A GALIZA COMO TAREFA – o centro – Ernesto V. Souza

A existência da Galiza está fora de toda questão. Mesmo que não exista como entidade política. Mesmo que não saibamos de seguro quais são os seus limites geográficos nem bandeira. Mesmo que não tenha vindo a existir como um Estado nação moderno nos séculos XIX e XX, que são os que – disque – contam.

Mas a sua história, pegada, energia étnica, humana, cultural e social, percorre os países e do mundo, em ondas de rádios próximos ou distantes, como se um ponto ou farol estivesse a emitir constantemente na fisterra, no meio e meio do Oceano Atlântico.

Civilizações, cultura, língua, política, comércio, ideias, pensamento, religiões, música, artesãos, estética, arte, literatura… tudo chegou e saiu dela por mar ou por esse caminho fixado nas estrelas – que já era velho na pré-história – que a liga ao continente euro-asiático.

Se algo carateriza ao longo da história o espaço ibérico Norte é a sua resistência, a sua essência de espaço refúgio, a sua capacidade de regeneração, o seu caráter de disco duro com capacidade para reset. Infelizmente a norte e sul do Minho foi-se estabelecendo uma parálise geral progressiva. A centralização e os processos de estatalização nacional da Espanha e Portugal foram periferizando, estranhando e desativando o noroeste: economia, comunicações, mercados, tradição, jeitos de enxergar a vida, filosofias provadas, costumes, propriedade,  língua até. Tudo peneirado, envolto, preparado, supeditado e devolto estandardizado pelas capitais.

O mundo anda baralhado e na procura de soluções imediatas. No pânico geral a mudar as cousas para que nada mude dos poderosos, tudo se mais desconcerta. E isto afeta tudo, ao nosso, às pequenas economias domésticas, aos projetos privados e coletivos. Uns vão para o fundo e outros ascendem. Os que mergulham afogam em raiva, tristura e frustração. Os que emergem assombram-se ante o espelho, por vezes sentido-se inteligentes, espertos, napoleaozitos ou estalininhos de patacão.

Não é a primeira vez que detenho o meu caminhar, que olho arredor e dentro e termino por procurar novos caminhos. É talvez uma questão de coerência, de estratégia, de intuição, de sobrevivência. E são, sim, momentos de escuridade global, que me fazem lembrar naquele sirventês  famoso do Joam Arias que “no mundo mingou a verdade” e que muito levamo’lo caminh’ errado.

Por vezes simplesmente precisamos ar, parar, procurar alternativas, traçar outros rumos, acompanhar projetos que nos interessem, motivem ou ofereçam caminhos novos. Lugares onde possamos colaborar e onde se valorize e faça algo de bom com os recursos humanos. E é nos tempos de soçobra, de naufrágios, catástrofes e mudanças, nos que o Norte mais emite ou brilha, que chama com intensidade.

O Norte reclama, envolto em saudades e ironia, algo que nem sabe bem que seja. Reclama talvez ser. Simplesmente. Recuperar a voz, a perspetiva, a centralidade. Restaurar a comunicação que lhe era natural com os espaços e terras arredor. Mais que o passado, é um futuro que sonha. Retomar a sua vocação europeísta própria e atlântica característica. Ser também uma parte, uma mais, da variedade imensa da lusofonia.

Talvez é por isso que, na mesma, uns colegas estão a construir um novo espaço jornalístico, com um pé a cada beira do Minho, com Centro e coração no Norte, ficam convidados:

Após tantos anos de afastamento chegou a hora de nos achegarmos. No Centro queremos partilhar notícias de interesse, abrir espaços de debate e comunicar ideias que unam ambas as margens do Minho.

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