A GALIZA COMO TAREFA – luas – Ernesto V. Souza

Aproveitando o festivo patriótico de outubro na Espanha, improvisamos uma escapada na Irlanda. Dublin-Kilkenny-Waterford-Dublin. Comboios, aviões, autocarros, luas no périplo Valladolid-Madrid-Dublin. Cinco dias e volta, tudo um tanto à carreira, por ver os filhos que este ano estudam fora da casa.

Gostei e prestou-me a visita. Mais frio e pouca chuva. Um tempinho jeitoso para caminhar pelas ruas. Passeamos pelo centro de Dublin, tomamos umas quantas Guinness e cafés, e observamos muito as gentes e o algo o mundo arredor. Conversamos muito sobre a vida e o futuro, e rimos mais.

Uma olhada ligeira, que o tempo dá para pouco, a muita cousa e um ir e vir refletindo sobre uma nação emergente e ainda em boa parte a se fazer diante dos olhos; sobre o celtismo; a paisagem atlântica sem eucaliptos, o cemitérios à vista das estradas; o pouso britânico, as lutas pela independência, a cultura em debate e construção; a arquitetura eduardiana, vitoriana, o modernismo, as pontes, escadas de ferro e vitrais, tijolo industrial conservado e integrado. Enfim, passeios entre a clássica estátua do libertador O’Connell e o obelisco épico de Parnell.

Encontramos no St. Stephen’s Green, o retangular parque público, um percorrido de paneis contando a famosa história e anedotas da revolta da Páscoa de 1916 e a defesa do Parque entre a beleza das velhas árvores. Vimos placas, ruas, estátuas e museus por fora e alguma formosa livraria por dentro. Em Waterford, uma deliciosa vila da costa sul-leste, no Munster, a beiramar, uma torre normanda, barzinhos, pubs, mais livrarias, placas históricas, santos policromados em estátuas, por toda a parte, mais risos e uma maravilhosa explanada diante do museu.

Vi realmente bem os filhos, felizes, ativos, contentes, com muitas histórias em pouco tempo, a enxergar tudo avidamente e com amizades e colegas de lugares diversos, para além dos irlandeses. Um ano de imersão multicultural e com os celtas do norte, após do que levam da casa, não lhes vai fazer mal.

De companhia da viagem, para ler nos comboios, autocarros e aviões (a minha mulher tem – como Winston Churchill – a reparadora habilidade de dormir em qualquer transporte conhecido) levei a Autobiografia de Stuart Mill.

Comprara não sei quando nem onde, mas apanhei no último momento, na hora de sairmos da casa. Pelo tamanho, peso e formato; por caber justo no peto do casaco ligeiro que levei e por estar solidamente encadernado.

Um volume adequado, achei, para o choio. Hesitei, tenho de dizer, entre este e uma edição da Historia cómica dos Estados e Impérios do Sol, de Cyrano de Bergerac, traduzido a castelhano por J. Chabás y Martí, um outro livrinho desses da Universal de CALPE dos anos 20, em que ultimamente lhes teimei. Mas o exemplar meu estava em piores condições físicas, e ademais já lera esta fantasia satírica há anos.

O de Stuart Mill não me convencia de início. Apenas lembrava a personagem como um nome na listagem de Malthus, Adam Smith, David Ricardo e em relação ao liberalismo inglês, o imperialismo, o utilitarismo vagamente formulado nas aulas de História e filosofia do Colégio, e o início dos estudos económicos. Mas afinal, vencidas as reticências, predominou a urgência e a lógica da adequação do formato.

Um livro jeitoso, de bolso, da Coleção World’s Classics da Oxford, tela pasta, industrial azul e prólogo e notas, nada menos que por Harold Laski. 2a reimpressão, de 1931, da edição de 1924, onde se publicaram também vários discursos inéditos. O volume vai dedicado, por Laski, com humor e cumplicidade a Augustine Birrell, político, escritor, humorista (e, por acaso, um dos responsáveis, protagonistas britânicos nos anos prévios e durante a revolta da Páscoa):

WHOSE LOVE OF BOOKS IS AN ASSURANCE THAT

THESE PAGES WILL HAVE ONE READER

H. J. L.

16h April 1924.

A World’s Classics é outra dessas enormes coleções de maravilhosos livros pequenos. O Cânone Ocidental inteirinho em exemplares cuidados, sólidos, bem impressos, bons para ler, em preços  populares; ensaios, clássicos para estudantes, ficção, poesia, pensados para o bolso dos escolares, dos universitários e toda aquela gente que procura novidade e formação.

A propaganda, na altura, descreve bem o produto. O volume acompanha páginas com publicidade e um cumprido catálogo das últimas novidades, que só numa olhada já admira.

E não foi apenas que fiquei no paratexto: apaixonou-me a narrativa de S. Mill. Surpreendeu-me muito, de facto. A parte final, na maturidade, quando se vai libertando (sempre com respeito e agradecimento) da sombra paterna e antes e depois da breve vida parlamentar; e também da famosa primeira parte, relativa à sua educação infantil: rigorosa, com base nos clássicos gregos, na lógica e matemática, filosofia e pensamento económico. Uma educação experimental, complexa, dura, exigente, autónoma mas completamente organizada pelo esforço e radicais teorias pedagógicas e filosóficas do seu pai, James Mill, o também filósofo, publicista, orientalista escocês e famoso autor da História da India Britânica.

