Reflexões em torno do Ensino Superior a propósito de uma publicação da FEUC. Por Júlio Marques Mota

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 10 de Maio de 2022

30 m de leitura

 

Recebi hoje a seguinte informação emanada da direção da FEUC:

Tenho o gosto de vos convidar para a sessão de lançamento do número 5 do MIL FOLHAS, publicação quadrimestral do Conselho da Biblioteca da nossa Faculdade, coordenada pelo Professor Carlos Fortuna, e que tem lugar já esta sexta-feira, dia 6 de maio, às 17:00 horas, no espaço da biblioteca da FEUC.

Este número conta com vários contributos de inegável interesse como os de José Augusto Cardoso Bernardes (sobre a ética do trabalho intelectual), Luís Lopes e Margarida Antunes (sobre o “fazer a Universidade” a partir de um ciclo integrado de cinema, debates e colóquios), Paula Sequeiros (sobre a demo-bibliodiversidade), Célia Santos e Carlos Medeiros (centrada na importância da biblioteca Jacques Delors) e de Luís Cruz (de homenagem a Pedro Nogueira Ramos). Esta edição inclui também sugestões de leitura de outros docentes da FEUC e uma síntese, coordenada por Rita Martins e Cristela Bairrada, dos resultados de um questionário a docentes sobre a “Biblioteca e as Leituras”.

O MIL FOLHAS promove uma reflexão aberta sobre o lugar das bibliotecas, dos livros e da leitura” Fim de citação

MIL FOLHAS, Boletim Quadrimestral, nº 5, Março de 2022

 

Trata-se de uma publicação que estaria para ter vindo a público bem mais cedo. Por dificuldades de ordem técnica saiu só agora, mas saiu e isto é o que interessa. Nesta edição do MIL FOLHAS é publicado um artigo escrito pelos meus antigos colegas e amigos Luís Peres e Margarida Antunes a propósito de uma Iniciativa por nós os três promovida na FEUC de 2006 a 2011 (cinco anos letivos). Trata-se de um texto escrito em dezembro de 2021 que me foi dado a conhecer já depois de concluído. Sou pois estranho à sua feitura.

Foi sobre este texto que me debrucei imediatamente a seguir quer com o Professor Carlos Fortuna na qualidade de coordenador da edição de MIL FOLHAS quer com um colega meu, hoje catedrático, com quem comentei a troca de opiniões havidas com o Professor Carlos Fortuna. São as ideias que estiveram em análise nestas duas discussões que mais abaixo vos deixo.

Mas previamente não quero deixar de enaltecer a iniciativa da edição do Boletim Trimestral MIL FOLHAS enquanto tal e por uma razão bem simples: no deserto ardente da falta de ideias com que se vive na Universidade hoje, o MIL FOLHAS representa, disse‑o já em anteriores ocasiões e repito-o, um verdadeiro exemplo de resistência cultural contra a degradação da Universidade. Por isso, daqui felicito tanto o coordenador da edição, Professor Carlos Fortuna, como toda a equipa que o produz. Bem hajam.

Dir-me-á um pessimista que face a esse deserto de ideias, este trabalho editorial, apesar de valioso e muito bem feito, reduz-se a uma publicação inútil porque embora se trate de uma relevante chamada trimestral para a importância do livro na formação do técnico, do especialista, do cidadão, é feita num momento em que praticamente já ninguém lê. Os estudantes genericamente o que lêem são as páginas zelosamente indicadas ao mínimo pelo docente e assim mesmo para que ninguém proteste acusando o docente de sobrecarga de trabalho e de o penalizarem a seguir na avaliação feita pelo corpo discente. É preciso ser-se atrativo face aos alunos, não o esqueçamos, é o lema determinante deste comportamento. O estudante não chega a perceber o que é um livro e isto num momento em que vários lhe passam pelas mãos, mas não enquanto livros mas sim enquanto número pequeno de páginas a ler ou a fotocopiar!

Para esse pessimista terei uma só resposta: se toda a gente lesse, o MIL FOLHAS não seria uma preciosidade, seria mais uma de outras leituras importantes, mas como quase ninguém lê, o MIL FOLHAS torna-se uma necessidade, um apelo constante a que o estudante e o professor se assumam como expressão do saber e do aprender e não como comprador e vendedor de um diploma. Deste ponto de vista em vez de uma leitura entre outras mais, o MIL FOLHAS é uma verdadeira preciosidade.

