A Guerra na Ucrânia — Noam Chomsky: A Guerra da Rússia contra a Ucrânia Acelerou o Relógio do Dia do Juízo Final.  Por C.J. Polychroniou

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Obrigado a C.J. Polychroniou e a Truthout

25 m de leitura

 

Noam Chomsky: A Guerra da Rússia contra a Ucrânia Acelerou o Relógio do Dia do Juízo Final

 

 Por C.J. Polychroniou

Publicado por  em 30 de Março de 2022 (original aqui)

 

Um rapaz está em frente de um armazém em chamas que foi bombardeado em Kiev, Ucrânia, a 17 de Março de 2022. ARIS MESSINIS / AFP VIA GETTY IMAGES

Desde o início da guerra na Ucrânia, tem havido muita especulação sobre a estratégia militar da Rússia e os objetivos geoestratégicos do Presidente Vladimir Putin. De facto, permanece pouco claro o que Putin quer, e os repetidos convites do Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy para uma reunião cara a cara foram rejeitados por Moscovo, embora pareça que isto possa mudar em breve. Enquanto isso, a destruição da Ucrânia continua sem abrandar, enquanto os países europeus e os Estados Unidos intensificam as suas despesas militares, talvez a mais clara indicação de que uma nova Guerra Fria pode estar em curso.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) está a reforçar a sua frente oriental e não há nenhum sinal de Washington de que a administração Biden esteja disposta a empenhar-se numa diplomacia construtiva para pôr fim à guerra na Ucrânia. De facto, o Presidente Joe Biden está a adicionar combustível ao fogo, utilizando uma linguagem particularmente provocadora contra o presidente russo.

Na entrevista abaixo, o mundialmente famoso académico e principal dissidente Noam Chomsky analisa os mais recentes desenvolvimentos relativos à guerra na Ucrânia, mas também nos leva numa notável digressão sobre a extrema seletividade do ultraje moral dos EUA. Também partilha algumas das suas ideias sobre a cultura política contemporânea nos Estados Unidos, nomeadamente a remodelação do universo ideológico do Partido Republicano, o fervor político e a proibição de certos livros.

 

C.J. Polychroniou: Noam, os últimos relatórios sobre a guerra na Ucrânia indicam que a Rússia parece estar a mudar a sua estratégia, mostrando a intenção de dividir o país “como a Coreia do Norte e do Sul”, de acordo com alguns responsáveis ucranianos. Ao mesmo tempo, a NATO decidiu reforçar a sua frente oriental, como se a Rússia tencionasse invadir a Bulgária, Roménia e Eslovénia, enquanto Washington não só continua a fazer orelhas moucas à paz na Ucrânia, mas ouvimos Biden fazer um discurso tóxico contra Putin durante a sua recente visita à Polónia, o que, por sua vez, levou o Presidente francês Emmanuel Macron a advertir contra o uso de linguagem provocatória enquanto tentava assegurar um cessar-fogo. De facto, até o veterano diplomata americano Richard Haass disse que as palavras de Biden transformaram uma situação já perigosa numa situação ainda mais perigosa. Pergunto-lhe com toda a sinceridade: os Estados Unidos alguma vez consideraram que a resolução de conflitos poderia ser alcançada por outros meios que não a intimidação e o uso sistemático da força?

Noam Chomsky: Há aqui várias questões, todas elas importantes, todas elas merecedoras de mais debate do que eu posso tentar aqui. Refiro-me a elas, uma após a outra, mais ou menos por ordem.

No que diz respeito à atual situação militar, existem duas versões radicalmente diferentes. A mais conhecida é a do chefe da inteligência militar ucraniana, General Kyrylo Budanov: a tentativa da Rússia de derrubar o governo ucraniano falhou, e a Rússia está agora a recuar para as áreas ocupadas no sul e leste do país, na região de Donbass e na costa oriental do Mar de Azov, preparando um “cenário ao estilo coreano“.

