GUERRA OU PAZ – A UCRÂNIA ENTRE O OCIDENTE E O ORIENTE – ORIGENS E RESPONSABILIDADES DAS GUERRAS JUGOSLAVAS, por PIERRE-MARIE GALLOIS, com apresentação de DENNIS RICHES

 

(1911 – 2010)

Pierre-Marie Gallois sobre as Origens e Responsabilidade das Guerras Jugoslavas (1990-99) (original aqui), por Dennis Riches

Lit by Imagination, 29 de Julho de 2018

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Introdução por DENNIS RICHES*

 

Pierre-Marie Gallois, que morreu em 23 de Agosto com  99 anos, era um brigadeiro da força aérea francesa que serviu com a RAF na Segunda Guerra Mundial; após o conflito, tornou-se um ator-chave no desenvolvimento unilateral da bomba nuclear no seu país natal

Date: 2018-07-29Author: Dennis Riches1 Comment

 

Pierre-Marie Gallois (1911-2010) foi uma das figuras-chave na decisão da França de desenvolver um arsenal nuclear. Foi um piloto veterano da II Guerra Mundial, baseado no Reino Unido, que relutantemente bombardeou o seu próprio país durante a ocupação alemã. Tendo conhecido os horrores dessa guerra, ficou entusiasmado com o potencial dos arsenais nucleares para se tornarem construtores de paz – garantes da soberania e da dissuasão. Devido ao que escrevi anteriormente sobre as injustiças selvagens e crimes ambientais que foram perpetrados durante os testes nucleares, poder-se-ia pensar que eu deveria colocar o Sr. Gallois na minha coluna de vilões e nunca dar qualquer apoio a qualquer opinião que ele tenha tido. Esta personalização dos debates políticos, e da discussão da história e das relações internacionais é especialmente acentuada nesta altura em que Donald Trump é presidente. As pessoas parecem ser totalmente incapazes de avaliar as políticas em função dos seus méritos individuais e não em função de quem as apoia. As políticas económicas, sociais e ambientais de Trump são 99% contraditórias e desastrosas, mas isto não significa que ele não possa ocasionalmente estar certo sobre alguma coisa, ou que não possa ocasionalmente impedir que alguma situação horrível se agrave. Considerando os danos massivos  causados às relações EUA-Rússia por anteriores presidentes americanos e instituições governamentais, elogio relutantemente Trump por ter tido um diálogo frente a frente com o único outro chefe de Estado que tem o comando de 7.000 ogivas nucleares. Seria bom que o presidente fosse outra pessoa e fizesse um trabalho melhor sobre esta e outras questões, mas ele é o único presidente dos EUA neste momento. Não há mais ninguém. Os arsenais dos EUA e da Rússia representam uma ameaça única para o planeta que se sobrepõe a outras preocupações sobre espionagem (que ambos os lados conduzem um sobre o outro), vendas de petróleo e gás, e esferas de influência em nações limítrofes.

De forma semelhante, olho para as opiniões do Sr. Gallois pelos seus méritos próprios, e tenho alguma compreensão do que o motivou a ter tanta fé na dissuasão nuclear. Não tenho qualquer problema em apoiar os pontos de vista expressos pelo Sr. Gallois na transcrição que se segue. Penso que os nucleocratas franceses como ele cometeram um grave erro ao depositar tanta fé na dissuasão nuclear, com total negligência sobre como estavam a prejudicar os soldados franceses nos locais de ensaio, e a terra e o povo da Polinésia Francesa e da Argélia.

Por outro lado, nesta transcrição, o Sr. Gallois expressa um compromisso sincero para com a paz e os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas e nos acordos de Helsínquia. Ele deplora a violação destes princípios nos esforços da Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido para redesenhar as fronteiras da Europa nos anos 90. A alegada razão da rutura – que a Jugoslávia era demasiado grande e multiétnica para ser viável – não fazia sentido. Os Estados mais pequenos resultantes seriam igualmente multiétnicos e possivelmente mais inviáveis ainda. O Sr. Gallois concluiu: “Os ocidentais tiveram um desempenho absolutamente antiético, com uma duplicidade que me chocou, pois veio dos supostos criadores dos direitos humanos – França, o Reino Unido, e até certo ponto a Alemanha. No entanto, velhos demónios, particularmente os alemães, ressurgiram e criaram o caos existente nestas terras, quer se trate da Bósnia, República Sérvia  ou do Kosovo”.

