CARTA DE BRAGA – “do poder e da liberdade” por António Oliveira

Já não recordo quem disse ‘A função da literatura é lutar contra o esquecimento’, mas esta afirmação envolve uma espécie de paradoxo, porque a veneração do passado também é reacionária, como se vai notando, cada vez com mais intensidade, neste mundo que nos rodeia.

E é verdade ainda pois, quem mais deveria chamar a atenção para o passado e para a importância que ele tem para o presente, parece ser quem menos se preocupa com ele, como se vê pela perda da relevância das Humanidades nos currículos escolares.

Não nos podemos esquecer que a História não se faz a caminhar em frente, a História ‘acontece’ e, aos historiadores compete interpretar os acontecimentos, estabelecer as possíveis relações e ligações com outras ocorrências e factos do ‘antes’ e do ‘durante’, compreender e divulgar as conclusões, para entendimento geral e memória futura. Uma função de largo alcance e muita responsabilidade nestes dias, por exigir aos historiadores a análise plena de todas as estórias.

Talvez esteja aqui o segredo daquela sentença, porque o escritor também é um contador de estórias, as que vive, das que ouve e ou também assiste, das transformações que cada caso ou facto, por si relatado, introduziu no seu meio, ou das oportunidades que ali abriu, para poderem vir a ser usufruídas por todos.

Mas mesmo aqui, no campo dos escritores e narradores de acontecimentos, também tudo se desenrola entre as máximas de outros dois autores de reconhecimento universal, Giuseppe Lampedusa para quem ‘É preciso que tudo mude, para que tudo se mantenha’ e Elias Canetti para quem ‘As grandes questões deveriam começar a apitar como a chaleira em que se ferve água, como modo de advertência’, as formas que os dois encontraram para referir os efeitos do poder, até possivelmente devastadores.

Um dos problemas que mais afecta a vida, particularmente no ensino –talvez o maior– e, na opinião de alguns estudiosos do tema, muito ligado a estes tempos, é a dissociação e o afastamento entre Cultura e Conhecimento, talvez porque a contemporaneidade é –e sempre foi– mostruário de mudanças de paradigmas, de experimentações imaginadas e logo postas em prática, levando a uma parafernália de métodos, qualificações e classificações, que não raro atrasam mais do que facilitam.

É óbvio que nenhum destes campos do ensino pode viver sem o outro, mas assistimos com frequência, a manifestações de presunção conservadora ou de ‘chico-espertice’, derivadas de um ou de outro, caricatas embora em qualquer dos casos, por tentarem mostrar um ‘à vontade’ que nunca liga nem condiz com o disfarce e, uma atitude que, como demostram bem estes tempos, leva à construção de um conjunto de mentiras e falsidades, para tentar justificar, logo à partida, situações irremediáveis.

Não há muito tempo, um jornalista deixava escrita uma série de interrogações importantes, resultantes destes problemas e das questões decorrentes dos poderes exercidos por gente impreparada e inculta, como se vai assinalando por toda a parte, consequência também dos tais efeitos devastadores do poder, apenas e só entendido como a capacidade de alguém afectar a existência de outrem –ideia, entidade, grupo, pessoa– sem vir a ser incomodado por isso, subjectiva ou objectivamente.

E escreveu ele, ‘Que novo Renascimento podemos esperar? Em que nos basearemos? Nas novas tecnologias, nas máquinas, no espaço e na colonização de outros planetas? As ciências parecem dominar o mundo actual e serem a base de qualquer futuro, mas talvez não seja assim. E mais, não acredito que haja algum renascimento que não se baseie num novo humanismo. E apesar de estarmos a preterir todos os velhos saberes das nossas escolas latim, filosofia, história, filologia, arte, até a religião será daí mesmo que tudo vai renascer. Uma vez mais!

E, para o filósofo Giani Vattimo, ‘Entender que o mundo sempre é interpretado, significa vivê-lo contextualmente, debilitando a violência peremptória dos realismos’. Pensar o nosso tempo como algo que não está acabado, nem se pode pensar fixo, mas ‘Algo histórico donde se dá a chamada do Ser: só um Ser que se nos oferece como um pensamento débil, não um pensamento da força, mas um pensamento aberto à transformação, ao contexto, à história e à não violência’.

É a questão de nos encontrarmos sempre com ‘o outro’, nos caminhos interior ou exterior de cada um, até porque ‘Se o homem fracassa em conciliar a justiça e a liberdade, fracassa em tudo’.

A sentença é de Albert Camus e, a começar por ela, até se poderia escrever um tratado.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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