O chefe da Direção de Operações Principais do Estado-Maior General das Forças Armadas da Federação Russa, Tenente-General Sergey Rudskoy, conta uma história muito diferente (desde 25 de Março): uma versão da famosa “Missão Cumprida” de George W. Bush no Iraque, mas sem os floreados teatrais:

O principal objetivo desta “operação militar especial” era defender a República Popular de Donbass contra os ataques genocidas dos nazis ucranianos ao longo dos últimos oito anos. Uma vez que a Ucrânia tinha rejeitado a diplomacia, era necessário expandir a operação para conseguir a “desmilitarização e desnazificação” da Ucrânia, destruindo alvos militares com grande cuidado para poupar os civis. Os principais objetivos foram efetivamente alcançados, exatamente como planeado. O que falta fazer é “libertar completamente o Donbass”.

Duas histórias diferentes para o mesmo fim, o que suponho estar correto.

O Ocidente, muito previsivelmente, opta pela primeira versão. Ou seja, abraça a história de que a Rússia é incapaz de conquistar cidades localizadas a poucos quilómetros da sua fronteira e defendida por forças militares que, pelos padrões mundiais, são modestas e apoiadas por um exército de cidadãos.

Ou o Ocidente está a optar por esta história (a segunda)? As suas reações indicam que prefere a versão do General Rudskoy: uma máquina militar russa incrivelmente poderosa e eficiente, tendo atingido rapidamente os seus objetivos na Ucrânia, está agora pronta a avançar para invadir a Europa, talvez esmagando a NATO com a mesma eficácia. Sendo assim, é necessário reforçar a frente oriental da NATO para evitar a iminente invasão por esta força monstruosa.

Surge outra hipótese: Será que Washington quer reforçar mais firmemente a grande prenda que Putin lhe deu, colocando a Europa sob o seu domínio e, por conseguinte, pretende reforçar uma frente oriental que sabe não estar sob ameaça de invasão?

Até agora, Washington não se desviou da posição da declaração conjunta que mencionámos há dias. Esta declaração política crucial confirmou o compromisso de Washington de acolher a Ucrânia na NATO e “finalizou um quadro estratégico de defesa que cria uma base para o reforço da cooperação estratégica de defesa e segurança EUA-Ucrânia”, fornecendo à Ucrânia armas avançadas antitanque e outras armas, bem como um “programa sólido de formação e exercícios, consistente com o estatuto da Ucrânia como parceiro da NATO com novas oportunidades”.

Há muito debate académico para sondar os recessos profundos da alma retorcida de Putin para descobrir porque decidiu invadir a Ucrânia. Ao recorrer à agressão criminosa, foi um passo além das habituais mobilizações anuais nas fronteiras da Ucrânia, num esforço para tentar chamar a atenção para os seus apelos sem resposta para que as preocupações de segurança da Rússia fossem abordadas, as quais foram reconhecidas como essenciais por muitos diplomatas americanos de alto nível, diretores da CIA e muitos outros que alertaram Washington para a loucura de ignorar estas preocupações.

Talvez explorar a alma de Putin seja a abordagem certa para compreender a sua decisão em Fevereiro de 2022. Mas pode haver outra hipótese. Talvez quisesse dizer o que ele e todos os outros líderes russos têm vindo a dizer desde o antigo Presidente Boris Ieltsin há 25 anos atrás sobre a neutralização da Ucrânia; e talvez, embora a declaração conjunta altamente provocadora tenha sido silenciada nos Estados Unidos, Putin lhe tenha prestado atenção e, por conseguinte, decidido aumentar os desatendidos esforços anuais anteriormente desdenhoso com uma agressão direta.

Uma hipótese, talvez.

A imprensa informa que “a Ucrânia está pronta para declarar a sua neutralidade, abandonar o seu desejo de aderir à NATO e prometer não desenvolver armas nucleares se a Rússia retirar as suas tropas e Kiev receber uma garantia de segurança…”.

Isto levanta uma questão: irão os EUA ceder e acelerar os esforços para poupar mais sofrimento à Ucrânia em vez de interferirem nestes esforços, recusando-se a participar nas negociações e mantendo a posição da declaração política de Setembro passado?