E assim a Universidade, por uma degradação lenta mas contínua, é hoje verdadeiramente um espaço de compradores e vendedores de diplomas mais do que criador e produtor de ideias ou um servidor público de saber e conhecimento. Reduzindo-se a Universidade sobretudo a um espaço de intensa mercantilização, a um mercado de compradores e vendedores, a Universidade, qual empresa privada, é então levada a fazer da atratividade o seu modo de vida, o seu principal objetivo, e a sua eficácia nesse objetivo expressa-se pela sua capacidade na caça ao cliente aluno e rei soberano, tal como um consumidor de qualquer outro mercado. Se a esta mercantilização estabelecida entre compradores e vendedores adicionarmos a concorrência quase selvagem entre os próprios docentes e o carreirismo que a progressão na carreira hoje exige, percebemos que temos o cocktail perfeito para a aceleração da degradação da Universidade.

A consequência da sua lenta degradação, acelerada nestes últimos anos pela reforma de Bolonha, foi a sua conversão de centro criador, produtor, criador e difusor de ideias para um mercado de compradores e vendedores. É contra esse esvaziamento de funções e objetivos da Universidade de outrora que, à sua escala, se insere a lógica da publicação do MIL FOLHAS, como um ato de resistência cultural. Porém, em tudo na vida se tem horror ao vazio e a Universidade não é exceção. Aqui, esta trágica mudança de objetivos expressa-se pelo esvaziar das suas funções e de ideais de outrora [1] o que dá, por seu lado, origem ao espetáculo degradante dos assédios sexual e moral na Universidade que as televisões e os jornais nos relatam, um espetáculo degradante que vai desde o dramático no que diz respeito ao assédio sexual até ao patético no que diz respeito a muitos dos casos de assédio moral, e falo apenas das Universidades.

Se o primeiro tipo de assédio é violento e muito dramático para quem é criado numa cultura de respeito pelo outro e representa neste momento uma certa “lumpenização” intelectual do corpo docente, o segundo, representando em muitos dos seus casos uma certa “lumpenização” do seu corpo discente, pode ser patético se não tratado com cuidado pois, no limite, pode levar ainda a uma maior desacreditação e desrespeito pela função docente, a qual já anda muito por baixo.

Sobre este tema, tomando como exemplo a minha prática de docente direi que quanto ao primeiro dos assédios não vale a pena falar uma vez que anualmente era sempre bem claro dizendo: há uma linha vermelha entre mim e vocês, que nem eu nem vocês podem ultrapassar e nunca ninguém ultrapassou.

Quanto ao assédio moral, sobre este apresento dois exemplos passados comigo, entre muitos possíveis, ocorridos em quase 40 anos de docência. A conclusão a que chegaria é que hoje eu seria expulso da Universidade. Bom, hoje nem sequer lá teria lugar, por não ser doutorado, mas deixemos isso. Falemos do assédio moral:

  1. Um dia, duas alunas de nível médio superior (média 13-15 valores) dirigem-se ao meu gabinete para tirar dúvidas, colegas de um aluno que depois se tornou um amigo meu, de nome Abrunhosa. Não houve nenhuma agressividade para com elas, o que terá havido, isso sim, terá sido um trabalho exigente para vencer a ignorância delas sobre as matérias onde havia dúvidas. Tratava-se de matérias relativamente exigentes do ponto de vista formal e que se tornavam mais delicadas se as matemáticas do secundário, pelo menos essas, não estivessem a cumprir a sua missão: a de permitir “interpretar e perceber” gráficos e as ligações entre eles. Essa dificuldade desmente a afirmação de Alfred Marshall de que a análise gráfica é um instrumento importante para quem não sabe matemática, o que pura e simplesmente não é verdade. É sempre preciso um certo espírito analítico, uma certa capacidade de abstração, sobretudo quando se pretende ligar as coisas, relacionar os diversos gráficos, como era ali o caso. No caso em questão, e para meu espanto, as duas alunas saem do gabinete com uma ou outra lágrima a escorrer-lhes da alma e do canto dos olhos também.

Hoje, esta situação seria vista como assédio moral ou de violência pela parte do professor ou ainda que este seria um professor incompetente por ter um nível de exigência não adequado à capacidade dos alunos. “Temos que nos adaptar aos alunos que temos” foi a expressão que muitas vezes ouvi e que nunca aceitei.

  1. Como segundo exemplo, um dia fiz júri com um colega meu numa oral. A oral correu mal. Terá passado com a nota mínima: 10 valores. A aluna em questão era amiga de uma docente minha amiga e minha antiga aluna. Desta oral saiu a chorar e explicou-se à sua amiga perante o acontecido: não sentiu nenhum afeto da minha parte por ela: nunca tinha olhado para ela com afeto, nunca tinha olhado para ela com muita atenção! De novo a mesma história, eu seria o culpado da fragilidade psicológica da aluna em questão, ocorrida naquele preciso momento, resultado da tensão emocional. Naturalmente assim, a nossa atenção estava centrada no cuidado das perguntas a fazer e das respostas a obter. É o que se exige numa oral. Depois disso nada se passou e, na casa da docente que era nossa amiga comum, jantámos várias vezes com ela e o marido sem sombra de qualquer atrito.

Estes dois exemplos, entre muitos que poderia citar, mostram-nos o cuidado a ter quanto ao assédio moral, mas no descambar de ideias e de princípios que se vive hoje só chamo a atenção para o tratamento cuidadoso que o problema deve exigir sob pena de ser bem pior a cura do que a doença diagnosticada.

É pois face a esta Universidade que em Dezembro passado teci algumas considerações sobre a mesma e são essas considerações que aqui deixo à vossa consideração, reproduzindo a troca de opiniões havida com dois docentes a propósito da edição do Boletim MIL FOLHAS e do texto aí editado sobre o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC.

____________________

 

Dezembro de 2021

Meu caro Carlos Fortuna

Soube pelo Luís Lopes que lhe tinhas solicitado a produção de um texto sobre o Ciclo de Cinema. para o Boletim MIL FOLHAS, um boletim, em boa hora concebido, acrescente-se. Semanas depois é-me dado conhecimento do texto quando o mesmo te foi enviado pelo Luís Lopes.

Leio-o, e uma vez que o texto estava finalizado, era disso que me era dado conhecimento, nada havia a acrescentar. Foi o que respondi de imediato tendo dito que gostei. Seria o mínimo.

Mas, passado o Natal e a azáfama que envolve este espírito de época, sinto‑me na obrigação de apresentar três comentários (mais um) a não considerar como breves, mas sim como brevíssimas notas.

  1. Felicitar mais uma vez o autor deste tipo de ideias, o coordenador bibliotecário Carlos Fortuna, e tanto mais quanto estamos a viver uma época em que tudo é descartável, em que só importa o devir e no que ele puder ser quantificável positivamente em termos de rating profissional. Ora vir alguém posicionar-se num registo oposto, o da memória futura como é o caso de MIL FOLHAS, é uma atitude que me agrada e que devemos saudar. É, pela minha parte, o que estou a fazer.
  2. Ao ler o texto que te foi enviado, creio que os autores intencionalmente se “apagam” face a uma iniciativa que é produto de múltiplas vontades, de muito espírito de missão, de muito sacrifício e, sobretudo, de muitíssimo trabalho, características que nos envolveram a todos nós, os três, e de igual modo.

Para se ter uma ideia do muito trabalho que esta Iniciativa terá exigido de todos nós bastaria explicar como se realizava uma só sessão que fosse, desde a sua conceção, à elaboração da brochura que acompanhava cada sessão no Gil Vicente ou na FEUC e à organização dos debates na FEUC e no Gil Vicente. Depois, considerar que cada brochura correspondia a uma compilação de textos selecionados, traduzidos e duplamente revistos sobre o tema de cada sessão e a seguir considerar que isto se fazia várias vezes por ano e durante vários anos! Evidentemente, descrever como se chegava ao resultado final de cada sessão implicaria, só por si, bem mais de meia página de texto, o que é incomportável no formato do Boletim. Nada a fazer nem a criticar quanto a isso, agarre-se o fundamental e parece ter sido essa a opção dos autores. No entanto, não salientar o silêncio institucional quanto a este trabalho levado a cabo apenas por três docentes e durante vários anos, ser-me-ia tão difícil de aceitar, utilizando a metáfora do elefante na sala, quanto me é difícil aceitar que se possa ter um jovem e corpulento elefante numa sala cheia de porcelana fina sem que ninguém o veja.

