Mahatma Gandhi, o líder pacifista indiano e pai da luta pela não-violência que veio a terminar na independência da Índia, afirmou muitas vezes, ‘não há caminho para a paz; a paz é o caminho’.
Uma sentença de difícil entendimento nestes dias, quando a razão fundamental dos conflitos que nos atormentam pela indefinição e incerteza, tem origem na desigualdade económica, generalizada por uma globalização a fazer as delícias de uns tantos e a desgraça da grande maioria, mas também nas enormes diferenças culturais pois, a dar razão ao que escreveu Samuel Huntington em ‘O choque de civilizações’, numa espécie de resumo de toda a sua obra, ‘Uma ordem internacional baseada nas civilizações, é a melhor garantia contra uma guerra mundial’.
Pensando no que disse Gandhi e no que vamos lendo, ouvindo e vendo, na imprensa de todos os continentes, excluindo as diatribes dos absolutamente ineptos como os trumpas ou os boçalnaros, não creio que possa vir a ler ou ouvir, alguém afirmar , ou tão só pedir, ‘Se quiserem a paz, construam a paz!’, por a democracia exigir raízes bem fundas e uma prática assumida e constante de alguns anos, de maneira a estar interiorizada em todos os que mandam e em todos os que têm de acatar.
Neste caso e, se calhar por isso, talvez o mundo necessitasse de ter previsto e calculado a última acção de Putin, já anunciada em 2014 com a anexação da Crimeia e, ainda e também, o inevitável aparecimento do ‘bom selvagem’, o paradigma do vencedor em todas as novelas distópicas, publicadas e vindas a público no mundo inteiro, nas últimas dezenas de anos.
Obviamente que, a seguir tal maneira de pensar, será o ‘bom selvagem’ e encarnar o Bem e o patrão da Rússia a encarnar o Mal, pese o que pesarem as considerações sobre os EUA, a NATO, o ‘apagado’ papel da China e o ‘simbólico’ da ONU da António Guterres, porque para o cidadão europeu comum e quase despolitizado, o tal ‘bom selvagem’ estará mais conforme com o um futuro europeu e a Ucrânia incluída, porque ‘até são trabalhadores e só querem a identidade e a dignidade que um qualquer natural de outro país merece’, como se ouve dizer em qualquer lado.
E, seguindo o filósofo italiano Mario Perniola na obra ‘Guerra virtual, guerra real’, ao referir a justificação de uma guerra ‘não por ser justa, mas precisamente pelo contrário, por a força já não conseguir manter o mundo congelado no seu “statu quo”’, não por a violência nos parecer insuportável, ‘mas pelo facto de pretender ainda não ter um discurso, um pensamento e uma razão, quando até à véspera desprezava todos os discursos, todos os pensamentos e todas as razões’.
E o historiador Tucídides –séc IV a.C.– também citado na mesma obra, ‘Sabem tão bem como nós que, nos raciocínios humanos, se tem em conta a justiça quando a necessidade ameaça com igual força ambas as partes; em caso diferente, os mais fortes exercem o seu poder e os mais fracos adaptam-se-lhe’.
Não me esqueço também de ter lido uma outra sentença do filósofo dinamarquês Peter Sloterdijk, numa entrevista recente ao ‘El País’, talvez a ser bem considerada agora, ‘muitos cidadãos do Ocidente dão hoje absoluta prioridade ao “privatism”, o conforto da vida privada –de que a gastronomia é exemplo máximo– e deixaram de acreditar em ideologias ou na política, resignando-se aos tristes líderes que temos’.
Mas também me lembro de ter lido, ‘No mundo ocidental marcado pelo aumento de doenças da alma, narcisismo e suicídios, tendo pensado durante a juventude sobre o que fazemos no mundo, por que nascemos e como chegar ao fim do nosso, por que nascemos e como chegar ao fim de nossas vidas, acreditando que a experiência valeu a pena, é certamente tão essencial quanto saber ler e escrever, adicionar e subtrair, ou ter lido Shakespeare ou outro autor de igual valia’.
Dostoievski escreveu isso e estava absolutamente certo – na vida, tanto ou mais importante do que viver é saber por que se vive – pois no mundo em que o mais importante parece ser só o que proporciona lucros estratosféricos, tanto a História, como a Filosofia a Literatura ou a Arte, mesmo sem cotizarem na Bolsa, garantem que nenhum povo pode viver nem se desenvolver e progredir humanamente, sem conhecer o seu passado e todos os factos que estão na origem da sua liberdade, o bem mais precioso de todos os humanos.
É frequente, em qualquer conversa sobre estes temas, não haver conclusão alguma, por a política estar quase sempre no domínio do inexplicável, tanto por não a entendermos como por os políticos terem, muitas vezes, enorme dificuldade em a explicarem, mas em casos como este e, para terminar da mesma maneira que comecei, lembro que Václav Havel, o dramaturgo que foi presidente da República Checa, ter também deixado escrito ‘Às vezes, as palavras podem ser mais poderosas que dez divisões militares’.
Mas, e de qualquer maneira, ‘Nós, reféns da intoxicação dos “media”, manipulados na indiferença geral, estamos desde já todos “in situ”, reféns estratégicos: o nosso lugar é o ecrã onde, dia a dia, somos virtualmente bombardeados, servindo todos como valor de troca’, escreveu Jean Baudrillard a propósito de uma situação semelhante em ‘A guerra do Golfo não terá lugar’.
E esta, a ver vamos!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor