A GALIZA COMO TAREFA – ó tempos! – Ernesto V. Souza

Ao escutarmos testemunhas ou ao lermos depoimentos de gentes de idades várias a falarem da sua experiência educativa podemos perceber as diferenças e contrastes na prática escolar, nos conteúdos e nos sistemas educativos, na pedagogia empregue no decurso do tempo.

Vão mudando nomeadamente as escolas pedagógicas e didáticas e vão desaparecendo com a arbitrariedade, as ideias e noções de autoridade e coação, de violência, por vezes física e sempre mental, com que se constringia o alunado à ordem e disciplina.

Mudam também os conteúdos, em função dos materiais didáticos, recursos de aula e da preparação e adequação dos docentes. As leis educativas e os modelos pedagógicos emanados delas vão assim variando, evoluindo, abandonando (na teoria) a memorística e procurando outros sistemas de aprendizagem e de relacionamento entre alunado e professorado.

Curiosamente o que não parece mudar, ou no que coincidem todas as gerações, é que “no seu tempo” saiam sabendo mais, da escola do que nos tempos de hoje saem. Um fenómeno interessante e materialmente impossível este, reparem, que provavelmente tenha mais a ver com a saudade que com a memória, a lógica e a capacidade crítica.

Realmente, cuido, pouco têm a ver as memórias que fomos conservando com a realidade vivida ou os conhecimentos adquiridos e eu não tenho boas lembranças do sistema educativo, em geral, compreendido nele o infantário, a escola, colégio, a licenciatura, doutoramento, master, uma formação profissional e inúmeros cursos soltos.

Gerald Durrel: The Corfu trilogy, Penguin Books, 2006

Não era o educativo, nem é, acho, um sistema facilitador da crítica, da razão, da autonomia, da observação ou da consciência do progresso pessoal. O sistema não atende às individualidades, às habilidades sociais, aos interesses específicos, às motivações ou às capacidades. É simplesmente um mecanismo, por vezes violento, de ocupação de tempo para classificação do alunado a respeito de umas marcações, limites, conhecimentos fixados e objetivos pre-estabelecidos.

Sou mais doutros modelos. Talvez por isso é que gostei tanto de encontrar nas páginas de um dos livros que ganhei neste natal, The Corfu trilogy, as descrições a respeito da extravagante educação e tutores irregulares na infância do protagonista.

O volume reúne três livros autobiográficos (My Family and Other Animals (1956); Birds, Beasts, and Relatives (1969); e The Garden of the Gods (1978)) do genial naturalista britânico Gerald Durrell. Neles vai narrando, da perspetiva do rapaz precoce e inteligente, ao jeito de diário ou caderno de campo naturalista, os episódios e histórias exageradas e não pouco ficionalizadas dos anos em que viveu, quando criança, com seus irmãos e a mãe viúva, na ilha grega de Corfu nos anos finais do período de entre guerras (1935-1939).

Os principais valores do livro, nomeadamente da primeira parte, são, por uma banda a constante de exagero cómico na descrição antropológica das personagens e dos costumes da ilha, as peripécias e debates da sua pouco convencional família e por outra a sua apreciação direita do mundo natural e da aquisição dos conhecimentos e ferramentas próprias do cientista-divulgador.

Os anos de Corfu, as cenas com os tutores e os estudos das matérias convencionais, contrastam com o seu mono-temático entusiasmo pela natureza. E contrastam com a delicada orientação prática que recebe do Doutor Theodore Stephanides, que fornece Gerald com os conhecimentos, instrumentos e conselhos necessários para os seus futuros estudos de história natural.

Para além da fantasia, certo anarquismo, invenção e ficção cómica, há no texto de Durrell uma profunda crítica e redução a absurdo dos modelos educativos tradicionais, completado com um continuado apelo pela liberdade, a a educação individual, através da experimentação e a vida ao ar livre, tão britânica e um bastante na onda do jeito escuteiro.

À força aprende-se, é verdade, muita cousa, mas fica pouca.

 

Leave a Reply