  1. Mas os autores do texto que recebeste “apagam-se” igualmente num outro plano, “apagam-se” também por não explicarem o que foi a Iniciativa Ciclo de Cinema do ponto de vista científico. Impossível que isso pudesse ser feito neste texto. Por um lado, porque isto exigia primeiro que fosse feita a explicitação do que é dito na nota anterior, dado que esta é o seu pressuposto, por outro, porque chegados aqui já não havia espaço disponível para escrever fosse o que fosse sobre esta matéria.

Desse ponto de vista, e uma vez que falamos de registo para memória futura, aqui deixo as notas de Pezarat Correia, considerando publicamente a iniciativa em que participou como de alto nível científico, de Gerard Epstein de Amherst salientando o carácter pedagógico e científico da Iniciativa, de Sami Nair, numa sessão com Joachim Becker, Carlos Fortuna e António Gama, que nos diz que veio a Coimbra apesar de estar um pouco adoentado [2], pelas informações que tinha face à qualidade da Iniciativa ou ainda de Manuel Porto quando numa sessão de debate na FEUC com Jerôme Creel e James Galbraith mostrava a todos os presentes a brochura editada por nós para aquela sessão, como sendo de grande qualidade e de onde baseava parte da sua intervenção.

E as citações poderiam continuar, de nacionais ou estrangeiros. Levanto aqui esta questão porque não há na FEUC, que eu saiba, nenhum registo, nenhuma referência institucional sublinho, sobre a dimensão do trabalho realizado, assim como não há também nenhum registo sobre a qualidade científica do mesmo.

 

Registo estas três não breves mas brevíssimas notas, por uma razão simples: uma vez que se fala da Iniciativa Ciclo de Cinema, sinto como minha obrigação dizer que acho injusto que um trabalho deste tipo e com esta profundidade nunca tenha sido institucionalmente valorizado, nem o tenha podido ser agora no texto que lhe foi enviado, uma vez que os autores do texto para o MIL FOLHAS se “apagaram” por razões que todos entendemos e acima expostas. Porque não foi institucionalmente valorizado até aqui, porque também o não é agora, e isto quando estamos perante dois docentes de carreira, o Luís Lopes e a Margarida Antunes, a quem curricularmente esse mérito deveria ser reconhecido, sinto-me na obrigação de o referir e devo sublinhar que nunca é tarde para que esse reconhecimento seja institucionalmente feito. Um reconhecimento bem simples de fazer.

Por contraponto a este silêncio oficial, deixo aqui um exemplo de uma situação de injustiça bem mais difícil de resolver e que foi bem dignamente assumida e resolvida na FEUC. O exemplo veio do Professor Romero de Magalhães para quem nunca era tarde demais para se corrigir um erro, e isso define a grandeza da Democracia. Com efeito, Romero de Magalhães levou a Conselho Científico o seu protesto perante a nota extremamente injusta atribuída a Adelaide Duarte pelo júri, presidido por Alfredo Marques, nas suas provas de aptidão pedagógica e capacidade científica a quem, perante provas magistrais, lhe atribuíram a classificação de 13 valores, uma vez que esta era a sua classificação de licenciatura! Dei a nota da casa, como é habitual nestes casos, foi esta a explicação que me foi dada pelo arguente externo, o Professor Silva Ribeiro quando o questionei sobre a razão de ser daquela classificação. Este professor, meu colega dos tempos de docência no ISEG e um dos raros docentes que no ISEG sabia a sério de teoria do valor e de preços, de Marx a Sraffa, foi o nome que recomendei para arguir o relatório apresentado. Era um bom conhecedor da matéria tratada, ao contrário dos outros membros do júri, o que tornava mais incompreensível a nota de avaliação atribuída. E o relatório aí está a poder provar o que acabo de afirmar. Paralelo sentimento de injustiça foi o que sentiu o Professor Romero de Magalhães que levou o seu protesto ao Conselho Científico e este órgão, como compensação e como reconhecimento da injustiça praticada, decidiu então dispensar a Adelaide Duarte, na progressão da sua carreira docente, da elaboração de provas complementares aquando do seu doutoramento. Isso foi então assim mesmo…

E, por fim, fora de tudo isto e nada tendo a ver com o Boletim MIL FOLHAS, aqui te deixo uma quarta nota que tem a curiosidade de reforçar tudo o que é dito nas três notas acima.