Velhos guerreiros como o Sr. Gallois foram postos de lado  como extremistas nacionalistas marginais à medida que o intervencionismo neoliberal atingia a sua supremacia. A palavra “nacionalismo” foi diabolizada  com sucesso agora apenas como um refúgio para aqueles com tendências fascistas. Aparentemente, o conceito de nação já não tem valor positivo como uma entidade que dá às pessoas um grupo definido dentro do qual elas têm vivências em comum, direitos e obrigações. O Sr. Gallois era apenas um velho tolo, aparentemente, por se agarrar ao seu conceito de soberania nacional e de fronteiras fixas. O seu tipo de nacionalismo foi marcado como fascista no preciso momento em que a Alemanha voltava a dar vida ao seu aliado nazi da II Guerra Mundial, a Croácia, com as consequências desastrosas que  ele descreve abaixo[1]. Simultaneamente, os Aliados ocidentais da II Guerra Mundial estavam a diabolizar  os sérvios, os seus antigos aliados que tanto sacrificaram em prol da derrota nazi. Quase se poderia dizer que o último capítulo da II Guerra Mundial não foi escrito em 1945, mas mais tarde em 1999, quando a Alemanha teve a  última palavra, por assim dizer.

***

Comentários de Pierre-Marie Gallois no 10º aniversário do ataque da OTAN à Sérvia por Dennis Riches.

 

Intervenção de Pierre-Marie Gallois

 

Paris, Fevereiro de  2009

 

Parte 1, Parte II, Parte III

 

Notas sobre a tradução: Esta é uma versão revista de uma tradução inglesa que pode ser encontrada em outros canais do Youtube. Contém alguns erros e formulações difíceis. Os leitores podem julgar por si próprios se esta versão é mais compreensível. Foram acrescentadas notas pelo tradutor para dar apoio às opiniões expressas pelo Sr. Gallois.

Hoje encontramo-nos durante um aniversário muito infeliz, para “celebrar” (uma palavra mal escolhida) um aniversário muito triste. Passaram-se dez anos desde 1999 quando as democracias ocidentais lideradas pela Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos e França bombardearam o que restava da Jugoslávia, com total desdém pelo direito internacional e pelos Acordos de Helsínquia[2]. Violaram as regras da ONU sobre intervenção além fronteiras sem o acordo do Conselho de Segurança da ONU, e foram para a guerra sem consultar os seus próprios parlamentos. Em suma, esta foi uma série de violações do direito internacional, e é uma marca negra na moralidade destes países ocidentais que se comportaram como autocracias, e até ultrapassaram o que as autocracias fizeram.

É de notar que o desmembramento da Jugoslávia foi uma operação planeada pela Alemanha com bastante antecedência. Não se tratava apenas de antecipar a partida do Presidente Tito em 1980; era também necessário preparar-se para o período posterior, deslocando os territórios que a Alemanha se recusava a ver como sendo compostos por várias etnias e religiões, como na realidade eram. Evidentemente, a Alemanha estava muito ansiosa por obter apoio para o seu plano de provocar a secessão territorial.

Aconteceu que estive indirectamente envolvido nestas conversações em 1976-77 porque estava a participar em reuniões realizadas por Franz Josef Strauss, que era Ministro da Defesa alemão e mais tarde Ministro das Finanças. Estas reuniões tiveram lugar durante dois ou três dias numa quinta perto de Munique. Participaram cerca de uma dúzia de pessoas e foram realizadas para ter discussões gerais sobre assuntos mundiais. Brian Crozier, do Reino Unido, esteve presente. Estiveram presentes um antigo ministro de Espanha, Sanchez Bella, um representante do Vaticano, Paul Violet, que era advogado, e eu era o representante francês. Falámos sobre tudo e nada durante dois dias, e ainda me lembro bem da discussão que tivemos, na qual os meus amigos alemães consideravam o estado da Jugoslávia como extinto. Eles pensavam que uma reorganização do território deveria ser preparada após a morte de Tito.