Isto leva-nos ao apelo improvisado de Biden para a destituição de Putin, que não oferece qualquer possibilidade de fuga para Putin. A declaração de Biden, reconhecida como uma declaração de guerra virtual que poderia ter consequências terríveis, causou uma enorme consternação em todo o mundo, incluindo entre a sua equipa, que se apressou a assegurar ao mundo que as suas palavras não significavam o que diziam. A julgar pela posição do seu círculo interno sobre questões de segurança nacional, é difícil ser-se otimista.

Trump está agora a ser ultrapassado pela direita, por mais que isso fosse difícil de imaginar não há muito tempo.

Biden explicou desde então que o seu comentário foi uma explosão espontânea de “ultraje moral”, uma repulsa pelos crimes do “carniceiro” que dirige a Rússia. Vamos ver se neste momento existem outras situações que possam suscitar o mesmo tipo de indignação moral?

Não é difícil pensar em casos específicos. Um dos mais aterradores é o Afeganistão. Literalmente, milhões de pessoas enfrentam a fome, uma tragédia colossal. Há comida nos mercados, mas sem acesso aos bancos, as pessoas com pouco dinheiro têm de ver os seus filhos morrer à fome.

Porquê? Uma das principais razões é que Washington se recusa a libertar fundos do Afeganistão, que são mantidos em bancos de Nova Iorque, a fim de punir os pobres afegãos que ousam resistir à guerra de 20 anos de Washington. Os pretextos institucionais são ainda mais infames: os EUA devem bloquear e reter os fundos dos afegãos famintos para o caso de os americanos quererem reparações pelos crimes de 11 de Setembro de 2001, pelos quais os afegãos não têm qualquer responsabilidade. Recordar que os Talibãs ofereceram uma rendição total, o que teria significado a entrega dos suspeitos da Al-Qaeda. (Eram apenas suspeitos na altura da invasão dos EUA, e de facto eram suspeitos muito tempo depois, como o FBI confirmou). Mas os EUA responderam firmemente, decretando que “os Estados Unidos não desejam negociar rendições”. Isto foi afirmado pelo Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, ecoado por George W. Bush.

Se existe alguma indignação moral por este crime atual, ela é muito difícil de detetar. E está longe de ser o único caso. Há lições a aprender? Talvez, mas embora pareçam relativamente simples, elas merecem algumas palavras.

A indignação moral dos crimes russos na Ucrânia é compreensível e justificado. A extrema seletividade do ultraje moral também é compreensível, mas não é justificada. É compreensível por causa da sua banalidade.

É difícil imaginar um princípio moral mais básico do que a Regra de Ouro – na tradição judaica, a regra de que “o que é odioso para si, não o faça aos outros”. [N.T. Numa forma primitiva, “Não faça aos outros o que eles te fizeram”, a lei da retaliação, tal como ordenada no Pentateuco, é uma lei do progresso, na medida em que se opõe a uma vingança descontrolada e desproporcionada. A vingança não é condenada, mas deve ser “justa”].

Não há nenhuma regra mais elementar, nem mais sistematicamente violada. Isto também é verdade para o seu corolário: a energia e os esforços devem centrar-se aonde se pode fazer o bem mais valioso. Nos assuntos internacionais, isto significa normalmente concentrar-se nas ações do próprio Estado, especialmente em sociedades mais ou menos democráticas onde os cidadãos têm algum papel a desempenhar no resultado. Podemos deplorar os crimes cometidos em Myanmar [também conhecida como Birmânia], mas pouco podemos fazer para aliviar o sofrimento e a miséria em Mianmar.

Poderíamos fazer muito para ajudar as infelizes vítimas que fugiram ou foram expulsas, os Rohingya no Bangladesh. Mas não o estamos a fazer.

A observação pode generalizar-se. O princípio é certamente elementar. Dizer que, na prática, este princípio não é respeitado seria verdadeiramente um grande eufemismo.

Não é que não compreendamos e honremos o princípio. Fazemo-lo, com verdadeira paixão, quando o princípio é observado nas sociedades dos nossos inimigos oficiais: admiramos muito os russos que desafiam corajosamente a dura autocracia russa e protestam contra a invasão russa. Isto faz parte de uma longa tradição. Sempre admirámos muito os dissidentes soviéticos que condenavam os crimes do seu próprio Estado, e nunca nos preocupámos com o que diziam sobre os outros, mesmo quando aplaudiam os grandes crimes dos Estados Unidos. O mesmo se aplica aos dissidentes chineses e iranianos. Só quando o princípio se aplica a nós próprios é que não o podemos encarar.