 

  1. Hoje, uma década depois, penso que esta foi uma Iniciativa icónica, única, não repetível. Aliás, Gerard Epstein (codirector de Political Economy Research Institute (PERI)) dizia-nos ser a primeira vez que participava numa Iniciativa deste tipo felicitando-nos pela sua estrutura. Mas irrepetível porquê? A pergunta é simples, a resposta é ainda mais simples: porque a nossa alma mudou, mudou a nossa forma de ver e sentir, mudou a nossa capacidade de mobilizar energias que nunca suspeitámos haver, e não é só uma questão de idade, porque mudou o meio ambiente e profissional em que trabalhávamos, não era um mundo de uns contra os outros como agora, mudaram os objetivos que profissionalmente nos são impostos, porque mudou a carga burocrática que passou a incumbir aos docentes, porque mudou a Instituição, porque mudaram, e de que maneira, os destinatários internos da Iniciativa, os estudantes mais atraídos pelo conforto garantido pelo estado de ignorância do que pela incomodidade da Cultura, porque mudou a cultura da cidade, porque mudou, para bem pior, a sociedade atual, uberizada, atomizada. Em suma, por obra e graça dos que ainda hoje defendem as teses de Margareth Thatcher ou por obra daqueles que dizem ser seus opositores (!), atingimos o estádio supremo da sociedade descrita pela Dama de Ferro que espero esteja a enferrujar em paz:

“Penso que nós atravessamos um período em que muitas crianças e pessoas me deram a entender “Eu tenho um problema, cabe ao governo procurar resolvê-lo.” ou de forma ligeiramente diferente “Eu tenho um problema, eu irei obter uma subvenção para o poder suportar!” ou “Sou um sem abrigo, o governo deve alojar-me!”, ou seja, projetam sobre a sociedade a resolução dos seus problemas, mas então o que é a sociedade? Não existe tal coisa! Há indivíduos, homens e mulheres, há famílias e nenhum governo pode fazer seja o que for, que não seja através das pessoas mas as pessoas olham primeiramente para elas próprias.”

Muda o contexto, necessariamente muda o texto, sabemos isso desde Marx, desde Ortega y Gasset ou, ainda mais perto de nós, desde Regis Debray e é por isso que, mesmo que nos mantivéssemos numa redoma e inalterados, o que é impossível, não conseguiríamos hoje repetir o que foi então feito, houvesse o dobro ou triplo dos meios financeiros disponíveis. E já que falamos de cinema, deixa-me dar-te uma analogia bem mais forte: esta iniciativa é tão irrepetível como irrepetível é qualquer remake do filme West Side Story de Robert Wise de 1961. Pode haver muitos mais meios técnicos, muito mais dinheiro e Spielberg, logicamente teve tudo isto em 2021, mas na versão de Spielberg, ao que me dizem, falta a alma de Wise e daqueles que trabalharam com ele, como falta também a alma daquele tempo, os ouvidos dos espectadores daquele tempo: a canção Maria… Maria ou a canção América… América não soarão da mesma maneira, mesmo para os mesmos ouvidos quanto mais para ouvidos muito diferentes, criados com outros sons, com outros tons.

 

A resposta à pergunta anterior foi simples, mas mais difícil no caso das Universidades é o facto de que a resposta dada levanta outra questão: como inverter este processo de evolução? A resposta que se pretende dar, mais atratividade, mais competitividade, garantidamente não será a solução, é a solução dada no quadro mental daqueles que conceberam, criaram e dinamizaram a mecânica que levou à situação atual. Esta última pergunta é pois uma pergunta que terão de ser outros a sentirem a necessidade de a colocar, terão que ser outros a terem de encontrar as respostas possíveis mas não será já no meu tempo, seguramente, pelo andar da carroça.

E um pormenor colateral a tudo isto. O texto espicaçou-me quanto à importância do cinema e veio ao de cima a minha velha afeição como consumidor pela sétima arte pelo que vou editar quatro a cinco textos sobre cinema no nosso blog, tomando como referências Clint Eastwood, o Ken Loach americano mas em declínio, Jane Champion, o Buñuel dos tempos de hoje, Robert Wise de West Side Story versus Spielberg, Almodovar e o seu filme As mulheres Paralelas e o fascismo e, por fim, o último filme de Ken Loach sobre a uberização e ou atomização das sociedades modernas de que Portugal começa a ser um bom exemplo, visível até na queda do governo atual.