Na minha opinião, as razões pelas quais os Alemães – que, de resto, são muito bons em geopolítica, em quaisquer circunstâncias – estavam muito preocupados com esta matéria, eram as seguintes:

Primeiro foi um desejo de se vingarem dos sérvios, que tinham lutado ao lado dos Aliados na Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Em 1941, os sérvios, inicialmente liderados por Mihailovic e depois por Tito, conseguiram aguentar numerosas divisões alemãs, que poderiam ter sido utilizadas na frente de Moscovo e, mais tarde, em Estalinegrado. Assim, Berlim (na altura era Bona), pensou que a resistência sérvia tinha contribuído para a sua derrota nas guerras mundiais. Estas pessoas deveriam ser punidas.

Em segundo lugar, a outra ideia alemã era recompensar os croatas e os muçulmanos bósnios que se tinham juntado à Alemanha e ocupado certas partes da França durante a guerra. Eles queriam agradecer-lhes porque tinham escolhido o lado alemão. Assim, queriam favorecer os croatas e os muçulmanos bósnios.

Em terceiro lugar, a Alemanha queria que a Eslovénia e a Croácia entrassem na esfera económica da UE, que, na altura, era presidida pela Alemanha. Desta forma, seria possível à Alemanha promover os seus interesses e obter acesso à costa da Dalmácia e ao Mediterrâneo.

Para além destas razões, havia uma convicção alemã de que os Estados Unidos iriam aderir a uma intervenção devido à importância da região para a NATO . Em termos militares, tratava-se de uma campanha bem planeada.

Na minha opinião, estes foram os motivos que levaram a Alemanha a desempenhar este papel.

Foi também necessário trazer os Estados Unidos e a França a bordo. Na altura, o Sr. Kohl tinha uma certa influência sobre Mitterrand, que se encontrava em mau estado de saúde e preocupado com outros problemas. Em Fevereiro de 1994, juntamente com o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros Juppe, juntou-se à coligação militar alemã em nome da federação Croata-Muçulmanos. O objetivo desta federação era expulsar os sérvios do território que tinham habitado durante séculos, e reduzir o seu território na Bósnia de 64% para menos de 40%. Comentarei um pouco mais tarde a poderosa campanha de propaganda que os acompanhava.

Foi esta famosa démarche francesa que se seguiu à alemã. Seguiu-se a intervenção dos EUA. Os EUA inicialmente hesitaram, desconfiados sobre como seria o panorama futuro. Havia dúvidas devido ao que tinha acontecido entre 1939 e 1945, especificamente a resistência do povo sérvio sob ocupação alemã. Hesitaram em juntar-se a esta aventura muito delicada e difícil. Acima de tudo, dependiam do petróleo saudita e iraquiano, mas os alemães e franceses tinham mais motivos para se preocuparem com as rotas de trânsito do petróleo através de Belgrado e do Danúbio, e através do que se chama Corredor 8 desde o Mar Cáspio até à Albânia. Estas preocupações eram remotas para os americanos e eles não estavam interessados. Mas finalmente, sob pressão alemã, eles reconheceram que havia um interesse comum.

Isto era, antes de mais, para provar aos europeus que eles não são capazes de agir por si próprios. Se os EUA se mantivessem fora disto, haveria caos, desordem, e guerra, e teriam  então de se envolver. Tal demonstração de força demonstraria ao mundo a necessidade da NATO , e faria um pouco mais para humilhar a Rússia, que na altura estava a ser liderada por Ieltsin e pelos feiticeiros do mercado livre de Harvard que tentavam implantar economias de mercado em países onde as pessoas estavam habituadas a economias planificadas. Outro fator era que era uma forma de testar a solidariedade eslava.

Tiveram também a ideia de ocupar o território, pelo que a base americana Camp Bondsteel foi estabelecida no Kosovo. Este foi na junção do Corredor 8 que um dia deveria transportar petróleo do Mar Cáspio para o Adriático.

Por estas razões tão diversas, os americanos interessaram-se e tomaram conta completamente das operações sobre outras tropas – alemãs, britânicas, italianas, e francesas. Foram todos colocados sob o comando da Frota Mediterrânica Americana. Toda esta operação teve um enorme significado para eles, porque essencialmente estabeleceu o precedente para futuras operações no Iraque.

