A GALIZA COMO TAREFA – café – Ernesto V. Souza

Café, bolachinha artesanal, uma linda mesa e luz entrando pelas amplas janelas. Isso que o dia é meio fuleiro. Quando cinzento o céu normalmente azul intenso castelhano é meio deprimente. Fora vai intenso o frio e eu não dou aprendido a me vestir com jeito neste clima continental de contrastes. Também é que não termina de prender a primavera, por mais que a vida peça por ela. Mas o café é bom e reconforta sentar um pouco fora do trabalho absurdo. Até a música acompanha, sempre é boa. Nara Leão canta baixinho… “manhã, tão bonita manhã“…

Por vezes paro, meia manhã, tomar um cafezinho, numa pequena livraria-café perto do trabalho, especializada em livro feminista, editoras independentes e produtos de proximidade. Combino lá com a minha mulher, conversamos um algo, que há dias em que não nos vemos até a noite. Outras estou só, pervago os olhos por tanto livro nas prateleiras, e intuo mudanças estéticas, sociais, culturais e debates e fico sumido nos meus pensamentos.

Rascunho a sensação com lápis num pequeno caderno. Gosto deste local. Antes, há anos, havia um sebo que frequentava bastante pelas tardes. Quando mudaram o negócio meteram uma boa obra, botaram abaixo paredes, e deixaram tudo em madeira e paneis de contraplacado com os bordes à vista. Tudo cru ou com o acabado natural, cera, sem verniz, no possível. A sensação, com as grandes janelas e portas que se abrem à rua com bom tempo e servem para aceder à explanada, é muito boa. Agradável mesmo.

Passam meses após meses. E já vão uns quantos anos, cinco talvez. Neste tempo tenho visto cá muito livro de novidade, (também noutras livrarias) cada vez mais e mais atraentes. Não apenas é a variedade e quantidade o que impressiona, quanto também a crescente aparição de edições de pequena editorial, de autora, de grupos e associações. Todas muito bem formatadas e de portadas muito artísticas ou rechamates.

Quem ia dizer quando há 15, 10 anos ainda falávamos do fim do livro em papel. Outra previsão que deu errada. E não desaparece, não. Primeiro foi o vinil a dar aviso. Foi o CD-ROM quem morreu. Agora estou a perceber ultimamente e cada vez mais, um revival do papel, e da revista em papel, nomeadamente de ensaio/debate. Ecologismo, feminismo, urbanismo a escala humana, comercio, migrantes, alternativa, educação, debate, os referentes, as amizades, as iniciativas  dilatam-se e vêm ao encontro em pontos e espaços inesperados.

Talvez estou enganado, que a minha atalaia e torre em Castela, como a própria Castela, está longe de mais, e das tendências, mesmo para os meus lentes e espelhos mágicos. Mas penso que há de novo, no papel, um espaço que em muita quantidade estávamos a perder. E há uma mudança de consumo dupla: Internet para divulgação, procura de audiência, consumo; mas, por outra procura do objeto cultural bem desenhado em papel, que talvez conecta mais com o que no seu dia tratavam de ser as revistas clássicas, o livro?

Conectar com a gente resulta cada dia mais complicado. Mas por fora dos objetivos do consumo e dos roteiros indicados, do mundo virtual e das suas urgências e globalizes; o papel permanece. O impresso fixa melhor o pensamento e a memória, deixa essa surpresa lenta, essa saudade doutros ritmos, que combina bem com o café, a música e a pausa.

Pago o café, saio, Nara Leão despede-se com “a banda” e retorno com um sorriso ao esperpento quotidiano. E será que há um mundo analógico e tranquilo que sobrevive e quem sabe, emerge?

 

 

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