CARTA DE BRAGA – “do turbocapitalismo” por António Oliveira

A queima de combustíveis fosseis sai-nos extremamente cara! Qualquer coisa como quatro milhões e meio de mortes prematuras e quase três biliões de dólares por ano. Assim, por extenso, para que as pessoas interiorizem melhor a dimensão da tragédia que os amontoadores e colecionadores de dinheiros, sejam eles de onde forem e onde estiverem, nos estão a proporcionar, sem nada termos pedido, mas que estamos a pagar e bem, mesmo contra a nossa vontade.

Estes números são já do ano passado e foram divulgados num estudo divulgado pelo Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA) e pela Greenpeace, onde se descriminam todos os gases e partículas contaminadoras da atmosfera terrestre, particularizando aqui o caso das microscópicas partículas PM 2’5 que, só por si, provocam a morte de 40.000 crianças e 4 milhões de novos casos de asma infantil, cada ano que passa. 

Números que, com mais os outros efeitos da contaminação derivados da queima dos combustíveis fosseis, dão origem aos gastos financeiros assinalados, não só os feitos com a saúde de todos, mas a contar também com os do absentismo laboral, provocado pela má qualidade do ar que respiramos, apontado no mesmo estudo, como mais de um bilião de dias de trabalho perdidos, devido à contaminação. 

Um outro estudo feito e divulgado pela Tax Justice Network (TJN), pela Alianza Global para la Justicia Fiscal e pela federação sindical mundial Public Services International, diz que os 483.000 milhões de dólares em perdas fiscais mundiais, seriam suficientes para ‘vacinar o mundo inteiro três vezes’ e, apesar de os países mais pobres perderam muito menos na evasão fiscal (40.000 milhões), esta mesma importância representa quase metade dos orçamentos para a saúde de tais países. 

Este mesmo estudo identifica os países ricos que integram a OCDE, como sendo a fonte da maior parte do abuso fiscal global, pois os membros da OCDE e dependências, deliberadamente criadas, são responsáveis por 78% de todas as perdas fiscais globais, incluindo também mais de 90% da evasão fiscal individual. 

Mas o ‘turbocapitalismo’ vigente, na feliz e cínica denominação do jornalista asturiano Victor Guillot, com as suas Sextas Feiras Negras, Facebook, Amazon, PayPal e Ticketexpress, tudo a pedir fidelidade a marcas e lugares de mostra e venda, entendendo o ‘eu’ e o ‘tu’ como objectos de luxo, ligados por móvel em rede uniformizada, estabelece e fixa tudo como a maneira mais fácil e cómoda para atingir a felicidade, sem ter qualquer contratempo. 

A completar todo este quadro, Octavian Bivol, representante da ONU no recente Fórum Europeu em Matosinhos, afirmou que a pobreza está a aumentar globalmente pela primeira vez em vinte anos, salientando ainda ‘De acordo com ao Banco Mundial e a Agência Ambiental Europeia, a pandemia levou mais de 97 milhões de pessoas à pobreza e a tendência continua. Na União Europeia, os danos causados por desastres naturais resultaram numa perda económica média, de 12 biliões de euros por ano entre 1980 e 2020 e afetaram quase 50 milhões de pessoas’.

Parece claro que o capitalismo não é só uma forma de poder económico, mas sim uma ideologia que sustenta e mantém sistemas políticos, uma maneira insidiosa de se entender e fazer política, usando para tal, todas as instituições estatais, de tal maneira que o filósofo Santiago Alba Rico, num artigo publicado no passado fim de semana, alerta para coisas piores do que o neoliberalismo ‘O estádio superior do capitalismo é a mafia ou, mais exactamente, o feudalismo mafioso, e é tão grande o perigo e tão pequena a nossa margem de manobra, que só se deve governar com medidas e palavras concebidas para a maioria’.

Parece também, tomando por base este alerta e os números atrás citados, que todos pagamos para ser explorados, como na anarquia que caracterizou o tempo dos muitos senhores feudais, que me faz retornar ao grande escritor e homem político que foi Victor Hugo, por dizer as mesmas coisas por outras palavras, pois já em Julho de 1849, profere na Assembleia francesa, um discurso protestando contra a inacção do poder perante a pobreza extrema, protesto que correu e corre mundo, e termina com esta frase ‘Pensai bem Senhores, é a anarquia que abre os abismos, mas é a miséria que os cava’. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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