CARTA DE BRAGA – “de Kabul e de estranhos” por António Oliveira

 

As consequências da queda de Kabul vão arrastar-se durante muitos anos (basta pensar no paranoico bielorusso Lukashenko!) e, será absolutamente necessário, avaliar a posição do ocidente, em tudo o que refira e analise as relações com povos e sociedades que tenham culturas estruturalmente diferentes. 

A ‘conquista’ das Américas pelo mundo europeu, já foi um sinal do que seria qualquer iniciativa para ‘conquistar’ o extremo oriente, apesar das quedas da Indochina dos franceses e do Saigão dos americanos. 

Como diz Boaventura Sousa Santos, ‘A perspectiva da penetração, da pilhagem, da eliminação/assimilação, sobrepôs-se a tudo mais no investimento cognitivo feito pelos colonizadores. Tudo o que colidisse com tais perspectivas foi considerado como não existindo (civilização/cultura), irrelevante (técnica), atrasado ou perigoso (canibalismo, superstições). Produziu-se, assim, uma imensa sociologia das ausências. Com o tempo, as exigências de sempre (as tais perspectivas) obrigaram a um investimento cognitivo mais sofisticado, mas todo ele foi sempre orientado para os mesmos objetivos de dominação. Assim surgiram a antropologia colonial, a medicina tropical, a história colonial, o direito colonial, etc’.

Ao mesmo tempo, a partir dos anos noventa e na Europa, as políticas sociais, agrárias, de igualdade, foram consideradas um caminho aberto para a bancarrota, defendendo a necessidade de aproveitar os melhores e os mais capazes, para ‘orientarem’ os dinheiros públicos europeus, liberalizando e, diz o cronista Pedro Luis Angosto, ‘converter o emigrante num delinquente a quem se poderia explorar miseravelmente, bater, vexar, insultar, encarcerar ou repatriar, como um animal sem casa’.

E os novos intelectuais seguidores e vindos da ‘escola de Chicago’, ‘Promoveram e autorizaram os despedimentos de qualquer maneira, as deslocalizações industriais e de corporações transnacionais, impediram o Estado de ser proprietário de empresas e serviços essenciais como a electricidade, desfalcaram o ensino e a saúde pública, assumiram o tecido produtivo dos países e, enquanto nos afogavam com hipotecas, punham os seus dinheiros a salvo de qualquer tempestade’, adianta Luis Angosto. 

Outros e novos caminhos são necessários agora, para definir também outras e novas estratégias de desenvolvimento local e global, mas que também passam pelo aproveitamento de dezassete minerais pouco comuns, localizados em áreas limitadas da Terra, mas essenciais para o funcionamento de uma turbina eólica, para ligar o ecrã de um monitor, para a vibração de um telemóvel ou para a alimentação do automóvel eléctrico e para lasers, fibra óptica ou supercondutores. 

E, curiosamente, ‘O novo modelo económico de baixas emissões, necessita de alguns e poucos elementos que estão também em poucos países do planeta’ e só três produzem 75% das necessidades mundiais de lítio, cobalto e outros metais raros, a China, o Congo e a Austrália, com a China a controlar cerca de 90% da capacidade de processamento das terras raras do mundo. Aliás, um estudo recente da Agência Internacional de Energia, aponta para um ‘Desajustamento entre as ambições mundiais para lutar contra o clima e a disponibilidade dos minerais críticos, necessários para satisfazer tais ambições’, como o fiasco e a quase frustração da COP26 de Glasgow demostrou. 

É que pagar a outros países para continuar a contaminar, mostra bem como as finanças tomaram conta da política e, por arrasto, do andar e viver deste mundo, este onde penamos todos, muito mais os que não podem comprar doses apropriadas de ética, para serem usadas de acordo com a ocasião, de preferência para poderem ultrapassar as barreiras e as tropas com que os contaminadores blindam as próprias fronteiras. 

Todo um cenário quase apocalíptico que leva o filósofo esloveno Slavoj Zizek, a advertir ‘O capitalismo global vive nova crise. Em seu âmago, está o descontentamento com o poder de bancos e corporações. Na disputa das maiorias, a ultradireita já se antecipou’ e, acrescenta mais ‘os imigrantes e a pandemia não nos invadiram, nós é que somos os responsáveis pelos dois. Sem a intervenção dos EUA no Iraque e em outros países, haveria menos imigrantes; sem o capitalismo global, não teríamos uma pandemia. Além disso, é exatamente por causa da crise imigratória e da pandemia que precisamos de uma união europeia ainda mais forte’. 

Há muitos anos, nos princípios do século XX, este problema do ‘medo’ das diferenças, dos estrangeiros e dos estranhos, foi liminarmente exposto pelo músico e compositor Gustav Mahler; ‘Sou três vezes apátrida: como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda parte, um intruso; em nenhum lugar, desejado’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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