Um abraço e mais uma vez a referência de que nada do que aqui é escrito pode ser tomado como crítica pessoal contra alguém. Muito longe disso. E, apesar de ter acabado o ruído do rasgar dos embrulhos pelas crianças que felizmente nos rodeiam, desejo-te, a ti e à tua família, um Bom Final de Ano com melhores entradas sustentadas para 2022.

Júlio Marques Mota.

 

Nota. Texto enviado também ao Diretor da FEUC, a Luís Lopes, Margarida Antunes e à Adelaide Duarte

___________________

 

Depois, face a um eventual acréscimo temático de um ou outro pormenor sugerido aos dois autores, para o mesmo número de caracteres, escrevi ao Coordenador Bibliotecário Professor Carlos Fortuna em final de dezembro de 2021 o seguinte:

“Meu caro Carlos Fortuna

Nos limites do espaço disponível, deixa-me sorrir, que funciona como uma espécie de confinamento intelectual (!) vais-lhes colocar uma questão nada fácil.

Fora disto tudo, o texto deles tem duas características bem relevantes:

  1. Conseguem colocar o Rossio na rua da Betesga, mas de tal forma que se conseguem perceber os detalhes do Rossio.
  2. A citação do estudante de hoje no texto é emblemática da importância com que pode ser encarado o Ciclo de Cinema de então nos seus objetivos e vale tanto como o resto do texto. A grande diferença entre ontem e hoje, e o que vou dizer é aterrador, é que a percentagem de alunos capazes de entender, sentir, apreender e endogeneizar os sinais de cultura emitidos pelo Ciclo é hoje muitíssimo menor do que era então. A diminuição de alunos como o referido é uma das razões pelas quais hoje repetir o Ciclo é, seria impossível e é para esta realidade que a Universidade deve olhar e deve procurar respostas adequadas. Estou certo de que estas respostas não são as do facilitismo.

A propósito disto, ainda me lembro, numa altura em que presidi ao Pedagógico, de ter produzido um texto, que possivelmente pelas mãos do meu amigo Jaime foi parar aos jornais, onde dizia que uma das mais nobres missões da Universidade seria transformar alunos bons em muito bons, médios em bons e péssimos alunos em alunos médios. Hoje, face à trajetória inversa a que assisto, direi que na altura eu estava a delirar enquanto agora direi que estou a ter um pesadelo. Uma questão dos tempos.

UM abraço e que haja mais iniciativas como a que tens produzido são neste contexto os meus votos sinceros

JMota

_________________

 

Dei na altura estes textos a ler a um colega meu de muito longa data, hoje catedrático, e o seu comentário foi bem mais duro que o meu:

De acordo com a tua opinião sobre o tempo universitário que vivemos. É desastroso… Por vezes sinto que não diz respeito só a alunos/as… É o “sistema” de hoje a funcionar, diriam os apreciadores da “bola”.

Na sequência da afirmação anterior deste meu colega de longa data, um homem bem atento às questões do ensino superior, hoje ensino inferior, um colega de longa data nas preocupações sobre um ensino de melhor qualidade, respondi-lhe salientando duas afirmações, uma, a minha, e a segunda, a dele, separando-as analiticamente para um melhor contraste:

“Por uma questão de dar jeito acho que vale a pena refletir-se sobre elas, o que aqui faço. E fiquemo-nos por aqui, para além de uma pergunta que te deixo no fim.

Primeiro Conjunto de afirmações

Afirmei:

“A grande diferença entre ontem e hoje, e o que vou dizer é aterrador, é que a percentagem de alunos capazes de entender, sentir, apreender e endogeneizar os sinais de cultura emitidos pelo Ciclo é hoje muitíssimo menor do que era então (…)”

Isto só por si invalidaria qualquer tentativa de repor o Ciclo, daí o ter dito que foi uma experiência não repetível. Hoje, seria uma iniciativa sem destinatários, o que seria um absurdo.

Afirmas:” sobre o tempo universitário que vivemos. É desastroso… Por vezes sinto que não diz respeito só a alunos/as”

 

Sobre o sinal dos tempos dou três exemplos, dois situados por volta de 2009-2010 e o outro ocorrido por volta de 2018.

