CARTA DE BRAGA – “da imagem e medíocres” por António Oliveira

É precisa muita leitura para suportar tanta realidade’, apareceu escrito num quadro preto, à porta de uma livraria em Madrid. 

Não sei se chegará esta minúscula sentença numa só livraria, porque o presente em continuidade, o da velocidade e do ‘aparecer’ no momento, pela magia de um click, naquela imagem curta e pequena, que eliminou e levou ao desaparecimento dos planos longos no cinema, que parecem ter tido o mesmo fim que levou a escrita e a leitura com mais de cento e quarenta caracteres, a explicação dos conceitos, a importância da dialéctica e até da própria palavra.

Predomina o ‘quem’ no seu ‘aqui’ e no seu ‘agora contínuo’, talvez pelo simples facto de sobreviver, de refilar seguindo as normas em uso, mas sabendo que ninguém o quer escutar, ou melhor ainda, ouvir, porque escutar implica alteridade, o ser ‘eu’ no lugar do ‘outro’, um exercício complicado a qualquer hora do dia, que pode ser substituído num instante, por mais um click, para rapidamente achar um ‘quem’ conforme e semelhante, talvez por resolver as eventuais complicações, apenas com a postagem de um único emoji

Vemos isso nas ruas e nas estradas, onde a maioria não sabe, ou não quer saber, para que serve e como se usa o ‘pisca’ da viatura, para se meter ‘à toa’ no primeiro ‘buraco’, para mudar de via ou ‘saltar’ duas filas de carros, gesticulando ainda ‘cheiinho de razão’, se alguém buzinar em protesto. 

E também os vemos nas filas das repartições, nas filas de ‘prioridades’ dos supermercados, nos assentos para incapacitados nos transportes públicos, agarrados às suas máquinas de ver o mundo, sem olhar para ninguém, porque o ‘outro’ também não existe na realidade, só existe em imagem, ali na mão, sabendo que pode ser desligado a qualquer momento, normalizado como ele, também sem querer saber de mais nada, nem de ‘piscas’ ou ‘filas’, mas acompanhando tudo com um, ‘mas que chatos!

Isto nem sequer começou há muitos anos, com início talvez quando principiaram a circular (e a vender-se muito bem) os tratados de autoajuda, em que o truque está na realização pessoal e em ser ‘autêntico’ porque lá, nos tratados, o triunfo e a felicidade dependem apenas de cada um. 

Tudo, da política à comunidade e à sociedade, passou a ser olhado como uma questão do foro íntimo, favorecendo o individualismo, o narcisismo e a meritocracia, obviamente avaliada e analisada por alguém acima, porque as regras são determinadas pelos ‘senhores’ das estruturas já existentes, as mesmas que um indivíduo só e isolado, é totalmente incapaz de combater sozinho. 

Aliás Ortega Y Gasset, salientou bem, ‘O homem é o ser que precisa absolutamente da verdade e vice-versa; a verdade é a única coisa de que o homem precisa, sua única necessidade incondicional. Os homens não vivem juntos porque vivem, mas empreendem grandes empresas juntos. Só é possível avançar quando se desvia o olhar. Só se pode progredir quando se pensa grande’.

E será por tudo isso que hoje, como diz José Antonio Molina, ‘A pobreza, a desigualdade, a degradação do mundo do trabalho, o desemprego e os cortes na protecção social, não são desarranjos do sistema, mas elementos constitutivos e ideológicos do regime no poder’.

Mas a tal autenticidade é um dos símbolos, um dos totens da sociedade actual porque, paradoxalmente, ‘se opõe à despersonalização própria da nossa sociedade de massas, é ideal como mercadoria, porque cada um pode fabricar e consumir a própria autenticidade’, afirma a escritora e  socióloga Eva Illouz, coautora de ‘Happycracia’.

Absolutamente contrário a tudo isto, afirma-se o filósofo e teólogo Javier Sábata, também catedrático de Ética, ‘Ser o mais livre possível é duríssimo muitas vezes, porque se diz o contrário de quem manda. A maior parte das acções que tivermos de fazer são desobediências: ao dinheiro, à má política e às montanhas de palavreado, que não fazem mais que entontecer-nos’.

Sempre há alguém que disse ou escreveu algo, que até posso aproveitar para finalizar cada uma das minhas Cartas e, a propósito, recorro hoje a Jorge Luis Borges, o imortal poeta argentino porque e, deixo-o no castelhano original, ‘Todos caminamos hacia el anonimato, solo que los mediocres llegan un poco antes’.

Nós ou os autênticos? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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