Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 6ª parte – Acompanhando o decurso da batalha entre democratas e republicanos nos Estados Unidos – 6.3. “Aqui está o que Joe Manchin e Kyrsten Sinema pensam às 3 horas da manhã”, por Michael Tomasky

 

Nota de editor:

Dissemos em Outubro passado, ao apresentar a 5ª parte desta série:

“A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá. “

Enquanto os democratas de matriz conservadora e neoliberal, na racionalidade que lhes é própria, fazem campanha contra os programas de recuperação de Biden, como é o caso de Summers e outros, enquanto senadores como Joe Manchin, Sinema e Feinstein bloqueiam as iniciativas da esquerda democrata no Senado, impondo cortes sobre cortes e abrindo caminho a uma vitória de Trump nas eleições intercalares, o mercado financeiro na “racionalidade” que lhe é própria, começa a preparar a estrutura financeira para alimentar a campanha que poderá levar de novo Trump à Casa Branca.

Na 6ª parte desta série (que permanecerá em aberto), apresentamos textos sobre a luta que decorre neste momento no Capitólio dos Estados Unidos e fora dele, entre Democratas e Republicanos, e também no seio dos próprios Democratas, como é o caso do projeto de lei Build Back Better aprovado pela Câmara dos Representantes em 19 de Novembro e que agora transita para o Senado.

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6.3. Aqui está o que Joe Manchin e Kyrsten Sinema pensam às 3 horas da manhã

 Por Michael Tomasky

Publicado por  em 1 de Novembro de 2021 (original aqui)

 

O senador Joe Manchin deixa o Capitólio dos EUA após uma votação a 27 de Outubro. DREW ANGERER/GETTY IMAGES

 

Se lhe parece que os dois senadores desobedientes têm pouco desejo de fazer parte da Equipa Biden, não está enganado.

 

Parece que os democratas finalmente se dirigem para a aprovação de alguma versão da agenda Biden, pelo menos na Câmara. Assumindo que isso aconteça, o projeto de lei Build Back Better será transferido para o Senado. É um pouco difícil imaginar Joe Manchin e/ou Kyrsten Sinema a afundarem a peça de legislação assinada pelo seu presidente nesse momento tardio. Mas quem sabe com esses dois o que pode acontecer?

Todos nós lemos uma centena de explicações para o porquê de a dupla se comportar como se comporta. Há a explicação da corrupção. No caso de Manchin, esta é construída em torno das notícias noticiadas pela The Intercept de que ele lucrou com uma série de companhias de carvão nas quais ele tem uma participação desde há anos. Na caso de Sinema a questão assenta nas suas contribuições de campanha e na revelação de que está literalmente, neste momento, a ensinar um curso no Estado do Arizona sobre angariação de fundos. Existem outras explicações mais baseadas na personalidade, e outras mais políticas, sobre os seus respetivos estados.

Penso que há uma forma melhor de o dizer: Manchin e Sinema não vêem os seus destinos como ligados ao de Joe Biden. Vejam-no desta forma: Digamos que você é Maggie Hassan, a primeira senadora de New Hampshire, que representa um estado que Joe Biden ganhou muito confortavelmente por sete pontos – mas que obviamente não é como estado azul tão garantido como Vermont. Ela apresenta-se a eleições em 2022. O governador republicano Chris Sununu manifestou interesse em concorrer contra ela, e a acreditar numa sondagem recente este ganharia por 49-41. Ou digamos que é Catherine Cortez Masto do Nevada, que também concorre em 22 e que neste momento detém uma pequena vantagem sobre Adam Laxalt, o descendente de uma conhecida família republicana. Biden ganhou o Nevada por apenas 2,4 por cento, mais estreitamente do que New Hampshire.

Se o leitor é um destes dois candidatos – de facto, se é apenas um senador democrata – o seu interesse é claro. Precisa desesperadamente que estas leis sejam aprovadas; para que Biden tenha sucesso e cumpra as promessas feitas a essa estreita maioria. Quer ser capaz de se vangloriar na campanha de um sistema pré-escolar universal e do resto, claro, mas há algo mais importante do que isso: Quer tentar reconstruir a coligação que elegeu Joe Biden no seu estado. Os eleitores de Biden são os seus eleitores. O seu caminho para os 50,1 por cento é o seu.

Mas para Manchin, não é esse o caso. Não leiam isto como se eu estivesse a arranjar desculpas para o tipo. Ele é exasperante e irritante e está a agir como se fosse praticamente co-presidente. O leitor conhece a velha expressão na política sobre ficar com metade de um pão. Manchin recebeu cerca de 90 por cento do pão, e ainda não se comprometeu. É um escândalo.