 

História de 2009

Em Economia Internacional o sistema de avaliação, um dos mais densos jamais criados na FEUC e algures, era o seguinte: avaliação 20 valores com a seguinte decomposição:

  1. prova escrita 12 valores, exigindo-se um mínimo de 5.0 para se poderem somar os restantes itens da avaliação, a seguir enunciados,
  2. relatório de trabalho em grupo (dois a três alunos com nota individual estabelecida na defesa oral do mesmo). Este relatório era escrito tomando como base um tema e textos selecionados pelo docente, depois de entrevista do grupo. A nota máxima era 6 valores,
  3.  recensão de um filme visionado no Ciclo de Cinema com máximo de 2 páginas formato A4 com cotação de dois valores, como se de um artigo para um jornal se tratasse.

Obrigava-se ainda à leitura de uma obra de cultura geral em economia editada em português, normalmente editada por encomenda nossa. Assim, foi nesta base que nesse tempo se publicaram em economia uma boa parte das obras relevantes editadas em português. A leitura da obra, que variava de ano a ano, acompanhava a discussão do trabalho e mais: neste tipo de avaliação era obrigatória a presença do aluno nas aulas práticas em 75% das aulas possíveis. Na base da avaliação dessas aulas práticas, onde era obrigatória a participação, atribuía-se uma nota que podia atingir no máximo três valores que se adicionava aos itens anteriores e desde que essa soma não atingisse mais de 15 valores. A partir daí as notas eram altamente qualitativas e excluíam a bengala da avaliação contínua. Ou seja, o aluno teria que se submeter a outro exame.

Se tivermos presente que este tipo de avaliação, pesadíssima para nós docentes, se realizava ao mesmo tempo que se realizava o Ciclo, de resto, também se alimentava dele, podes imaginar a brutal carga de trabalho a que nós os três fomos submetidos, por vezes a atingir o limite do que era humanamente possível. E isto durante anos. Referi-lo é obrigação minha, não é um pedido de coisa nenhuma.

 

Uma história que data de 2009-2010

Uma das melhores alunas do ano falhou por uma aula prática os 75% de PRESENÇAS. Nota, marcavam-se presenças, não faltas. Ela fala com connosco quanto à possibilidade de apresentação de um atestado. É-lhe dito que não é aceite, porque se marcam presenças e não faltas! A resposta da aluna foi a seguinte: prefiro fazer a cadeira para o ano. Tudo bem, a opção é sua, foi a nossa resposta.

Informação importante nesta história: o melhor aluno do ano em Internacional tinha nessa altura direito a um estágio remunerado pelo ICEP e para um período de 6 ou 12 meses.

No ano seguinte faz a cadeira. Tem a classificação de 18 valores. Foi considerada a melhor aluna desse ano na disciplina de Internacional. Ganhou o prémio do ICEP.

Pormenor curioso, meses depois, numa ida ao café com o Francisco Bandeira diz-me este, na altura vice-presidente do ICEP: então deram o prémio ICEP à minha prima! Quem é a tua prima? Diz-me o nome, nomes não fixo, e digo sim senhora, ela foi a melhor aluna: Depois, acrescentei, mas fica com uma certeza, a de que não sabíamos que era tua prima.

Moral da história: isto em qualquer dos seus detalhes era impossível hoje. Há uma grandeza moral nisto tudo quanto aos participantes citados no seu conjunto, a aluna e o Francisco Bandeira, difícil de encontrar hoje.

 

História de data recente, penso eu que foi em 2017-18

Veja-se agora o seguinte caso que me foi dado conhecer. Numa faculdade de uma das Universidades deste país ensinava-se uma dada disciplina, com um método de avaliação algo parecido com o que acima descrevi. Há um aluno que não cumpre a regra dos 75% de presenças. Não pergunta nada, apresenta um atestado médico que é recusado tal como eu recusei, como se explicou acima. Face à recusa em aceitar o atestado, a resposta foi mais ou menos assim: ah, ai é? Então vai ver! Tempos depois o docente é chamado ao seu Conselho Pedagógico onde é tenazmente defendido pelo seu Presidente, um antigo aluno seu que conhecia muito de perto as qualidades científicas e pedagógicas do docente em causa. Em minha opinião o docente não poderia ser convocado para o Pedagógico pela simples razão de que estava a ser acusado de não violar as regras de avaliação estabelecidas no início do ano. E disso ninguém pode ser alvo de uma convocatória. O caso não ficou por aqui. O aluno não desarma, e vêm os inquéritos aos estudantes e a turma de forma homogénea atribui-lhe uma classificação de 2 em 5 valores. O docente dirige-se ao Diretor da Escola dizendo-lhe que não tinha as condições adequadas para lecionar convenientemente a dita disciplina (eu diria de outra maneira, não estavam satisfeitas as condições para aí lecionar aulas como se devem lecionar, isto é, lecioná-las com o nosso saber e com a nossa alma também).

