Hoje assinala-se o centenário de nascimento de Pier Paolo Pasolin. Tem sido o nosso argonauta Manuel Simões quem nos tem trazido a sua obra escrita, pelo seu domínio da língua italiana e pelo facto de ter sido o primeiro a traduzir a sua obra poética (Pasolini, Poeta (Plátano Editora, Lisboa, 1978).
Retomamos um texto de 2014, de autoria de Carlos Loures:
Pasolini nasceu em Bolonha em 5 de Março de 1922. «Eu nasci em Bolonha, na vermelha Bolonha e, o que é mais importante, na vermelha Bolonha passei a minha adolescência e a minha juventude, isto é, os anos da minha formação. Aqui me tornei antifascista por ter lido aos dezasseis anos um poema de Rimbaud. Aqui escrevi as minhas primeiras poesias em dialecto friulano (coisa não admitida pelo fascismo) (…) No Friuli, primeiro apreendi um mundo de camponeses e católico (…) e tornei-me, mais tarde, com os trabalhadores agrícolas, comunista. No Friuli li Gramsci e Marx» (“Scritti Corsari”).
Obrigado a refugiar-se em Roma por volta dos anos cinquenta, ao mundo rural associa agora o contacto com o mundo das “borgate”, os bairros “populares” da periferia de Roma, mundo «degradado e atroz» mas que conserva um seu «código de vida e de língua» e que lhe serve de motivação para os romances “Ragazzi di vita” e “Una vita violenta” ou para o seu primeiro filme, “Accattone”, o anti-herói enquanto elemento do subproletariado.
Autor polémico e com uma actividade incessante no campo da cultura italiana, intensifica nos últimos anos a sua intervenção política e ensaística em todos os sectores do debate público. São disso testemunho os textos recolhidos em “Empirismo eretico” (1972), para além dos livros póstumos “La Divina Mimesis” e “Scritti Corsari” (ambos de 1975), o último dos quais reúne precisamente a matéria “escandalosa” da sua não indulgência e da sua não ortodoxia política.
Na madrugada de 2 de Novembro de 1975, Pasolini foi encontrado morto num campo aberto da periferia de Roma, dando sobre um fundo de barracas, o mundo do subproletariado, do qual, por ironia, acabaria por ser vítima.
Deixou-nos uma imensa obra que se reparte por vários géneros: poesia, teatro, narrativa, crítica, cinema (quem não se lembra de “Mamma Roma” de 1962, ou de “Il decameron” (1971).