Arrepia, grego a partir dos três anos, latim aos nove, uma constante de estudos e leituras clássicas, científicas, escolásticas, retórica, filosofia, matemática de todo tipo, e consumo constate da melhor prosa inglesa e depois francesa; para, a partir dos 12 anos, ser um colaborador habitual nos trabalhos do seu pai e dos círculos de intelectuais e escritores benthanistas, utilitaristas, liberais, socialistas, sufragistas.

Assíduo da imprensa polémica, propaganda e do debate, impressiona a contagem de leituras, análises, resenhas, anotações, resumos, fichas, revisões de originais, antes dos 25 anos; o epistolário com toda a pesada da intelectualidade britânica e continental na virada do mundo que se dá entre a década de 20 e 50 no século XIX. Depois a imprensa, as revistas, as monografias, a defesa da Irlanda, a condena da escravidão da mulher e a reivindicação constante do direito à educação, ao voto feminino e à participação na vida pública e social.

Desfilam os principais protagonistas do radicalismo liberal do Reino Unido e parte do continente. Mestres, filósofos, escritores, oradores e políticos.  O universo da “reação” cultural e das revoluções contra o século XVIII e os restos da política e pensamento do Antigo Regime. A cultura das primeiras seis décadas do agitado século XIX.

Fascina assistir, como quem se debruça sobre umas confissões, à enumeração de leituras e estudos do longo processo de formação e educação sob tutela paterna e depois; as suas descobertas, colegas, mestres, leituras, formação dos seus escritos; e ver também as suas crises, hesitações, e autocrítica. A sua participação fora do espaço universitário regular, desde publicações e revistas, e entanto trabalha como funcionário, como o seu pai, na Companhia Britânica das Índias Orientais; na construção e debate da filosofia, o pensamento liberal, a lógica, os direitos civis e por um breve período da política parlamentária britânica.

J.S. Mill & H. Taylor (fonte Wiki)

Surpreende também, entre a rigorosa formação das duas primeiras décadas e no exaustivo relatório das tarefas, exercícios e proezas intelectuais, a ausência de carinho, de uma sentimentalidade afetiva (que ele chega depois a colocar em paralelo para corrigir com a ausência também de um apreço pela arte e a música) que se contraponha com a análise intelectual e a lógica analítica. Em todo o discurso há apenas umas quantas referencias aos irmãos e nenhuma à mãe, ou a qualquer outra família. Há apenas as referencias admirativas à sua amiga, companheira, colaboradora e depois esposa, a também intelectual, poeta e defensora dos direitos da mulher, Harriet Taylor e à filha dela, também uma precursora dos direitos da mulher, e que terminaria sendo, após a morte da mãe, a sua principal colaboradora.

De qualquer jeito, havia muito tempo que não topava uma biografia intelectual de tanta intensidade. Mais que a precocidade forçada e o trabalho diria que predomina a ideia da velocidade, do ritmo que lhe impingira o seu pai para propositadamente adiantar 5 lustros. Porém, mais que o orgulho pela sua valia pessoal, destaca com humildade ser fruto deste trabalho e orientação paterna, e em falando sobre a sua educação, esforços e pensamento, sobre a aprendizagem, comunica o intenso prazer da descoberta e do trabalho intelectual. Vieram-me saudades do José Paz e por sua vez pensei, era o caso, a respeito da educação dos próprios filhos. Bem que eu dou mais valor às questões afetivas e sentimentais e deixo que vaiam pela sua conta tomando-lhe o pulso ao mundo.

Recuperei depois, de volta na casa, uma edição de On liberty, trabalho que dedica à memória da sua companheira e onde testemunha a sua colaboração indispensável:

To the beloved and deplored memory of her who was the inspirer, and in part the author, of all that is best in my writings—the friend and wife whose exalted sense of truth and right was my strongest incitement, and whose approbation was my chief reward—I dedicate this volume. Like all that I have written for many years, it belongs as much to her as to me; but the work as it stands has had, in a very insufficient degree, the inestimable advantage of her revision; some of the most important portions having been reserved for a more careful re-examination, which they are now never destined to receive. Were I but capable of interpreting to the world one half the great thoughts and noble feelings which are buried in her grave, I should be the medium of a greater benefit to it, than is ever likely to arise from anything that I can write, unprompted and unassisted by her all but unrivalled wisdom.

Tenho numa edição castelhana de La Nave (outra coleção de livros populares, um bocadinho mais caros, numa estética cuidada, tela e tipografia e destaques de vanguarda), dos anos 30. Um livro que comprei há muitos anos e li em Montevideu, mas só agora relacionei ambos. Lembro também que gostara daquela, mas é possível que hoje gostasse mais. Talvez re-leia, nesta, ou noutra edição na mesma onde, em inglês, da Everyman’s Library (Utilitarianism, Liberty and Representative Government, London ; New york, reimp. 1947, nº482), que tem esse e outros ensaios. Algum dia encontrarei uma edição jeitosa de A System of Logic, Ratiocinative and Inductive, algo me diz que vou gostar.

Com Stuart Mill, acho que fecho esta fase introspetiva, de leituras memorialistas ou escritas do eu. Talvez seja tempo de voltar de novo a Scórpio, esse conjunto de depoimentos, esse poliedro de vozes corais, com que Carvalho Calero logrou deixar testemunho da sua geração galeguista e republicana quebrada pela Guerra civil espanhola, ao mesmo tempo que consolidava um género maior (o narrativo, romance histórico) e pretendia, com amores personagens fan-service e aventura, um best-seller popular, para a Literatura Galega.

Leave a Reply