Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 6ª parte – Acompanhando o decurso da batalha entre democratas e republicanos nos Estados Unidos – 6.4. “Os Republicanos continuam a entravar os Democratas na questão dos direitos de voto. Vai alguma coisa mudar?”  Por Sam Levine,

 

Nota de editor:

Dissemos em Outubro passado, ao apresentar a 5ª parte desta série:

“A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá. “

Enquanto os democratas de matriz conservadora e neoliberal, na racionalidade que lhes é própria, fazem campanha contra os programas de recuperação de Biden, como é o caso de Summers e outros, enquanto senadores como Joe Manchin, Sinema e Feinstein bloqueiam as iniciativas da esquerda democrata no Senado, impondo cortes sobre cortes e abrindo caminho a uma vitória de Trump nas eleições intercalares, o mercado financeiro na “racionalidade” que lhe é própria, começa a preparar a estrutura financeira para alimentar a campanha que poderá levar de novo Trump à Casa Branca.

Na 6ª parte desta série (que permanecerá em aberto), apresentamos textos sobre a luta que decorre neste momento no Capitólio dos Estados Unidos e fora dele, entre Democratas e Republicanos, e também no seio dos próprios Democratas, como é o caso do projeto de lei Build Back Better aprovado pela Câmara dos Representantes em 19 de Novembro e que agora transita para o Senado.

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6.4. Os Republicanos continuam a entravar os Democratas na questão dos direitos de voto. Vai alguma coisa mudar?

 Por Sam Levine, em Nova Iorque

Publicado por  em 4 de Novembro de 2021 (original aqui)

 

O senador Joe Manchin é rodeado por repórteres quando sai da câmara após uma votação em Washington DC na quarta-feira. Fotografia: J Scott Applewhite/AP

 

Os Republicanos fazem obstrução aos esforços dos Democratas para fazer passar o projeto de lei

Intensifica-se o movimento de pressão sobre o senador Joe Manchin

 

Não, não é um déjà vu: os republicanos do Senado voltaram a usar o “filibuster” [n.t. votação para fecho do debate que exige uma maioria de 60/40] na quarta-feira para entravar os esforços democratas para aprovar um projecto de lei significativo em matéria de direitos de voto. É a quarta vez que isto acontece este ano, a mais recente há apenas duas semanas.

Mas os Democratas e outros defensores do direito de voto esperam que desta vez seja diferente.

Eles nunca esperaram realmente que 10 republicanos assinassem o projecto de lei e o fizessem avançar. Em vez disso, esperavam usar a votação como uma última oportunidade para mostrar ao senador da Virgínia Ocidental Joe Manchin e à senadora do Arizona Kyrsten Sinema, dois dos mais firmes defensores da regra de voto de fecho do debate por maioria de 60/40 [filibuster], que não há esperança de aprovar um projecto de lei sobre os direitos de voto enquanto a regra “filibuster” permanecer em vigor.

É um desenvolvimento que aumenta significativamente a pressão sobre Manchin especificamente. O projecto de lei sobre direitos de voto que os Republicanos bloquearam no final de Outubro era um projecto de lei que ele ajudou pessoalmente a escrever e em que procurou a contribuição dos Republicanos. A medida que os Republicanos bloquearam na quarta-feira, que teria restaurado uma disposição crítica da Lei dos Direitos de Voto, é uma medida que ele apoia. Manchin disse que “a inacção não é uma opção” em matéria de direitos de voto. Mas agora os republicanos deixaram claro que enquanto o “filibuster” se mantiver em vigor, a inacção é a única opção.

Então, para onde vão as coisas a partir daqui? Para começar, penso que vamos começar a ver uma linguagem muito mais explícita de Chuck Schumer, o líder da maioria, sobre a alteração das regras do “filibuster”. Embora Schumer tenha dito repetidamente “todas as opções estão sobre a mesa” quando se trata de direitos de voto, ele parou de delinear mudanças específicas que gostaria de ver ou de chamar especificamente Manchin e Sinema. Só recentemente Schumer começou a falar sobre a necessidade de “restaurar o Senado como o maior órgão deliberativo do mundo”. Penso que veremos também um aumento da pressão por parte da Casa Branca.

Schumer continuou com essa retórica na quarta-feira após o “filibuster”. Ele descreveu-o como um “ponto baixo, baixo” na história do Senado, e questionou se algumas das maiores realizações legislativas do Congresso teriam sido capazes de superar a obstrução se tivessem sido propostas no Senado de hoje.

 

Mas será isto suficiente para influenciar Manchin e Sinema? Já escrevi anteriormente sobre a razão pela qual estou cautelosamente optimista de que eles se aproximarão do direito de voto. Manchin não parecia estar a ceder depois da votação de quarta-feira.

“Temos Lisa Murkowski, só precisamos de mais nove”, disse Manchin, de acordo com o Politico. “Precisamos que outras pessoas falem umas com as outras e encontrem um caminho para a frente. Não pode ser apenas uma ou duas pessoas a falar com ambos os lados”.

Mas à medida que os Democratas se atolam em negociações sobre a lei das infra-estruturas, pode ser mais difícil pressionar os dois lados. Biden disse numa câmara municipal no final de Outubro que seria difícil lidar com o “filibuster” enquanto as negociações de infra-estruturas estivessem em curso.

Em qualquer caso, as próximas semanas serão cruciais para determinar se os Democratas podem realmente proteger o acesso às urnas.

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O autor: Sam Levine é repórter no The Guardian e faz a cobertura (desde Novembro de 2019) sobre os direitos de voto nos Estados Unidos, escrevendo sobre questões como a identificação dos eleitores, a manipulação partidária de circunscrições eleitorais, a purga de eleitores, a privação dos direitos de voto e o censo de 2020. Anteriormente foi repórter no Huffpost (2014/19), editor chefe em Chicago Maroon (2013/14). É licenciado em Letras pela Universidade de Chicago.

 

 

 

 

 

 

 

 

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