Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 6ª parte – Acompanhando o decurso da batalha entre democratas e republicanos nos Estados Unidos – 6.17. “Joe Manchin atraiçoa a Virginia Ocidental”.  Por Michael Tomasky

 

Nota de editor:

Dissemos em Outubro passado, ao apresentar a 5ª parte desta série:

“A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá. “

Enquanto os democratas de matriz conservadora e neoliberal, na racionalidade que lhes é própria, fazem campanha contra os programas de recuperação de Biden, como é o caso de Summers e outros, enquanto senadores como Joe Manchin, Sinema e Feinstein bloqueiam as iniciativas da esquerda democrata no Senado, impondo cortes sobre cortes e abrindo caminho a uma vitória de Trump nas eleições intercalares, o mercado financeiro na “racionalidade” que lhe é própria, começa a preparar a estrutura financeira para alimentar a campanha que poderá levar de novo Trump à Casa Branca.

Na 6ª parte desta série (que permanecerá em aberto), apresentamos textos sobre a luta que decorre neste momento no Capitólio dos Estados Unidos e fora dele, entre Democratas e Republicanos, e também no seio dos próprios Democratas, como é o caso do projeto de lei Build Back Better aprovado pela Câmara dos Representantes em 19 de Novembro e que está agora no Senado.

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6.17. Joe Manchin atraiçoa a Virginia Ocidental

O senador diz um “não” à Lei “Build Back Better” de Biden, assegurando que as pessoas em dificuldades do seu estado fiquem mais para trás.

 Por Michael Tomasky

Publicado por  em 19 de Dezembro de 2021 (original aqui)

 

Manchin dirige-se para uma reunião com mineiros de carvão em Matewan, Virgínia Ocidental, em 2017. Bill Pugliano/Getty Images

 

O património líquido de Joe Manchin, de acordo com o site da Money-in-politics Open Secrets, era de 7,6 milhões de dólares em 2018, quando ele procurou ser reeleito pela última vez. O rendimento médio das famílias este ano no estado da Virgínia Ocidental, de acordo com a Reserva Federal de St. Louis, é de 51,615 dólares. Isso é quase 30.000 dólares abaixo da média nacional.

E isto, em resumo, é a política americana em geral e o Senado dos Estados Unidos em particular: um velho branco multimilionário a dizer às pessoas pobres que só precisam de se safar e trabalhar e que o governo não os deve ajudar.

Embora ainda haja uma hipótese de Manchin apoiar alguma versão do Build Back Better Act, o seu anúncio de domingo de manhã na Fox News, de que ele não podia votar a favor da versão existente do projecto de lei é politicamente devastador para o seu partido e para o presidente que ele presumivelmente apoiou e votou a favor. Esse será o foco da maior parte dos analistas. Mas é ainda mais devastador para o povo da Virgínia Ocidental, que está a ficar mais atrasado em relação ao resto do país a cada década que passa e a quem tem sido vendida uma fantasia sobre a origem dos seus problemas e a forma como serão resolvidos.

A fantasia é que o desaparecimento do carvão é tudo culpa das elites liberais costeiras, que se atiram ao bom povo cristão trabalhador como os que vivem nas pequenas cidades da Virgínia Ocidental e que extraem e transportam o seu carvão.

Agora é verdade, claro, que muitos liberais querem que os EUA abandonem os combustíveis fósseis. Eu estou entre eles, embora também queira ter a certeza de que Washington dedique milhões de milhões – sim, milhões de milhões – a investir na Virgínia Ocidental nas próximas décadas, em parte como um reconhecimento por impulsionarem a ascensão da América ao domínio mundial e pela nossa derrota do fascismo, mas sobretudo para dar ao povo do Estado um futuro novo e mais seguro.

E também é verdade que, sim, alguns, talvez muitos, liberais urbanos desprezam o povo da Virgínia Ocidental, o que não deveriam fazer. (Claro que o povo da Virgínia Ocidental também não tem nada que falar mal das gentes de Nova Iorque ou de São Francisco).

Portanto, estas coisas são verdadeiras, mas não significam que o declínio do carvão seja culpa do liberalismo. Sabe quando é que os números de postos de trabalho na extracção de carvão começaram a diminuir neste país? Na década de 1980. Enquanto Ronald Reagan era presidente. Em 1985, havia 178.300 mineiros de carvão nos Estados Unidos. Em 1990, havia 137.600. Em 1995, o número era inferior a 100.000. Tudo isto era tecnologia e automatização. Por outras palavras: o mercado livre, a fazer a sua obra.