Uma ilustração dramática entre muitas é a invasão americana do Iraque. Pode ser criticada como um “erro estratégico” (segundo Barack Obama) mas não naquilo que é a sua essência: uma agressão não provocada e assassina, o “supremo crime internacional” nas palavras do acórdão de Nuremberga.

Por conseguinte, a seletividade dramática do ultraje moral é compreensível, mas é, de facto, ela própria um outro ultraje. Numa forma pobre de justificação, podemos acrescentar que não se trata de uma invenção dos Estados Unidos. Os nossos antecessores, como potências imperiais hegemónicas, não eram diferentes, nomeadamente a Grã-Bretanha; eram indiscutivelmente piores, embora após séculos de comportamento vil haja agora o início de uma tomada de consciência.

Passando à questão seguinte, será que os EUA alguma vez imaginaram que os conflitos poderiam ser resolvidos por meios pacíficos? Sem dúvida. Há exemplos disto que vale a pena ver mais de perto. Podemos aprender muito com eles sobre assuntos internacionais, se é isso que queremos.

Neste preciso momento, estamos todos a ser convidados a saudar um exemplo notável de uma iniciativa americana para resolver um conflito por meios pacíficos: a “cimeira Negev” em curso entre Israel e quatro ditaduras árabes, que irá “aumentar as hipóteses de paz e resolução de conflitos em toda a região”, segundo o Secretário de Estado António Blinken, que representa Washington nesta reunião histórica.

A cimeira reúne os Estados mais brutais e violentos da esfera de influência dos EUA com base nos Acordos de Abraham, que formalizaram pela primeira vez estabeleceram as relações políticas tácitas entre Israel, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e Marrocos, com a Arábia Saudita implicitamente presente através do seu satélite, a ditadura do Bahrein. A estes Estados juntou-se, na cimeira, o Egipto, que está atualmente a sofrer a ditadura mais feroz da sua história pouco gloriosa, com cerca de 60.000 prisioneiros políticos e uma repressão brutal. O Egipto é o segundo maior beneficiário da ajuda militar dos EUA, depois de Israel. Não deveria ser necessário abordar o registo sombrio do maior beneficiário, recentemente designado Estado do apartheid pela Human Rights Watch e pela Amnistia Internacional.

Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita partilham a principal responsabilidade pelo que a ONU descreve como a pior crise humanitária do mundo: o Iémen. O número oficial de mortos no último ano é de 370.000. Quanto ao número real de mortos, ninguém sabe. O país está em ruínas totais e enfrenta uma fome quase total. A Arábia Saudita intensificou o bloqueio do único porto utilizado para a importação de alimentos e combustíveis. A ONU está a emitir avisos extremamente alarmantes, nomeadamente a ameaça de fome iminente para centenas de milhares de crianças. Os avisos gerais encontram eco em peritos estado-unidenses, nomeadamente Bruce Riedel da Brookings Institution, que foi um analista sénior da CIA para o Médio Oriente sob quatro presidentes. Ele defende que a “acção ofensiva” saudita deveria ser investigada como um crime de guerra.

As forças aéreas sauditas e dos Emirados não podem operar sem a assistência dos EUA sob a forma de aviões, formação, inteligência e peças sobressalentes. A Grã-Bretanha é parte no crime, juntamente com outras potências ocidentais, mas são os Estados Unidos que estão a liderar o caminho.

A ditadura marroquina também foi bem recebida pela iniciativa de paz de Trump. Nos últimos dias do seu mandato, Donald Trump até reconheceu oficialmente a anexação do Sahara Ocidental por Marrocos, desafiando o Conselho de Segurança da ONU e o Tribunal Internacional de Justiça – aliás, reforçando o quase monopólio de Marrocos sobre o potássio, um recurso vital e insubstituível, que se tornou parte integrante das prerrogativas dos EUA.

