CARTA DE BRAGA – “do Capitólio e charlatães” por António Oliveira

Amanhã cumpre-se o primeiro aniversário de um dos mais vergonhosos e tristes acontecimentos políticos do mundo ocidental, a tentativa de ocupação do Capitólio por uma turma de trumpas descerebrados, dirigidos pelas redes sociais alimentadas pelo trumpa maior. 

E depois da leitura dos muitos artigos e análises sobre o fracasso daquela tentativa de golpe de estado, estou convencido de que tudo começou a ruir, quando as contas do descerebrado maior foram cortadas no Facebook, no Twitter, no Youtub e no Instagram, não por um qualquer juiz, mas por um punhado de ricos possidentes tecnológicos, talvez assustados por uma vaga que atingiu uma dimensão de controlo complicado. 

Como complicado, será resolver a quantidade de questões que se levantam no Ocidente e no resto do planeta, sobre o antagonismo existente entre as democracias não consolidadas, atacadas por populismos diversos, e os interesses fabricados e alimentados por outros raramente legítimos e de identificação quase impraticável.

Como também não é asneira nenhuma considerar, se a continuidade do pensamento democrático depender de entidades alheias ao estado e que se servem dele para alimentar e aumentar os seus proventos, estaremos entregues ao poderio dos gigantes financeiros e tecnológicos, quase sempre coincidentes, e poderemos dizer adeus à soberania de um governo que preserve e assuma a democracia, pois tais entidades visam o lucro como produto final e não o bem-estar da sociedade. 

Um ambiente que já está a ser devidamente posto em prática por uma nova direita ultra-conservadora em que, de acordo com Daniel Innerarity, ‘A ruptura das normas comuns faz parte da celebração que acompanha as suas identidades e estratégias de comunicação. Um distanciamento que se converteu até num elogio da desobediência, em algumas das proibições ditadas pela pandemia, como uma crítica ao que consideram paternalismo do estado’.

Num outro artigo, publicado também no ‘La Vanguardia’, Innerarity aborda ainda a questão das consequências do domínio dos gigantes tecnológicos no mundo democrático, ‘O carácter estruturante ou sistémico da sua influência nos mercados, revela um domínio sobre a soberania política ou democrática, que só corresponde aos cidadãos e às suas instituições representativas; não podemos deixar que as plataformas digitais privatizem o nosso espaço público’.

Mas aquele dia 6 Janeiro do ano passado, mostrou como a soberania dos algoritmos poderá ser independente da soberania democrática, com as redes a tornarem-se mesmo indispensáveis na acção de todos os políticos, apesar de não terem acesso aos algoritmos, nem a quem os comanda, mas sabendo como a pressão psicológica é fundamental no mundo de hoje. 

Aldous Huxley, o autor de ‘O Admirável Mundo Novo’, tinha bem consciência disso, ‘A essência da coerção psicológica consiste em que aqueles que actuam sob os seus efeitos, têm a impressão de estar agindo por iniciativa própria. A vítima da manipulação mental não sabe que é vítima. As grades da sua prisão são-lhe invisíveis e crê que é livre. O facto de não ser livre, só é visível para os demais. A sua escravidão é estritamente objectiva’.

Obviamente que este confronto, já assim descrito por Huxley há mais de cinquenta anos, pode, de acordo com Zygmunt Bauman, arrastar problemas complicados porque, ‘Se não existe uma boa solução para um dilema, se nenhuma atitude sensata e efectiva aproximar uma solução, as pessoas tendem a comportar-se irracionalmente, fazendo mais complexo o problema e tornando a sua resolução menos plausível’.

A complicar isto tudo, afirmava um comentador há já algumas semanas, ‘Deixámos para trás a sociedade do espectáculo e entrámos já na era dos charlatães!

E não é que me sinto tentado a dar-lhe razão?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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