande problema é a inexistência de uma actualização do Estatuto de Genebra, assinado em 1951, que define como refugiado todo aquele que se vê obrigado a sair do seu país ‘devido a um medo fundamentado de ser perseguido por razões de raça, religião ou nacionalidade’, salientando o dever de asilo a todas as pessoas forçadas a emigrar por qualquer daquelas razões. 

Mas nada há a apoiar ou a defender todos os que saem dos seus lugares devido às alterações climáticas, nem existem tratados ou convenções internacionais a defender o ‘refugiado climático’, apesar de a maioria dos governos ter uma enorme responsabilidade sobre o que está a acontecer, ‘porque os migrantes climáticos são vítimas directas da vulneração sistemática dos tratados referentes ao clima, nos últimos trinta anos, feita pelas respectivas administrações’, afirma um antropólogo e presidente de uma das comissões internacionais de ajuda aos refugiados. 

A crise climática ‘empurra’ fortemente as populações mais vulneráveis; os furacões e os incêndios florestais também se converteram em fábricas de emigrantes, obrigando todos os anos, milhares de pessoas a sair do seu lugar. O acesso à água, um dos maiores problemas do Sul Global, aumenta muito mais o caudal das migrações, cada dia mais difíceis de colmatar, passando até algo despercebidas nos grandes meios de comunicação social e a ONU já reconheceu haver 5.000milhões de pessoas com problemas de acesso a este bem essencial. 

Já no princípio deste século, o investigador da Universidade de Oxford, Norman Myers, previa que, em 2050, ‘quando o aquecimento da Terra, atingir o seu máximo, 200 milhões de pessoas serão afectadas por secas violentas, abundantes fenómenos monçónicos, subida do nível do mar e degelo das montanhas’ e o Comité dos peritos em temas climáticos com sede em Paris, adiantou há pouco tempo, ‘1.200 milhões de pessoas, vivem em zonas de risco pela subida do mar e pelo degelo das montanhas’. 

Aliás o mesmo Comité advertiu em Agosto passado, que as mesmas potências que se tinham comprometido em 2015, no último Acordo de Paris sobre o clima, nem sequer tinham apresentado um só projecto realmente eficaz e, há uns dias, recomendaram aos grandes actores financeiros que deviam acabar com o apoio à expansão de petróleo e gás, assim como às empresas que não anulem rapidamente todos os seus projectos nestas áreas.

Junte-se a isto tudo o facto de o dia 29 de Julho ter sido aquele que ‘marca a data em que a procura de recursos e serviços ecológicos, excede o que a Terra consegue reabilitar neste ano’, de acordo com o World Wild Fund for Nature, o que quer dizer que em apenas 210 dias, a humanidade consumiu os recursos que a Terra consegue regenerar num ano, como se o que a população tivesse à disposição 1,6 planetas. 

E enquanto tudo isso nos vai afligindo, soubemos também há dias, que alguns ‘meninos ricos’ e outros ‘ricos meninos’, ligados a sectores fulcrais da nossa sociedade, da política à cultura e do desporto às cantigas, se entretêm a amealhar em paraísos que dizem fiscais, para se salvaguardarem dos cortes na Segurança Social e do desinvestimento na Saúde, porque até o que não foi feito na Educação não lhes interessar nem um chavo e, por isso, desviam o que apanham para os tais paraísos, onde os fundos nunca são verificados. 

É de ter atenção que mesmo uma associação que devia ser exemplar, os ‘Legionários de Cristo’, que até chegou a beneficiar de bênção e protecção papal, tinha ali ‘agachados’ quase 300 milhões! 

Tudo divulgado por uns chamados ‘Pandora Papers’, a demonstrar como a educação faz falta, porque a abundância de dinheiro está muito bem acompanhada pela incrível e inexplicável morosidade da Justiça e pela mesma quantidade de pouca vergonha. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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