O reconhecimento da anexação criminal de Marrocos não deveria ter sido uma surpresa. Seguiu-se ao reconhecimento por parte de Trump da anexação da parte síria dos Montes Golan e da Grande Jerusalém , ambos os casos em violação das injunções do Conselho de Segurança. O apoio de Trump a estas violações do direito internacional foi assumido em ambos os casos como parte do maravilhoso isolamento de que os EUA frequentemente gozam, como aconteceu nos seus 60 anos de história de torturas feitas a Cuba.

Estes são apenas outros exemplos do compromisso com o “Estado de direito” e a santidade da soberania que Washington demonstrou ao longo de 70 anos no Irão, na Guatemala, no Brasil, no Chile, no Iraque, etc. – um compromisso que obriga os EUA a estender o tapete vermelho de boas-vindas à Ucrânia para ingressar na NATO.

A cimeira que estamos agora a celebrar é uma consequência direta dos Acordos de Abraham. Para a sua implementação, Jared Kushner foi nomeado para o Prémio Nobel da Paz (pelo Professor de Direito de Harvard Alan Dershowitz).

Os Acordos de Abraham então e a cimeira de Negev agora não são de forma alguma uma primeira demonstração do empenho de Washington na resolução pacífica de conflitos. Afinal, Henry Kissinger ganhou o Prémio Nobel da Paz por trazer a paz ao Vietname, pouco depois de ter feito um dos mais dramáticos apelos ao genocídio na história diplomática: “Uma campanha massiva de bombardeamentos no Camboja. Tudo o que voe para qualquer coisa que se mexa “. As consequências foram terríveis, mas não importa.

O prémio atribuído a Kissinger lembra-me a proposta de um físico israelita de atribuir o prémio de física a Menachem Begin [fundador do partido Likud israelita e ex-primeiro-ministro]. Quando lhe perguntaram porquê, ele respondeu: “Bem, ele recebeu o Prémio Nobel da Paz, então porque não o Prémio Nobel da Física?”

Por vezes não é justo fazer disto uma piada. Jimmy Carter mereceu certamente o Prémio Nobel da Paz que lhe foi atribuído pelos seus esforços depois de ter deixado a presidência, embora o comité de atribuição de prémios tenha salientado que, enquanto ainda estava em funções, a “contribuição crucial do Presidente Carter para a conclusão dos Acordos de Camp David entre Israel e o Egipto [foi] em si mesma um feito suficientemente importante para o qualificar para o Prémio Nobel da Paz”.

Os esforços de Carter em 1978 foram provavelmente empreendidos com a melhor das intenções. No entanto, não foi exatamente isto que aconteceu. Menachem Begin concordou em abandonar o projeto de colonatos israelitas no Sinai egípcio, mas insistiu que os direitos palestinianos fossem excluídos dos acordos, e os colonatos ilegais aumentaram acentuadamente durante o mandato de Ariel Sharon, mais uma vez com a ajuda essencial dos EUA e em violação das injunções do Conselho de Segurança. E como os analistas estratégicos israelitas rapidamente assinalaram, a eliminação da dissuasão egípcia permitiu a Israel intensificar os seus ataques ao Líbano, o que acabou por levar à invasão apoiada pelos EUA em 1982, que matou cerca de 20.000 libaneses e palestinianos e destruiu grande parte do Líbano, sem qualquer pretexto credível.

Ronald Reagan ordenou finalmente a Israel que pusesse fim ao assalto quando o bombardeamento da capital Beirute colocou Washington num embaraço internacional. Israel, claro, cumpriu, mas manteve o seu controlo sobre o sul do Líbano, cometendo atrocidades sistemáticas contra aqueles a quem chamou “aldeões terroristas” por terem resistido à ocupação bárbara. Foi também Israel que criou uma câmara de tortura infame em Khiam, guardada como lembrança depois de Israel ter sido forçado a retirar-se pelos guerrilheiros do Hezbollah. Foi-me dada uma visita guiada a esta sala antes de ser destruída pelos bombardeamentos israelitas para apagar qualquer memória deste crime.