Uma década separa dois dos acontecimentos do terceiro, que envolvem alunos, professores e instituições, mas estes acontecimentos marcam bem a diferença nos sinais dos tempos.

 

Segundo conjunto de afirmações

Afirmo: “uma das mais nobres missões da Universidade seria transformar alunos bons em muito bons, médios em bons e péssimos alunos em alunos médios. Hoje, face à trajetória inversa a que assisto, direi que na altura eu estava a delirar enquanto agora direi que estou a ter um pesadelo. Uma questão dos tempos”.

Dizes-me:

”sobre o tempo universitário que vivemos. É desastroso… Por vezes sinto que não diz respeito só a alunos/as… É o “sistema” de hoje a funcionar, diriam os apreciadores da “bola”.

 

Mas uma coisa é certa, referimo-nos ambos ao conjunto alunos/professores/instituições. Penso haver alguma ironia quanto te referes “à bola”, mas na minha opinião, é sobretudo de sistema que se deve primeiramente falar e só depois de cada uma das suas componentes, instituições do ensino, professores, alunos.

Dito de outra maneira, o sistema na sua degradação é arrasador e hoje viver a remar contra a maré não resulta, ou melhor, resulta na destruição de quem assim rema. O exemplo, singular ou plural, acima mostra exatamente isso. Passando do singular ao plural, encontramos aqui o velho dilema do socialismo num só país, uma impossibilidade histórica, que transposto para o nosso caso se reduz a isto: num universo de mediocridade no ensino quem quiser fazer a diferença pela qualidade é aniquilado. É por isso que se assiste à espiral contínua da baixa de qualidade, equivalente também à lei de Gresham: a má moeda expulsa a boa moeda, ou dito agora, a má Universidade expulsa a boa Universidade. A concorrência entre Instituições faz-se pela baixa de qualidade e não pela alta.

Solução então: para esta situação tem de se partir de fora da Universidade, tem de partir do Governo, e desde logo do Ministro do Ensino Superior e da sua capacidade em modificar o quadro legislativo que preside a tudo isto. Só assim é possível uma mudança de mentalidade e por fora do SISTEMA. Mas como me dizia há dias um ex-alto quadro de um governo PS sobre o ensino superior: “ministro do Ensino Superior? Alguém fala dele? Alguém o cita pelo nome?” Não, respondi. “Aí tens a resposta, um ministro que politicamente não existe”.

Quanto à tua referência a professores, não me pronuncio diretamente mas a tua afirmação tem a sua lógica: se cada homem é o que são as suas circunstâncias, se as circunstâncias são um sistema totalmente falido, o que poderão ser os professores, sobretudo os formados desde 2010, filhos em linha reta de Bolonha? Quanto aos restantes, cabe-lhes resistir e no melhor dos cenários, ou seja, lentamente. E aqui fica uma pergunta: a edição do MIL FOLHAS não é ela o resultado de um ato de resistência?

_______________________

Notas

[1] Este esvaziar de funções é visível, por exemplo, no silêncio quase total e de quase todas as Universidades portuguesas face à crise levantada pela problemática da dívida pública na Europa de 2010 a 20xx. A acreditar no que escreveu Nicolau Santos, houve uma exceção: a escola de Coimbra, uma espécie de Gália, e nesta escola estarão necessariamente incluídos os elementos que levaram a bom termo o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Neste caso, apenas lamento que Nicolau Santos não tenha cumprido o que me prometeu: fazer para o Expresso uma recensão crítica do livro Perspectivas para uma Outra Zona Euro, editado pela Coimbra Editora e que constitui um exemplo do que foi o Ciclo de Cinema.

[2] Por se ter degradado o seu estado de saúde não participou na sessão da noite no Gil Vicente.

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply