PORTUGAL E A MÃO DE DEUS, de ORLANDO MAÇARICO

 

Imaginem que, num belo dia, um Deus equânime (passe a redundância) acorda e decide assim: “Vou equilibrar o clima. É injusto o nevoeiro, a chuva, a neve e a inclemência do tempo serem, por regra, uma espécie de maldição nórdica; e, em contrário, o sol, a amenidade do tempo um privilégio sulista, na Europa.

A partir de agora vamos processar uma troca. Entendam-se!”

A população, após uma inicial estupefacção paralisante, de seguida, em desespero até à resignação, rezou, rezou, suplicou, suplicou, promoveu missas e procissões e fez muitas, muitas promessas.

Como bom e fiel aliado, o governo de Portugal, pela voz cáustica do solícito e pressuroso ministro Matos Fernandes (um ministro à frente do seu tempo) propôs, de pronto, a troca com Inglaterra, sugerindo uma cimeira climática bilateral “ad hoc“.

O governo, de seguida, assina sem hesitação e de livre mente (Deus não coage) o acordo; mais vale estar de bem com Deus e com o diabo (do tempo), não vá este tecê-las…

Em decorrência óbvia, o turismo fina-se, o comércio definha, o desemprego galopa, a criminalidade de subsistência avoluma, esgota-se nas farmácias o stock de ansiolíticos, as avenidas e ruas são locais de risco permanente, os assaltos a bancos vazios fazem aumentar a frustração da população, os hipermercados viram minis e são , mesmo assim, constantemente assaltados, a comida escasseia nas prateleiras e nas despensas, o crime de colarinho branco esfuma-se, mas, sem se resignar, lá se vai tentando adaptar ao novo clima.

A anomia está instalada.

Ouvem-se, ao longe, a voz do primeiro-ministro, quase em surdina, balbuciando um: “à justiça o que é da justiça” (divina),e, também, a do presidente da república, sempre crente, num repetido latinismo: “pacta sunt servanda….pacta sunt servanda….”

Já imaginaram?!…

De que mão dependemos nós, afinal?!

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