Depois as coisas estabilizaram por um pouco, e o número começou a afundar-se novamente nesta última década para os actuais 42.000. Sim, muito disto aconteceu enquanto Barack Obama era presidente. Mas o número caiu drasticamente sob Donald Trump, de 50,900 para 42,400. Foi culpa de Obama, ou de Trump? Não. A culpa foi do gás natural. É mais limpo e mais barato. Por outras palavras: o mercado livre, a fazer a sua obra.

E foi isto que assolou as cidades de carvão da Virgínia Ocidental: o mercado livre, introduzindo mudanças que tornaram a principal indústria deste estado menos remuneradora e necessária. Acrescente-se a este quadro a crise dos opiáceos, que continua a grassar na Virgínia Ocidental. Este é outro problema do mercado livre, e outra fantasia, criada a partir do nada por atores da indústria farmacêutica. O governo deveria ter feito mais do que fez para intervir e dizer não a esta fantasia, que os poderosos opiáceos não deveriam ser distribuídos como boias de salvação a qualquer pessoa que tenha dor nas costas.

Mas foi o sector privado que desencadeou esta maldição sobre a América, aproveitando-se de pessoas e lugares particularmente vulneráveis como a Virgínia Ocidental, onde muitas pessoas fazem trabalho físico para ganhar a vida e  não têm – ou não tinham, até que o grande governo maléfico e Barack Obama apareceram – com a cobertura de saúde que lhes permite ir a um médico de verdade em vez de apenas poderem ir a uma clínica de cuidados urgentes onde recebem uma recita de fentanil e são postos à porta. Mais de meio milhão de habitantes da Virgínia Ocidental inscreveram-se na plataforma do Obamacare – isto é quase um terço da população do estado.

Mas a ideia divulgada e aceite é que o governo e o liberalismo estão a destruir o estado. É o oposto preciso da verdade. O que tem devastado o estado [da Virginia Ocidental] é o mercado livre: automação, tecnologia, uma alternativa de carvão mais barata e limpa, e prescrição de medicamentos pesados.

Joe Biden procurou entrar neste marasmo e dizer às pessoas na Virgínia Ocidental e em todo o país que merecem as coisas que os cidadãos de todas as outras nações desenvolvidas, e muitas em desenvolvimento, já têm.

Mas agora Joe Manchin, dotado de um extraordinário poder pela estrutura de um órgão que nem sequer deveria existir, domina o presidente dos Estados Unidos e diz ao povo devastado por estas coisas que, não, o governo não os pode ajudar. Desculpe, mãe solteira que trabalha no General Dollar em Grantsville e gostaria de ir para a faculdade comunitária para melhorar a sua sorte: Não podemos tornar o colégio comunitário gratuito, e não podemos possivelmente subsidiar centros de dia onde se pode deixar os filhos em segurança enquanto se faz aqueles cursos de contabilidade à noite em Glenville State. Todas essas coisas gratuitas podem fazer de si uma órfã dependente do Estado.

E não, não podemos tributar os ricos para financiar estes serviços. Precisamos de pessoas ricas para ficarem mais ricas, para que possam transmitir os benefícios da sua riqueza pela cadeia alimentar económica. Será que Joe Manchin pensa desta forma? Ele disse isso mesmo em finais de Setembro: “O critério de recursos, os requisitos de trabalho são todos muito, muito importantes nestas coisas. Alguns podem pagar, outros podem pagar um pouco, outros não podem pagar de todo, ou seja, significa exame dos recursos. Não posso aceitar que a nossa economia, ou basicamente a nossa sociedade, avance para uma mentalidade de assistidos”.

Não, não podemos ter isso. Antes de nos darmos conta disso, transformamo-nos na Escandinávia. Ou na Mongólia ou no Uruguai ou no Uzbequistão ou em qualquer outro dos cerca de cem países em todo o mundo que oferecem aos novos pais licenças parentais pagas.

É aí que os Estados Unidos da América se encontram agora, atrás da Mongólia e de todos esses outros países, tudo por causa de um homem – e do poder que lhe é dado pela estrutura da nossa legislatura nacional. A Virgínia Ocidental vai continuar a ficar para trás. E Joe Manchin pode ver tudo isto desenrolar-se através das janelas do seu Maserati.


O autor: Michael Tomasky [1960-], jornalista norte-americano, é editor do The New Republic e editor chefe de Democracy. É correspondente especial de Newsweek/The Daily Beast e colaborador de The American Prospect e de The New York Review of Books. Estudou Ciências Políticas na Universidade de Nova Iorque. É autor de Left for Dead: The Life, Death, and Possible Resurrection of Progressive Politics in America (1996), e de Hillary’s Turn: Inside Her Improbable, Victorious Senate Campaign (2001).

 

 

 

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