Pelas reacções diárias, tanto na imprensa como no que se vai ouvindo em qualquer lugar, tenho a sensação de que vai aumentando a ideia de que o autoritarismo tem, pelo menos, um valor semelhante ao da liberdade. Não adianta comparar o putinismo com o antigo regime soviético, pois logo aparece a ligação de Zelensky à NATO e ao nazismo. Aliás, creio que também estamos a assistir à queda daquele muro que devia existir entre ‘informação’ e ‘opinião’ que estará também a destruir a separação entre ‘factos’ e ‘juízos’, queda e destruição bem notórias e visíveis em todos os que se apanham com um microfone à frente, independentemente do lugar que ocupem.
Mas não é apenas por cá, pois Madeleine Albright, a política norte-americana nascida na antiga Checoslováquia, que foi secretária de estado de Bill Clinton, e falecida em Março último, escreveu num dos seus derradeiros escritos no ‘New York Times’, a impressão com que ficou depois do primeiro encontro com Putin, ‘É pequeno e pálido, tão frio que parece um réptil, mas sabendo bem o valor da palavra’.
Valor que, Jesus Parra Montero, cronista e catedrático de filosofia, salientou recentemente assim, ‘Sem entrar na zoologia nem na biologia, “As metamorfoses”, obra maior do poeta romano Ovídio, entre a épica e a didática, foi um dos livros clássicos mais lidos durante a Idade Mádia e o Renascimento; o poema, que se estende por quinze volumes, conta a história do mundo desde a sua criação até ao “endeusamento” de Júlio César; combina livremente a mitologia e a história. Acabado no século VIII d.C., inspirou múltiplos artistas e continua a exercer uma profunda influência na cultura ocidental’.
O também filósofo e sacerdote Anselmo Borges, cita o teólogo Torres Queiroga, numa das suas crónicas no DN, ‘Se não fôssemos mortais, o tempo que passa não teria esse valor extraordinário, único, e não poderíamos construir um destino individual, uma biografia, uma história’.
E Victor Ângelo, ex-secretário-geral-adjunto da ONU, afirmou há dias no DN, ‘É verdade que saber ouvir é uma arte difícil. As pessoas importantes consideram que o seu estatuto fica afectado se forem sóbrias em palavras’, reforçando assim a importância da palavra, seja qual for a situação.
Não podemos esquecer que, tanto para Sigmund Freud como para Eric Fromm, a psicanálise refere também todo e qualquer acção de destruição e autodestruição, como uma patologia que reduz a zero ou anula a condição humana; uma desumanização onde o mal e o bem se confrontam e desafiam, arriscando um outro confronto entre a loucura e a razão, podendo também alargar-se dos indivíduos, a comunidades, a países e continentes.
Talvez por isso, o escritor e jornalista Álvaro Bermejo considera ‘Dentro do Homo Sapiens lateja um Homo Demens, capaz de desencadear violências extremas, guerras absurdas ou assassinatos gratuitos. A loucura política assenta-lhe bem, acima de tudo quando passa das margens para o centro do sistema’.
Também o filósofo francês Jean Baudrillard refere a este tema, mas de maneira bem diferente ‘Ao longo do tempo, alguns homens viveram uma luta constante pela destruição, enquanto outros lutam pela criação e pelo progresso da humanidade’, mas devendo salientar-se aqui, como todas estas anotações contêm, implícita, a importância da palavra.
Creio que tudo leva a crer estarmos só a assistir a uma repetição, mas devida e tecnologicamente potenciada, de outras ‘histórias’, as que o ser humano já sofreu e assistiu ao longo dos séculos, por onde se lhe conta a existência em cima deste planeta, por nunca mudarem –e deviam!– os paradigmas dos actores, bem como o nível dos instintos, das ambições, das desigualdades, da corrupção e de outros caminhos mais ou menos ínvios.
Aliás, Noam Chomsky, considerado por muitos como um dos intelectuais mais notáveis do mundo de hoje, avisou recentemente ‘Estamos a aproximar-nos do ponto mais perigoso da história da humanidade, frente à perspectiva de destruição das vida humana na Terra’ e, numa outra entrevista, ‘O máximo que poderíamos esperar neste momento, seria consolidar o que há. E isso já será muito difícil’.
Caberá ‘meter’ aqui uma estória que foi contada pelo filósofo e ensaísta francês Michel de Montaigne -‘No século XVI, três “bárbaros” da tribo amazónica Tupinambá, foram “convidados” para a corte do rei Carlos IX. Durante a visita mostraram-lhes todas as “conquistas” da civilização ocidental, que eles olharam com a máxima atenção e respeito. No final do passeio esperavam uma apreciação positiva de tudo o que tinham visto e foi o que lhes perguntaram; mas (e grande foi o espanto!) para a cultura “atrasada” dos Tupinambás, a desigualdade gritante que tinham visto, era intolerável e injustificável, pois na sua terra, a igualdade não era negociável, porque viver em comunidade estava sempre acima dos privilégios e ambições pessoais’.
Não há qualquer apontamento do que disseram os nobres franceses, talvez surpreendidos pelas palavras de uns “bárbaros” esfarrapados. Mas Montaigne assinala, de modo assertivo para não ferir susceptibilidades, que eles não podiam entender que as classes baixas, pedintes e miseráveis, não se revoltassem para ocupar os faustosos palácios dos reis e da aristocracia.
Talvez tudo isto dependa da importância que, desde sempre, devia merecer a dignidade do Homem, tendo apenas por fundamento o seu ‘ser pessoa’, que adquiriu ou lhe foi garantido, só pelo facto de ter nascido, questão sempre ignorada pelos autocratas.
Até por isso, volto a deixar aqui, o que o Papa Francisco afirmou em Junho de 2021, na mensagem que dirigiu à 109ª Conferência da OIT, ‘Sempre a par do direito à propriedade privada está o princípio mais importante, que a precede: o princípio da subordinação de toda a propriedade privada ao destino universal de todos os bens da Terra. E, portanto, o direito de todos ao seu uso. Às vezes, quando falamos de propriedade privada, esquecemos que é um direito secundário, que depende deste direito primordial, que é o destino universal dos bens’.
‘E, pela enésima vez’, escreve Anselmo Borges, no DN de sábado último, ‘estamos perante a barbárie, porque perdemos a memória: esquecemos a História, esquecemos o que nos disseram os nossos avós, os nossos pais’.
Com efeito, tudo parece confirmar que ‘O tempo é a maior distância entre dois lugares’, como também deixou escrito o dramaturgo Tennessee Williams, que não era católico nem nunca viveu no Amazonas!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Amigo, hoje, saboreei, com tempo a tua crónica…Degustei cada afirmação e cada juizo..No fim, fico do lado dos Tupinambás : ser gente, ser humana corrigiria a nossa rota. “Não sei por onde vamos, não sei para onde vamos”, só sei que não ( queria ir por onde vamos…Estes tempos são de desalento…OBRIGADA! O meu abraço! CL
Amigo, hoje, saboreei, com tempo a tua crónica…Degustei cada afirmação e cada juizo..No fim, fico do lado dos Tupinambás : ser gente, ser humana corrigiria a nossa rota. “Não sei por onde vamos, não sei para onde vamos”, só sei que não ( queria ir por onde vamos…Estes tempos são de desalento…OBRIGADA! O meu abraço! CL
Um grande abraço. E também não sei por nem para…
A.O.