A POESIA DA IDEOLOGIA. A PROPÓSITO DA OBRA POÉTICA DE CARLOS LOURES – POR MANUEL SIMÕES

 

            O discurso poético de Carlos Loures é marcado por traços distintivos que lhe conferem uma segura originalidade, sobretudo pela ousadia da linguagem que, através de um código transgressivo, se apresentou, a partir dos anos sessenta, como desafio inovador ao código das “meias-palavras”, duma escrita condicionada à partida por mecanismos que conduziam à auto-censura e, por isso mesmo, ao auto-controle da criação literária. Desde logo, a sua perspectiva foi sempre a de subverter o assédio da cultura burguesa (recusando uma assimilação que progressivamente foi penetrando no tecido textual) e efectuando um trabalho de reflexão, em termos de processos metodológicos, à volta da estrutura repressiva de uma ética com a qual o poeta estabelece uma relação de ruptura nítida.

            A transgressão manifestou-se como meio inquietante de transformação do discurso (e do mundo), de modo a potencializar a contaminação de outros autores cujos discursos revelavam uma gradual e incisiva radicalização da expressão linguístico-literária, o que não deixou de alarmar, a vários níveis, os censores de diversos graus repressivos, ao ponto de efectuarem a extrema tentativa de eliminar (com a prisão) o verbo do autor de A Voz e o Sangue, voz que necessariamente se terá de incluir entre as que contribuíram para a criação duma atmosfera que tornou possível o voo, embora oblíquo,  da “ave luminosa” do 25 de Abril de 1974.

            Uma tal reflexão introduz a novidade da “poesia da ideologia” mediante um percurso que sutura a lírica e a crítica (social) ao modelo ideológico que lhe é subjacente. É um programa de trabalho que aplica a metodologia do rigor porque parte das coisas para as palavras sem que por isso se lhe deva aplicar a etiqueta de “poesia de circunstância”, de resto imprópria e não científica, pelo simples facto de, em termos gerais, toda a literatura ser de circunstância, motivada por coordenadas históricas, sociais e linguísticas. Com efeito, segundo penso, não existe uma poesia de circunstância (política) e outra que o não é, mas uma poesia que transfere da realidade o discurso a transformar em expressão poética e outra que parece proceder diversamente. A escolha não é uma questão técnica mas, essa sim, política que envolve por completo a personalidade do poeta, a sua relação com o mundo e a sua perspectiva na dialéctica da História. No caso vertente, o poeta tem consciência de que «poesia não é bem economia política» mas «deve ser a verdade do poeta, / a sua maneira de explicar o mundo / e de o tentar transformar». E, mais importante, é o facto de ser consciente do valor da palavra e de que maneira pode ser usada como instrumento de acção (poesia da acção): «Uma palavra / entra no gabinete de investigação / e sai de lá mais pura e agressiva / […] semeia / o medo nas espingardas opressoras / corrói as grades e faz baixar a / cotação do dólar».

            Tal perspectiva pressupõe um laboratório intelectual e, ao mesmo tempo, a homologia conceptual e estilística, isto é, apoia-se numa escolha estética que contempla uma escolha ética e a realiza. A poesia ilumina-se, assim, pela consciência da estrutura do real transferido, embora o acento histórico-social não pretenda, de modo nenhum (como, de resto, nem poderia), ignorar o aspecto estético que lhe dá forma.

           Trata-se, pois, de uma poesia militante que faz da vigilância ideológica a sua arma, interferindo nas relações entre teoria e praxis e actualizando uma incursão no real que se pode considerar emblemática. É óbvio, a este respeito, que o escritor não pode deixar de legar-nos vestígios sérios da sua integração numa cultura, o peso da sua incidência no contínuo verificável da História. E a posição do poeta, por muito que pese aos críticos neo-idealistas, é idêntica à que se verifica nas demais disciplinas literárias.

           Um elemento a ter aqui em conta é, sem dúvida, o da coerência ideológica que percorre os diversos textos e a dinâmica interna que os ilumina como signo totalizante da razão poética. Eis por que se justifica a recusa da cristalografia, da «natureza-morta», e a perspectiva antitética «entre a morte e o silêncio emoldurados / e a vida que há em volta da moldura». Contra a poesia da evasão se propõe a poesia da participação, não a poesia de mas a poesia para. E isto de forma conscientemente explícita, o que significa, por virtude dessa consciência, uma clarificação do próprio mecanismo metafórico.

            A sociedade capitalista elabora os seus programas de distanciação entre o artista e a sua audiência, e tenta impor os gostos e as correntes artísticas necessárias ao seu poder. Contra esta orientação, que acabou por determinar o consumismo da cultura e a engenharia literária predominante, opõe aqui o poeta a sua razão, transformada em canto não só por impotência histórica mas também por opção expressiva de um acto (memória) prevalentemente comunicativo.

(Adaptação do “Prefácio a ‘O Cárcere e o Prado Luminoso’”, 1990).

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