As operações dos Balcãs foram conduzidas da seguinte forma:

Primeiro foi a intensidade da campanha de desinformação, que  contava mentiras completas  de uma forma que estabelecia certas pessoas como vítimas na mente do público. Isto criou o consentimento público para futuras agressões.  Para o conseguir, foi necessário inventar todo o tipo de mentiras. Foi por isso que foi necessário fabricar crimes sérvios. A mais conhecida  mentira foi a alegada violação de 40.000 mulheres. Os peritos americanos sobre os Balcãs alteraram mais tarde este número para 4.000 mulheres, e mais tarde este número transformou-se em 40, e estas 40 provavelmente transformaram-se em 4 depois de a investigação estar em curso. As fabricações foram tão numerosas – as explosões de bombas na rua Vasa Miskin, o massacre do Mercado Markale que foi imputado aos sérvios, apesar de os muçulmanos terem tido como alvo os seus próprios sérvios a fim de lançarem as culpas sobre eles.

Foi também inventado um mito sobre o exército sérvio que invade Sarajevo, preparando-se para a sua iminente destruição. Assim, foi dito que era absolutamente necessário impedir que Sarajevo fosse ocupada e demolida pelos sérvios. Tudo isto era mentira, e eu fui pessoalmente uma das testemunhas. Fui lá. Fui recebido pelo presidente da câmara da parte sérvia da cidade e juntei-me a ele para almoçar. A cidade foi dividida em duas, uma zona sérvia e uma zona muçulmana bósnia. Não houve cerco, não houve isolamento da cidade. Isso foi uma pura mentira em que as pessoas acreditaram desde que foi criada.

Depois houve Racak, afirmando que os sérvios cometeram um massacre. Mais uma vez, não era verdade, mas serviu maravilhosamente como um pretexto para lançar a campanha de bombardeamento contra este país e a sua população civil. A NATO utilizou urânio empobrecido sem ter em conta as consequências fatais[3]. Estas pessoas foram sacrificadas, martirizadas.

Todo este esquema foi conduzido por fases. Em primeiro lugar, houve abuso extremo da nação acusada de crimes. Em segundo lugar, a destruição de recursos económicos para quebrar o espírito de resistência, o que acabou por ser conseguido. Terceiro, bombardear as infraestruturas economicamente importantes para que o país tivesse dificuldade em se reconstituir mais tarde. Quarto, conduzir uma ocupação em larga escala, tal como estabelecido no Acordo de Rambouillet, e, uma vez lá, lucrar com a miséria em que o povo foi mergulhado. A ocupação terminaria deixando no lugar políticos alinhados com a causa do agressor. Estas quatro etapas foram conduzidas nesta ordem, de forma industriosa e inteligente, e o mesmo plano foi levado a cabo no Iraque.

É justo dizer que os Balcãs foram uma lição estratégica americana para o Iraque. Como todos sabemos, o Iraque também foi bombardeado. Como todos sabemos, envolveu tortura, excessos, prisões e maus tratos – tudo o que foi aprendido com aquilo a que se poderia chamar a experiência dos Balcãs[4].

Tudo isto foi feito em benefício das potências ocidentais, que em ambos os casos se comportaram de forma autocrática. Decidiram salvar um, oprimindo o outro.

Estas foram operações que me chocaram profundamente porque se baseavam na criação de uma mentalidade pública que podia absorver toda esta desinformação. Foi muito perturbador porque preparou o caminho para futuros abusos de todo o tipo.

Assim, hoje refletimos sobre uma década trágica em que os europeus demonstraram a sua vontade de se matarem uns aos outros, parcialmente incitados por esta ampla iniciativa da Alemanha, que só recentemente tinha sido unificada, em 1990 e 1991, após o colapso da União Soviética. Este país não encontrou outras opções para além de iniciar esta famosa guerra.

Em qualquer caso, em 1999, na sequência do Acordo de Dayton, e depois de Milosevic ter recusado o Apêndice B, que apelava à ocupação da NATO – uma ocupação por um período indeterminado, durante o qual a Sérvia teria de entregar ao ocupante todas as suas instalações – aeroportos, estradas, caminhos-de-ferro, tudo, gratuitamente. Isto foi recusado, e esta charada de Rambouillet acabou em bombardeamento.

Foi uma época infeliz, um período infeliz. Hoje refletimos sobre ele com grande tristeza porque o mundo ocidental demonstrou a sua capacidade de perversão total para acompanhar uma obsessão alemã de acabar com as humilhações dos Tratados de Versalhes e Trianon. Isto exigiu a rutura da Jugoslávia e depois da Checoslováquia, que foi exatamente o que aconteceu, para que a Alemanha apagasse do mapa a organização territorial e política criada pela vitória dos Aliados. Fizeram-no de tal forma que nada resta dela.

