CHICO BUARQUE, ANOS DE CHUMBO E OUTROS CONTOS – por MANUEL SIMÕES

 

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Quando, em 2019, lhe foi atribuído o prémio Camões, alguém com ar de dúvida me questionou se eu achava que o conhecido cantor de muitas e celebradas canções merecia tal distinção. Respondi que Chico Buarque era também autor de vários e reconhecidos romances (Estorvo, 1991; Benjamin, 1995; Budapeste, 2003; Leite derramado, 2009; O irmão alemão, 2014, entre outros) mas que bastaria ser o autor das letras e das músicas de A banda, de Valsinha ou da excepcional composição que tem como título irónico Construção para merecer a pleno título o prémio Camões. A juntar a isto, Chico Buarque é autor de textos dramáticos como a Ópera do Malandro, e é autor da música e encenação do inolvidável espectáculo Morte e Vida Severina (o texto é, como se sabe, de João Cabral de Melo Neto) que o TUCA apresentou em Portugal nos anos sessenta em apenas duas exibições permitidas, a do Teatro Avenida em Lisboa, e a do Teatro Gil Vicente em Coimbra.

Chico Buarque publica agora o seu primeiro livro de contos, pondo em evidência Anos de Chumbo, a última das oito narrativas, cujo título não pode deixar de remeter imediatamente para os anos da ditadura militar brasileira, aqui ficcionada através dos jogos de dois miúdos com soldadinhos de chumbo, mas cujos pais, capitão e major, se dedicam a outra espécie de “jogos”. O narrador, filho do primeiro, refere que o major era visita assídua da casa e que «passou a vir mesmo nas noites em que o meu pai dava plantão no quartel», numa relação equívoca que envolvia a esposa do capitão: «eu soube que era ele, o major, quem delegava ao capitão, meu pai, missões especiais que deveriam nos orgulhar, à minha mãe e a mim».

O major elogiava o capitão pelo sentido do dever, a disciplina, o respeito à hierarquia, o patriotismo. E refere ainda a personagem do narrador: «A todo o oficialato ele se impunha pelo exemplo, como ao sacrificar suas horas de repouso e lazer no recesso do lar para se ocupar dos seus prisioneiros noite adentro. O major explicava à minha mãe que esses delinquentes, tanto homens quanto mulheres, ficavam horas pendurados numa barra de ferro, mais ou menos como frangos no espeto. Daí meu pai ensinava à sua equipe como introduzir adequadamente objetos naquelas criaturas. Ele enfiava objetos no ânus e na vagina dos prisioneiros.

Num registo irónico e de forma concisa, este episódio relaciona-se, sem qualquer espécie de dúvida, com a famigerada tortura conhecida por “pau de arara” e infligida a quem caía nas garras da ditadura militar. Uma realidade agora transposta para uma expressão literária que configura, na globalidade dos contos, a degradação moral de uma sociedade no limite de aceitação do sórdido como normalidade.

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