Só estou a explicar porque é que ele o faz. A sua coligação eleitoral – ele vai ser reeleito em 2024, que é um ano de eleições presidenciais, e que pode muito bem apresentar Donald Trump à frente no topo do escrutínio – não é a de Joe Biden, muito longe disso.  Biden obteve um total de 29,7 por cento dos votos na Virgínia Ocidental. Ainda não fiz as contas, embora possamos ter a certeza que Manchin e os seus colaboradores já as fizeram. Mas ele vai ter de obter uma enorme percentagem de eleitores da Virgínia Ocidental, muitos deles republicanos, para obter um bilhete Trump-Manchin em 2024.

E por falar nisso, desde há muito tempo ouço boatos de “ele está a pensar sair do partido”, mas não vejo. Conclusão? Ele votou duas vezes para condenar Donald Trump por graves e delitos graves. Ele não tem futuro no GOP. Na sua posição de independente que se alia com os democratas, o que tem sido questionado, ele pode conquistar alguma boa vontade no estado.

Mas é muito difícil ganhar uma eleição como independente. Joe Lieberman conseguiu isso, mas essa foi uma circunstância que duvido que Manchin pudesse replicar: o candidato do Partido Republicano era amplamente desconhecido, e a maioria das autoridades republicanas no estado apoiou Lieberman. Os republicanos na Virgínia Ocidental não apoiarão Manchin depois dos votos de destituição [de Trump]. Supondo que os republicanos apoiam uma pessoa normal, como um dos seus três representantes na Câmara, e os democratas indiquem um tipo ambientalista progressista (não ria; tal pessoa pode obter 25, 30 por cento dos votos naquele estado, talvez até um pouco mais), vejo um resultado como Republicanos 40, Manchin 35, na melhor das hipóteses.

Então Manchin está preso ao Partido Democrata, e este com ele. Mas se ele concorrer em 2024, e o fizer como democrata, terá de convencer um grande número de independentes e republicanos de que não é um democrata de linha seguidista. Posso garantir aos que me leem que isso – mais do que as suas minas de carvão ou a sua aparente ansiedade de que muitas pessoas são preguiçosas e não querem trabalhar – é o que ele pensa às 3 da manhã naquele barco/iate.

O mesmo é válido para Sinema, exceto no que se refere à parte da casa-barco. Os seus cálculos são (como sempre) mais difíceis de fazer porque Biden conquistou o seu estado, embora por apertada margem. No entanto, ela obviamente pensa que o seu caminho para a vitória, também em 2024, é montar uma coligação diferente da que elegeu Biden no Arizona. Ela decidiu que precisa dos votos de muitos independentes e republicanos, e precisa deles mais do que de eleitores de base democrata, como jovens e latinos. Também parece haver um tipo de problema de “sensibilidade do Arizona” em ação aqui, sobre a inconstância e assim por diante, embora eu não possa deixar de notar que, em grande parte, a sua inconformidade se alinha perfeitamente com os seus interesses empresariais e comerciais (bloqueando qualquer aumento na taxa de imposto sobre os lucros das empresas).

Pode o comportamento deles ser mudado? É possível que os eleitores latinos consigam mudar o pensamento de Sinema. Neste momento, ela obviamente não considera a demografia de eleitores como um bloco com o qual ela tenha que se preocupar muito. Mas um rumor de desafio nas primárias lançado pelo congressista Ruben Gallego pode mudar esse cálculo. Gallego está à frente de Sinema numa sondagem recente. Ela sabe que precisa de namorar o voto latino. Mas ela precisa ser levada a pensar que este é decisivo. Assim que ela pensar isso, ela será um tipo diferente de mulher rebelde.

Quanto a Manchin, bem, a Virginia Ocidental é uma causa perdida. Ele na verdade ainda vota com o seu partido na maioria das vezes, exceto quando o seu voto é decisivo para o resultado da votação [1]. E a alternativa a este Manchin poderia ser ainda muito pior. A única solução para o caso Manchin será a eleição de mais democratas, de modo que o voto de Manchin se torne irrelevante. E elegê-los em estados, como Wisconsin e Pensilvânia, que Biden venceu, onde os novos senadores saibam que o seu próprio destino político está ligado ao destino do presidente.

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Nota

[1] Nota de tradutor. No original diz-se: “He does still vote with his party most of the time, except when his vote doesn’t matter”, o que não traduzimos à letra naquilo que interpretamos como sendo uma gralha. Com efeito, Manchin tem sido nas questões importantes um opositor de peso, de muito peso no Senado à política de recuperação de Biden, pressionando chegar a entendimentos com os Republicanos, com o consequente recuo nas propostas dos Democratas, ou seja, não estando nunca a votar no que é muito importante para os Democratas.


O autor: Michael Tomasky [1960-], jornalista norte-americano, é editor do The New Republic e editor chefe de Democracy. É correspondente especial de Newsweek/The Daily Beast e colaborador de The American Prospect e de The New York Review of Books. Estudou Ciências Políticas na Universidade de Nova Iorque. É autor de Left for Dead: The Life, Death, and Possible Resurrection of Progressive Politics in America (1996), e de Hillary’s Turn: Inside Her Improbable, Victorious Senate Campaign (2001).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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