E a França associou-se certamente a isto, permitindo ao Sr. Kohl dizer que o Acordo de Dayton e tudo o que se seguiu foi uma grande vitória para a Alemanha. O Sr. Mitterand deveria ter acrescentado, se tivesse compreendido o significado, que esta foi assim uma grande derrota para a França. Foi uma derrota para a Jugoslávia. O grave erro do desmembramento da Jugoslávia – um país nascido das suas muitas vitórias militares, vítimas massacradas e sacrifícios – foi conseguido com mentiras e operações que nunca deveriam, de forma alguma, ter existido.

Neste caso, os ocidentais tiveram um desempenho absolutamente antiético, com uma duplicidade que me chocou, uma vez que veio dos supostos criadores dos direitos humanos – França, Reino Unido, e em certa medida a Alemanha. No entanto, velhos demónios, particularmente os alemães, ressurgiram e criaram o caos existente nestas terras, seja na Bósnia, Republica Sérvia  ou Kosovo. No Kosovo, é claro, o próprio coração da Sérvia, em muito pouco tempo os muçulmanos destruíram dezenas e dezenas de obras-primas de arte religiosa do povo sérvio, o que equivale basicamente a um ataque ao povo sérvio. Da mesma forma, o povo francês sentir-se-ia atacado pela destruição dos castelos no Vale do Loire.

Assim, é um período muito triste que estamos a atravessar. Não tenho a certeza de como o vamos atravessar moralmente. Em todo o caso, provámos a nossa desonestidade, para  nossa grande desonra.

FIM

Sobre Pierre-Marie Gallois: Obituary in The Telegraph, October 4, 2010

Outras fontes para os pontos de vista expressos por Pierre-Marie Gallois:

  1. Sean Gervasi, “Why Is NATO In Yugoslavia?“ Global Research, January 1996, publicado no link indicado em 2001.
  2. Ver também vídeo de 1993: Interview with Sean Gervasi on the topic of Germany’s plans for YugoslaviaConversations with Harold Hudson Channer, (Public Access Television, New York City) March 11, 1993.

Trecho do artigo “Why Is NATO In Yugoslavia?”:

Duas potências ocidentais, os Estados Unidos e a Alemanha, deliberadamente planearam destabilizar e depois destruir o país. O processo já estava em preparação nos anos 80 e acelerou na presente década [1990s]. Aquelas potências planearam, prepararam e impulsionaram as secessões que partiram a Jugoslávia em pedaços. E fizeram quase tudo o que podiam para propagar e prolongar as guerras civis que começaram na Croácia e continuaram na Bósnia-Herzegovina. Por detrás das cortinas estiveram envolvidas em todas as fases da crise. A intervenção estrangeira foi preparada de modo a criar exactamente os conflitos que as potências ocidentais condenam. Porque servem convenientemente de desculpa para uma intervenção às claras assim que uma guerra civil se desencadeia. Tais ideias, claro, constituem um anátema nos países ocidentais. Isto é assim porque o público no ocidente tem sido sistematicamente desinformado pela propaganda de guerra. Aceitou quase desde o princípio a versão dos acontecimentos promulgada pelos governos e disseminada pelos órgãos de comunicação social. É no entanto verdade que a Alemanha e os Estados Unidos foram os principais agentes promotores do desmantelamento da Jugoslávia e da disseminação do caos que ali ocorreu.

Este é um facto medonho na nova idade da realpolitik e de lutas geopolíticas que sucedeu à ordem da Guerra Fria. Fontes da intelligence começaram recentemente a aludir a esta realidade de uma maneira surpreendentemente aberta. No verão de 1995, por exemplo, Intelligence Digest, uma newsletter de prestígio publicada na Grã-Bretanha, referiu que:

O projecto franco-alemão original para a antiga Jugoslávia [incluía] uma Bosnia-Herzegovina independente predominantemente muçulmano-croata aliada a uma Croácia independente face a uma Sérvia muito enfraquecida.*

Qualquer funcionário importante na maioria dos governos ocidentais sabe que esta descrição está absolutamente correcta. E isto significa, evidentemente, que as descrições habituais da “agressão sérvia” como a causa original do problema, as descrições da Croácia como uma “democracia nova”, etc., não só não são verdadeiras, mas na verdade foram elaboradas para mistificar.