Portanto, sim, há casos em que os EUA, como outras potências imperiais hegemónicas antes dele, têm procurado resolver conflitos por meios pacíficos.

 

C.J. Polychroniou: Voltando ao que está a acontecer aqui, os republicanos apoiam políticas fortes contra a Rússia, embora o seu “grande líder” continue a variar a sua retórica sobre Putin a fim de se manter a par dos desenvolvimentos atuais. A questão aqui é: Porque é que os membros do Partido Republicano ainda apoiam a Rússia e Putin, especialmente os da extrema-direita do espectro político? O que motiva a extrema-direita americana a discordar no Partido Republicano sobre a Rússia, quando a esmagadora maioria da opinião pública do país apoia a Ucrânia?

Noam Chomsky: Não se trata apenas da Rússia e da Ucrânia. Embora a Europa tenha condenado a “democracia iliberal” do primeiro-ministro Viktor Orbán na Hungria, ele tornou-se o preferido de grande parte da direita americana. A Fox News e o seu principal radiodifusor Tucker Carlson lideram o caminho, mas outros “conservadores” proeminentes participam no elogio ao regime nacionalista cristão proto-fascista que Orbán impôs ao mesmo tempo que destruía as liberdades e a democracia húngaras.

O relógio do apocalipse já não fala em minutos; durante o mandato de Trump mudou para segundos, e está agora ajustado para 100 segundos até à meia-noite – extinção.

Tudo isto reflete um conflito dentro do Partido Republicano – ou, para ser mais preciso, o que resta do que outrora foi um partido político legítimo, mas que agora está classificado ao lado de partidos europeus de origem neofascista. Trump precipitou de facto tendências que datam da tomada do partido por Newt Gingrich há 30 anos atrás. E agora está a ser ultrapassado à sua direita, por mais que isso fosse difícil de imaginar não há muito tempo. Grande parte da liderança está à deriva em direção ao modelo de Orbán ou para além dele, levando consigo um adulador eleitorado de base. Penso que o debate no seio do partido sobre a Rússia e a Ucrânia deve ser visto neste contexto.

C.J. Polychroniou: Os legisladores republicanos estão a intensificar os seus esforços para proibir os livros sobre a raça, como se a escravatura e a opressão racial nos EUA fossem fruto da imaginação e não de factos históricos. As pressões para proibir os livros e suprimir os votos estarão relacionadas? Serão estes desenvolvimentos mais uma indicação de que uma guerra civil pode estar a ser travada nos EUA?

Noam Chomsky: Proibir livros não é novidade nos EUA e suprimir os votos das pessoas consideradas “as pessoas erradas” é tão tipicamente americano como a tarte de maçã, para usar um cliché. É algo que está atualmente a regressar em força enquanto a organização republicana, que parece que voltará em breve ao poder, avança para uma espécie de protofascismo. Alguns analistas cautelosos preveem a guerra civil. No mínimo, está a surgir uma grave crise interna. Há muito que se fala do declínio americano. Na medida em que é real, o fator principal é interno. Se formos mais fundo, a maior parte da decadência social interna é o resultado do impacto brutal dos programas neoliberais dos últimos 40 anos, que já discutimos anteriormente. Já é suficientemente mau quando a Hungria se encaminha para o protofascismo nacionalista cristão. Mas quando isto acontece no estado mais poderoso da história mundial, as implicações são preocupantes.

 

C.J. Polychroniou: Impor duras sanções aos países que se recusam a vergar-se às ordens de Washington é uma tática de longa data dos EUA. Na realidade, mesmo os académicos que vivem em países sob sanções são tratados como indesejáveis. E, em geral, a cultura política dos Estados Unidos não é de modo algum, demasiado favorável à ideia de se permitir que as vozes dissidentes se façam ouvir na arena pública. Gostaria de comentar estas características fundamentais da cultura política nos Estados Unidos?