* “Changing Nature of NATO,” Intelligence Digest, October 16, 1992.
  1. Interview with Noam Chomsky on the coverage of the Balkan wars in the Western media

Noam Chomsky interviewed by Danilo Mandic, RTS (Radio Televizija Srbije) Online, April 25, 2006

(36-minute video, transcript here)

Trecho:

Deste modo, temos pela primeira um comentário de muita confiança… do nível mais elevado da administração Clinton… Este é de Strobe Talbott que teve a seu cargo o Comité Conjunto Pentágono/Departamento de Estado para a diplomacia durante todo o processo incluindo o bombardeamento… Ele escreveu há pouco tempo a apresentação de um livro [Collision Course: NATO, Russia and Kosovo, publicado em 2005] escrito pelo seu Director de Comunicações, John Norris, em que diz que se se quere verdadeiramente compreender o que se pensava no topo da administração Clinton este é o livro que tem de ler… o que diz aqui é que o verdadeiro objectivo da guerra não tinha nada a ver com preocupações com os albaneses kosovares. Era porque a Sérvia não estava a fazer as reformas sociais e económicas requeridas, e portanto era o último recanto da europa que não se tinha subordinado aos programas neoliberais dirigidos pelos Estados Unidos, e por isso tinha de ser eliminada. Isto partia do nível mais elevado. Digo outra vez, podíamos ter percebido, mas nunca tinha sido dito antes.

  1. German-Foreign-Policy.com, July 11, 2018

O nacionalismo croata conseguiu progredir no início da década de 1990, quando os nacionalistas croatas – novamente com um apoio alemão decisivo – conseguiram separar-se da Federação Jugoslava. Franjo Tudjman era o político à cabeça da nova nação, que, em 1989, tinha designado o campo da morte Jasenovac como uma “assembleia e campo de trabalho”. Em Jasenovac foram assassinados sérvios, judeus e ciganos. Simultâneamente, Tudjman exaltava o estado ustashi como tendo sido “a expressão da aspiração do povo croata à auto-determinação e à soberania”. Na guerra de secessão croata – que a Alemanha apoiou política, prática e militarmente- as posições dos nacionalistas e da ultradireita prevaleceram numa grande frente. Soldados da linha da frente e voluntários cumprimentavam-se com a saudação ustashi ‘Za dom Spremni” e cantavam canções ustashi , escreveu o jornalista Gregor Mayer. A igreja católica – com grande influência na Croácia – também glorificava o estado ustashi. Sob a liderança de Tudjman “ruas e praças foram renomeadas a um ritmo frenético”, muitas vezes com nomes de personalidades ustashi, como o “ideólogo nazi, Mile Budak”. “Funcionários ustashi voltaram do exílio para o aparelho de estado e para o sistema educativo”.  Mayer considera que Tudjman tornou “uma conceção histórica e social ‘palatável'”, em que “os radicais de direita e os neonazis ainda podem ser referidos [Veja o artigo completo no link acima para encontrar as fontes para estas citações].

 

Notas

[1] Michael Freund, “Croatia’s Neo-Fascist Revival,” Jerusalem Post, 24 de maio de  2018.

[2] Veja-se Britannica.com: “O acordo [de Agosto de 1975] reconheceu a inviolabilidade das fronteiras pós Segunda Guerra Mundial na Europa e comprometiam-se as 35 nações signatárias a respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais e a cooperar nos domínios económico, científico, humanitário, e outros. Os Acordos de Helsínquia são não vinculativos e não têm estatuto de tratado.”

[3] Gorazd Velkovski, “Lawsuit against NATO for dropping 15T of Depleted Uranium on Serbia,” Mina Report, 14 de junho de  2017.

[4] Ian Bancroft, “Serbia’s anniversary is a timely reminder,” The Guardian, 24 de março de  2009. Este editorial expressa o mesmo ponto de vista  e muitos outros expressos por  Gallois.


Pode ler este texto no original clicando em:

Pierre-Marie Gallois on the Origins of and Responsibility for the Yugoslav Wars (1990-99) – Lit by Imagination (wordpress.com)


[*] Agradecemos a Dennis Riches  a gentileza  de nos disponibilizar alguns textos hoje bem relevantes para a compreensão do que está a passar na  Europa.

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