Noam Chomsky: Este é um tema demasiado vasto para ser discutido aqui. E demasiado importante para comentar de ânimo leve. Mas vale a pena lembrar que, mais uma vez, isto não é algo de novo. Todos se lembram que o augusto Senado mudou o nome de “French fries” para “freedom fries” [“fritos franceses” para “fritos da liberdade”] numa reação furiosa à recusa insolente da França em participar no criminosa assalto de Washington ao Iraque. Em breve poderemos ver algo semelhante se o Presidente francês Macron, uma das poucas vozes razoáveis nos escalões superiores do Ocidente, continuar a apelar à contenção nas palavras e nos atos e à procura de opções diplomáticas. O fácil resvalar para o alarmismo remonta muito mais atrás, atingindo alturas cómicas quando os EUA entraram na Primeira Guerra Mundial e qualquer coisa alemã tornou-se instantaneamente objeto de anátema.

O flagelo que menciona não está limitado às costas americanas. Para tomar um exemplo pessoal, um colega meu disse-me recentemente que um dos seus artigos lhe foi devolvido, não lido, por um jornal de filosofia altamente respeitado em Inglaterra, com uma nota afirmando que o artigo não podia ser considerado por ser cidadão de um país sob sanções: o Irão.

A Europa opõe-se fortemente a estas sanções, mas como de costume, submete-se ao Mestre, mesmo ao ponto de proibir um artigo de um filósofo iraniano. O grande presente de Putin a Washington tem sido reforçar esta subordinação.

Poderia acrescentar muitos mais exemplos aqui, alguns da minha própria experiência, mas não se deve esquecer que a malignidade se estende muito para além disso.

Estes são tempos perigosos. Temos de recordar que durante o mandato de Trump, os ponteiros do relógio do Dia do Juízo Final deixaram cair os ponteiros dos minutos e agora mostram apenas os segundos, agora está ajustado para 100 segundos até à meia-noite – extinção. Os analistas que puseram em marcha o relógio dão três razões para isto: guerra nuclear, destruição ambiental, e o colapso tanto da democracia como de uma esfera pública livre, minando qualquer esperança de que uma cidadania informada e consciente obrigue os seus governos a triunfar sobre a dupla corrida para o desastre.

A guerra na Ucrânia exacerbou estas três tendências desastrosas. A ameaça nuclear tem aumentado dramaticamente. O imperativo de reduzir drasticamente a utilização de combustíveis fósseis tem sido minado pela adulação dos destruidores de toda a vida na Terra por terem salvo a civilização face aos russos. E tanto a democracia como uma esfera pública livre estão em declínio alarmante.

Tudo isto nos faz lembrar o que se passava há 90 anos atrás, mesmo que as apostas sejam muito mais altas hoje em dia. Nessa altura, os Estados Unidos responderam à crise liderando o caminho para a social-democracia, impulsionados em grande parte por um movimento laboral renascido.  A Europa caiu nas trevas fascistas.

O que irá acontecer agora é incerto. A única certeza que temos é que o que acontecer vai depender apenas de nós.

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C.J. Polychroniou é um economista político/cientista político que ensinou e trabalhou em universidades e centros de pesquisa na Europa e nos Estados Unidos. Os seus principais interesses de investigação são a integração económica europeia, a globalização, as alterações climáticas, a economia política dos Estados Unidos e a desconstrução do projeto político-económico do neoliberalismo. Ele é um colaborador regular da Truthout, assim como membro do Projeto Intelectual Público da Truthout. Publicou numerosos livros e mais de 1000 artigos que apareceram numa variedade de revistas populares, revistas, jornais e sites de notícias. Muitas das suas publicações foram traduzidas para várias línguas estrangeiras, incluindo árabe, chinês, croata, espanhol, francês, grego, italiano, holandês, português, russo e turco. Ele é o autor de Optimism Over Despair: Noam Chomsky On Capitalism, Empire, and Social Change, uma antologia de entrevistas com Chomsky publicada originalmente na Truthout e recolhida pela Haymarket Books. Climate Crisis and the Global Green New Deal: The Political Economy of Saving the Planet (com Noam Chomsky e Robert Pollin como autores principais); The Precipice: Neoliberalism, the Pandemic, and the Urgent Need for Radical Change, uma antologia de entrevistas com Chomsky originalmente publicada em Truthout e recolhida pela Haymarket Books (2021); e Economics and the Left: Interviews with Progressive Economist (2021).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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